 Nota: Este livro foi escaneado e corrigido por Norman P J Davis Jr em
2007, para o uso exclusivo de pessoas com alguma deficincia visual.
Este livro foi enviado para uma lista restrita, no devendo ser enviado
para listas abertas, pois sua distribuio ao pblico em geral, bem como
para fins comerciais  extritamente proibida pela lei brasileira de
direitos autorais.
 Nota: os nmeros de pgina esto nos cabealhos.

ROSEMARY SHAKESPEARE

PSICOLOGIA  DO  DEFICIENTE

Orelha do livro:

        O presente volume constitui uma introduo a alguns dos aspectos
da deficincia sensorial, mental e fsica, na medida em que afetam no
s as pessoas deficientes mas tambm os pais das crianas comumente
chamadas anormais e  sociedade que as cerca. So cobertas as
importantes reas do treinamento, problemas de personalidade, mtodos de
avaliao e assistncia residencial.
        Para seu estudo, a autora faz extenso uso de pesquisas,
levantamentos de campo e comentrios, depoimentos e entrevistas com
pessoas deficientes e aquelas que lhes esto social e emocionalmentc
ligadas. Por tudo isso Psicologia do Deficiente, alm de ser umjivro
escrito para os estudantes que utilizam os demais volumes do CURSO
BSICO DE PSICOLOGIA,  tambm um livro de inestimvel valor para
psiclogos, educadores, assistentes sociais e quantos convivem, por
dever profissional ou no, com deficientes de todos os graus e
modalidades. Dele ressalta que a simpatia no  o que esses doentes
querem e que a institucionalizao no  necessariamente do que eles
necessitam. Pelo contrrio, ROSEMARY SHAKESPEARE sublinha que precisamos
examinar as nossas prprias atitudes em relao aos que so diferentes
de ns; e temos que perceber de forma ntida como projetamos essas
atitudes nas providncias que so tomadas a respeito dos deficientes.
Cumpre-nos ainda descobrir seus sentimentos acerca de si mesmos como
indivduos, de suas famlias  e nossa prpria reao diante deles.
        Trs tipos bsicos de deficincia so descritos de forma
cuidadosa e completa, ainda que profundamente compassiva, neste volume:
as deficincias com um efeito primordialmente motor, como a paralisia
cerebral; a deficincia dos membros e a epilepsia: as que produzem um
efeito mental, social ou emocional, como a deficincia mental ou o
autismo; e as deficincias sensoriais, como a surdez e a cegueira. E a
grande lio que a autora nos prope  que em toda e qualquer pessoa
deficiente se reconhea, acima de tudo, uma pessoa e, depois, o portador
de uma deficincia que afeta alguns aspectos de seu comportamento  mas
raramente todos eles. O CURSO BSICO DE PSICOLOGIA compe-se de 36
pequenos volumes, dispostos em seis Unidades bsicas: dentro de cada
Unidade o primeiro volume constitui uma introduo aos demais.

PSICOLOGIA DO DEFICIENT


Unidade A: Psicologia Experimental

A1 Introduo  Cincia Psicolgica/David Legge

A2 Psicologia Fisiolgica / John Blitndell

A3 Aprendizagem e Reforo/Steve Walker

A4 Percepo e Informao/Paul Barber e David Legge

A5 Processamento de Informao e Aptides/D. Legge e P. Barber

A6 Memria Humana/Vernon Gregg

A7 Pensamento e Linguagem / Judith Greene

A8 Planejamento Experimental e Estatstica/Steve Miller

A9 Primeiros Experimentos em Psicologia/J. Gardiner e Z. Kamnska


Unidade B: Psicologia Social

BI Comportamento Social /Kevin Wheldall

B2 Comportamento Interpessoal e de Grupo/Judy Gahagan

B3 Valores, Atitudes e Mudana de Comportamento/Ben Reich e Christine
Adcock

B4 Psicologia Social das Organizaes/Frederick Glen

B5 Psicologia e Estrutura Social/Barry Stacey

Unidade C: Psicologia do Desenvolvimento

C1 Crescimento e Mudana/Harry McGurk

C2 Desenvolvimento Cognitivo/Johanna Turner

C3 Psicologia do Crescimento em Sociedade/Tony Booth

C4 Influncia da Cultura no Comportamento/Robert Serpell

C5 Dentro e fora da Escola/Joan Freeman

Unidade D: Personalidade

 D1 A Pessoa em Psicologia/John Radford e Richard Kirby

D2 Motivao/Phil Evans

D3 Teorias da Personalidade/David Peck e David Whitlow

D4 Diferenas Individuais/Richard Kirby e John Radford

Unidade E: Psicologia e Trabalho

El Psicologia e Trabalho/Roy Davies e V. J. Shackleton

E2 Seleo e Avaliao no Trabalho/Gilbert e Helen Jessup

E3 Psicologia do Treinamento/Robert Stammers e John Patrich

E4 Homens e Mquinas/Hywel Murrell

E5 Motivao no Trabalho/Hywel Murrell

Unidade F: Psicologia, Sociedade e Mudana

F1  Necessrio Mudar? /Fay Fransella

F2 Psicologia do Deficiente/-Rosemary Shakespeare

F3 Psicologia Clnica: Teoria e Terapia/Dougal MacKay

F4 Psicologia da Comunidade/Mike Bender

F5 Psicologia e Meio Ambiente/Terence Lee

F6 Como Escolhemos: Psicologia do consumidor/Mary Tuck

F7 Imagens do Homem em Pesquisa Psicolgica/John Shotter

F8 Perspectivas Radicais em Psicologia/Nick Heather

 ROSEMARY SHAKESPEARE

Psicloga-Chefe do Manor Hospital, Epsom, Inglaterra

                              PSICOLOGIA
                                  DO
                              DEFICIENTE


 Traduo de
LVARO CABRAL

Reviso Tcnica e Apresentao do

Prof.  DR. ANTNIO GOMES PENNA

Professor  Catedrtico   de   Psicologia   Geral   e   Experimental 
Chefe do departamento de Psicologia Geral e Experimental
do Instituto de Psicologia da UFRJ.



DIST.    LUSO MERCANTIL

Livraria
Gro-Par

R. 13 de Maio, 524 Caixa Postal, 1124 FONE, 223-4519 Belm-Par-Brasll

Casa   especializada em   Importao   e comrcio de livros tcnicos, cultura
geral,   enciclopdias, etc. nacionais e
estrangeiras.

ZAHAR EDITORES

RIO DE JANEIRO

Ttulo original: The Psychology of Handicap

Traduzido da primeira edio inglesa, publicada em 1975 por METHUEN & co. LTD.,
de Londres,
Inglaterra, na srie ESSENTIAL PSYCHOLOGY, dirigida por PETER HERRIOT

Copyright  1975 by Rosemary Shakespeare

capa de RICO

1977

Direitos  para  a   lngua  portuguesa   adquiridos  por

ZAHAR   EDITORES

Caixa   Postal   207,   ZC-00,   Rio

que se reservam a propriedade desta verso

Impresso no Brasil

ndice

Introduo do Organizador    7

Apresentao      11

1. O Contexto da Deficincia  ....  13

Deficincia Mltipla    ifc.  15

Deficincia Secundria   J7.  17

Contextos Culturais da Deficincia   18

Por Que Estudar as Deficincias?     21

2. Efeitos Psicolgicos da Deficincia    24

O Desenvolvimento do Conceito de Eu   24

Compreenso da Deficincia     26

Alguns Efeitos em Crianas de Escola   30



Alguns Efeitos em Adultos    32

Variao no Efeito    36

3. O Meio Ambiente     37

Ajustamento  Sociedade   37

Emprego      39

Atitudes da Sociedade para com o Deficiente    46



Interaes de Deficientes  e No-Deficientes     49

Mudana de Atitude    51

Curiosidade Ambiental     53

A Terminologia da Deficincia    54

Atitudes dos Profissionais    55

4. Famlias dos Deficientes    57

Reaes Iniciais  Deficincia  da Criana     57

Criar um Filho Deficiente    60

Problemas de Deciso    61

Prioridades e Predies dos Pais   63

Aceitao ou Rejeio  64

Superproteo       65

Problemas na Criao de Filhos Deficientes    6

6 NDICE

Efeitos de uma Criana Deficiente sobre as Relaes dos

Pais       74

Efeitos de uma Criana Deficiente sobre Seus Irmos .... 75

Mtodos de Auxlio s Famlias  77

5. Dficits Cognitivos, Motores e Educacionais    79

Mtodos de Avaliao de Dficits Cognitivos e Motores ... 79

Mtodos de Avaliao de Dficits Educacionais    81

Fatores Que Influenciam o Dficit Cognitivo    82

Fatores Que Influenciam o Aproveitamento Educacional .. 83



Autismo       86

Cegueira       88

Distrbio   Cerebral      89

Paralisia Cerebral    90

Suidez      91

Epilepsia        92

Deficincia   Mental     93

Distrofia  Muscular     94



Spina Bifida     95

Concluso       95

6. Distrbios de Personalidade e Comportamento    96



Mtodos de Estudos    96

Personalidade        97

Distrbios de Comportamento     99

Problemas  de  Avaliao     105

Aspectos  Psicolgicos   do   Tratamento   do   Comportamento

Perturbado       107

7. Avaliao Psicolgica do Deficiente    112



Razes  para  Avaliao     112

Propostas para Avaliao    112



Estrutura  Bsica  da  Avaliao     113

Mtodos de Avaliao   115

Alguns Problemas de Avaliao do Deficiente    122

Classificao pelo Comportamento Adaptativo    125

8. Aspectos Educacionais e de Adestramento Inicial     128

Interveno Desde Cedo    12&



Colocao  Escolar     133

Modificao do Comportamento em Escolas para Deficientes 136

Modificao do Comportamento no Adestramento Inicial  .. 139

9. Assistncia Residencial para os Deficientes     144

Razes para  a  Institucionalizao     144

Deficincias em Populaes Institucionalizadas    147

Mudanas nas Instituies  152

Variedades de Estabelecimentos Residenciais     154

O  Alvo  a Normalidade     157

APNDICE:    Uma Descrio de Deficincias   159


    p. 7
                       Introduo do Organizador

        A deficincia  um assunto que estamos comeando, lentamente, a
abordar.  maneira da sociedade,  provvel que nos congratulemos com o
fato de termos comeado a pensar nas pessoas deficientes como doentes e
no como vtimas de uma punio divina. Mas est ficando cada vez mais
claro que simpatia no  o que as pessoas deficientes querem e
institucionalizao no  necessariamente do que elas necessitam. Pelo
contrrio, precisamos  de examinar as nossas prprias atitudes em
relao aos que so diferentes de ns; e temos que perceber de forma
ntida como projetamos essas atitudes nas providncias que tomamos a
respeito dos deficientes. ROSEMARY SHAKESPEARE mostra que a pesquisa
cuidadosa das capacidades de uma pessoa deficiente no  suficiente.
Devemos tambm descobrir seus sentimentos acerca de si mesma como
indivduo, de sua famlia, e nossa prpria reao a ela. Este livro
fornece uma descrio cuidadosa e completa, ainda que profundamente
compassiva, do que sabemos sobre a psicologia da deficincia.
        Psicologia do Deficiente pertence  Unidade F do CURSO BSICO DE
PSICOLOGIA, O que unifica os vrios livros desta Unidade  o conceito de
mudana, no s nas pessoas, mas tambm na Psicologia. Tanto a teoria
como a prtica esto sofrendo, nesta rea, uma rpida transformao.
Revelam-se e se questionam os pressupostos subjacentes s diferentes
estruturas tericas. So defendidos novos pressupostos bsicos e, por
conseguinte, constroem-se novos quadros de referncia. Um exemplo  a
estrutura terica de doena mental: os pressupostos de

    p. 8
normalidade e anormalidade esto sendo questionados, assim como as
noes de causa, cura e a relao mdico-paciente. Em resultado de
tudo isso, desenvolveram-se diferentes quadros de referncia e esto
sendo iniciadas, de maneira gradual, diferentes prticas profissionais.
Existem, entretanto, vrias estruturas sociais e polticas que tendem a
inibir a traduo da teoria em mudana para uma prtica em mudana.

        Uma interessante modificao  a averso atual s estruturas
tericas que comparam seres humanos com alguma outra coisa. Por exemplo,
entre muitos psiclogos, a analogia do ser humano como computador, que
caracteriza a Unidade A,  menos favorecida que os conceitos de
desenvolvimento (Unidade C) e de pessoa (Unidade D) .

        O CURSO BSICO DE PSICOLOGIA est planejado como um todo para
refletir as mudanas estruturais e funcionais da Psicologia. Os autores
so professores universitrios e profissionais, e o seu objetivo foi
apresentar os conceitos mais importantes, em suas respectivas reas, aos
estudantes principiantes. Tentaram faz-lo com clareza, mas no
procuraram esconder o fato de que conceitos que hoje parecem centrais em
seu trabalho podero logo tornar-se perifricos. Por outras palavras,
apresentaram a Psicologia como um conjunto em desenvolvimento de
concepes sobre o Homem, no como um corpo de verdade revelada. No se
pretende que os leitores estudem toda a srie a fim de dominar os
princpios bsicos. Pelo contrrio, como diferentes pessoas podero
desejar usar diferentes enfoques tericos para seus fins particulares, a
srie foi planejada de modo que cada ttulo constitua uma pea autnoma.
Mas  possvel que, se o leitor nada leu antes de Psicologia, tire mais
proveito de cada livro se comear por ler as introdues (Al, BI, etc.)
s unidades a que eles pertencem. Os leitores das unidades respeitantes
s aplicaes da Psicologia (E, F) beneficiar-se-o, sem dvida, com a
leitura de todas as introdues.

        Uma palavra sobre as referncias no texto a obras de outros
autores  por exemplo, Smith (1974). Elas ocorrem quando o autor acha
que deve reconhecer (pelo nome) um importante conceito ou alguma prova
crucial. O livro ou artigo citado estar registrado nas Referncias

    p. 9
ao final do volume. O leitor  convidado a consultas essas fontes, se
desejar explorar os tpicos mais a fundo.
        Esperamos que a leitura de Psicologia lhes proporcione prazer.

                                    PETER HERRIO

    p. 11
                             Apresentao

        Psicologia do Deficiente, de ROSEMARY SHAKESPEARE, constitui
livro de inestimvel valor para psiclogos, educadores, assistentes
sociais, enfim, para todos os que convivem, por dever de ofcio ou no,
com deficientes de todos os graus e modalidades. Nele, a autora,
psicloga do Manor Hospital, de Epsom, fornece-nos informaes bastante
ricas e teis sobre a ampla problemtica de todos os que se situam na
faixa da deficincia.
        Um sucinto, mas claro estudo sobre as principais deficincias
nos  oferecido no Captulo Seis, a ele se voltando, em apndice, com o
objetivo de se fixarem as caractersticas bsicas de cada uma delas.
        Tambm oportuna a reviso do vocabulrio procedida no Captulo
Trs. Tal reviso tornou- se necessria em face do significado negativo
de alguns dos conceitos clssicos utilizados pelos que trabalhavam no
campo da deficincia. A prpria expresso Psicologia ao Deficiente,
utilizada pela autora, substitui com vantagem a velha expresso
Psicologia do Excepcional ainda predominante nos currculos de
Psicologia.
        ROSEMARY SHAKESPEARE mobiliza, ao longo dos nove captulos que
integram o livro, sua larga experincia clnica, e observaes muito
lcidas surgem em muitos deles, como, por exemplo, as que se detm no
problema da perda da intimidade dramaticamente vivida pelo deficiente,
devido  necessidade de ajuda que o caracteriza. A comparao feita pela
autora entre o modo como se cumpre a adaptao do deficiente nas grandes
e pequenas cidades, por igual,  bastante perspicaz. Na verdade, se na
pequena cidade ocorrem maiores possibilidades de

    p. 12
livre locomoo para o deficiente, tambm maiores so os preconceitos
que impedem sua acolhida adequada.
        Igualmente muito bom o estudo sobre os efeitos psicolgicos da
deficincia sobre os que por ela so atingidos e excelente a anlise das
reaes observadas no seio da famlia, principalmente por parte dos
pais.
        Por tudo isso, este livro, no obstante sua natureza
introdutria, se recomenda como texto para os cursos de Psicologia e
Educao.

                            ANTNIO GOMES PENNA

    p. 13
                                   1

                       O Contexto da Deficincia

        Muitas condies tm sido consideradas criadoras de
dificuldades; ser mulher, ser homossexual, ser negro, ser membro de uma
minoria religiosa e muitas outras caractersticas minoritrias tm sido
todas vistas, num sentido lato, como inferiorizantes. (Ver volume F8 do
CURSO BSICO DE PSICOLOGIA). Em comum com as condies vistas como
deficincias, no sentido estrito, quais sejam, a cegueira, a surdez ou a
deficincia fsica e mental, elas podem limitar as oportunidades de uma
pessoa, criar preconceitos em outras pessoas e causar frustrao.
        Neste volume, ns nos ocuparemos da deficincia na acepo mais
restrita e limitaremos o estudo a trs grupos de condies: deficincias
com um efeito primordialmente motor, como a paralisia cerebral, a
deficincia de membros e a epilepsia; as que produzem um efeito mental,
social ou emocional, como a deficincia mental, a doena mental ou o
autismo; e, finalmente, as deficincias sensoriais de surdez e cegueira
(ver o Apndice para uma breve descrio dos termos usados).
        Fundamental em qualquer estudo da deficincia  o reconhecimento
de que a pessoa deficiente , acima de tudo, uma pessoa e, em segundo
lugar, tem uma deficincia que afeta alguns, mas raramente todos os
aspectos do seu comportamento.  muito difcil que uma deficincia seja
alguma vez total, exceto nos poucos casos em que se combinem deficincia
fsica e mental e estas sejam de tal gravidade que o comportamento da
pessoa fique limitado a uma faixa em que  totalmente diferente

    p. 14
de qualquer comportamento observado no repertrio de uma pessoa normal.
Em todos os demais casos, a pessoa deficiente tem foras e fraquezas,
condutas afetadas pela deficincia e condutas que no o so. Ela pode
estar incapacitada para ver, mas no ter dificuldade alguma em
movimentar-se pela casa; pode ser surda, mas escrever poesia; pode ser
mentalmente deficiente, mas tima no futebol.

As deficincias cobrem uma vasta gama de nveis de gravidade, desde as
to moderadas que apenas  afetada uma pequena rea do comportamento,
at quelas que influem numa vasta parcela da vida de uma pessoa. O
deficiente abrange uma gama de pessoas que vai desde a que  levemente
surda, tem alguma fraqueza num membro ou no  suficientemente
inteligente para enfrentar as complicaes da vida cotidiana, at 
pessoa mental e fisicamente to incapacitada que necessita de
assistncia em todos os aspectos de sua vida.
        De um modo geral, podemos considerar todas as deficincias em
termos de inadequado desenvolvimento comportamental ou inadequado
funcionamento comportamental no modo como uma pessoa interatua com o seu
meio ambiente. Isto , a sua deficincia impediu-a de ter as reaes
normais ao seu meio circundante ou tornoulhe impossvel faz-lo, apesar
de j ter sido capaz disso. Por exemplo, o nosso meio exige que
trabalhemos e nos sustentemos financeiramente. Em virtude de sua
deficincia, a pessoa invlida no foi capaz de desenvolver as
necessrias aptides. As aptides de algumas pessoas deficientes
situar-se-o muito abaixo do nvel necessrio de desenvolvimento, outras
estaro perto mas no totalmente adequadas. A pessoa que se incapacitou
num perodo mais adiantado da vida, satisfazia antes as exigncias do
meio e trabalhava para sustentar-se mas a sua deficincia impede-a agora
de faz-lo.
        Assim, para avaliar o grau de deficincia de uma pessoa, temos
de avaliar quantas exigncias de seu meio ela  incapaz de satisfazer e
at que ponto a sua resposta est distante do nvel normal.
        Nenhuma deficincia especfica implica problemas especficos.
Existem profundas diferenas no grau em que as pessoas aprendem a lidar
com o mesmo grau de incapacidade. Por exemplo, uma pessoa com um grau
moderado de espasmodicidade pode viver uma vida normal,

    p. 15
trabalhar, dedicar-se a seus interesses e hobbies, fazer muitos amigos,
enquanto que uma outra, com uma deficincia semelhante, poder viver uma
vida restrita em casa com seus pais.
        As pessoas com deficincias nascem, de um modo bastante
randmico, em famlias estveis e carinhosas e em lares desfeitos ou
hostis. Alguns dos problemas e caractersticas da personalidade de uma
pessoa sero inteiramente devidos aos seus antecedentes, sem se levar em
conta a deficincia. Uma pessoa deficiente pode ter numerosos problemas
de personalidade ou no ter nenhum.
        Somos propensos a conceptualizar as pessoas deficientes como o
cego ou o retardado mental mas, dentro desses grupos, existe uma
completa gama de diferenas individuais na situao de famlia,
experincia de vida e ajustamento. Embora seja conveniente pensar nas
pessoas como sendo parte de um nico grupo de deficincias, cumpre
recordar que, de fato, as deficincias no so sempre de natureza nica
nem sempre simples em seus efeitos.

                         Deficincia Mltipla

        A tendncia  para classificar os deficientes em grupos
separados. A maioria das escolas especiais baseia-se numa s
deficincia, escolas para cegos, para surdos etc., embora algumas se
destinem a crianas duplamente deficientes. As organizaes voluntrias
concentram-se numa deficincia e as clnicas e estabelecimentos
residenciais dividem-se igualmente em categorias. Contudo, no  incomum
uma pessoa ter mais de uma deficincia. A referncia a pesquisas em que
se estudaram grupos selecionados sugere ser bastante elevada a
incidncia de deficincia mltipla.
        Sheila Hewett (1970), em seu estudo de 180 crianas com
paralisia cerebral, apurou que metade das crianas tambm eram
mentalmente retardadas ou suspeitas de o serem. Foi realmente confirmado
que 63 tinham deficincia mental e metade destas estavam entre as
crianas que tinham as mais srias deficincias fsicas. Alm disso, as
crianas mentalmente deficientes tinham mais convulses do que as que
no eram deficientes mentais

    p. 16
        Um outro estudo de um grupo de crianas, neste caso 200 entre
dois e doze anos de idade que haviam sido admitidas num hospital da
Frana como deficientes mentais, ilustra o ponto. Todas essas crianas
eram retardadas mentais; 25% sofriam, alm disso, de distrbios
sensoriais de perda auditiva e problemas visuais, e 50% tinham
epilepsia.
        Um estudo epidemiolgico empreendido na Ilha de Wight (Rutter e
outros, 1970) examinou a sobreposio de deficincias em crianas de
nove a onze anos de idade. Apuraram que, reunindo as deficincias
intelectuais, educacionais, psiquitricas e fsicas, um quarto das
crianas deficientes tinha mais de uma deficincia; 90% das crianas
mentalmente retardadas tinham outras deficincias; quatro em cada cinco
tinham uma deficincia educacional, na medida em que apresentavam um
atraso educacional, um tero tinha uma deficincia fsica e mais de um
quinto uma deficincia psiquitrica. Das crianas portadoras de
deficincia fsica, 29% tinham uma outra deficincia, embora a maioria
no tivesse. Cerca de um quinto representava uma deficincia educacional
e uma em cada seis um distrbio psiquitrico. Alm disso, uma em cada
seis era tambm intelectualmente retardada.
        Por conseguinte, um nmero significativo de pessoas deficientes
 portador de mais de uma deficincia e, portanto, mais so as reas de
comportamento afetadas.
        Alguns casos de deficincia mltipla podem ser particularmente
difceis de diagnosticar. Por exemplo, uma pessoa com paralisia cerebral
pode ter tambm uma perda auditiva mas as suas reaes lentas ou
ausncia de resposta ao som podero ser atribudas  paralisia cerebral.
Voltar involuntariamente a cabea pode ser interpretado como busca das
fontes de som; a ausncia de fala e de resposta a solicitaes verbais
talvez seja atribuda a dificuldades motoras e no  incapacidade
auditiva. Somente cuidadosas tcnicas de avaliao podem demonstrar a
extenso de seus problemas e talvez transcorra algum tempo at ser
compreendida a condio real do indivduo.
        Por outro lado, foram registrados casos em que uma criana
parecia ter mais deficincias do que realmente tem. Por exemplo, nos
primeiros anos de vida, uma criana cega com paralisia cerebral pode ter
muito poucas reaes e parecer tambm mentalmente retardada mas quando
recebeu, mais tarde, uma considervel soma de

    p. 17
estimulao e aprendeu como reagir ao seu meio circundante, poder
provar ser muito mais inteligente do que no comeo se pensava.
        A deficincia mltipla pode ser de aceitao particularmente
difcil pelos pais e no  incomum todos os problemas serem atribudos a
uma s deficincia, sobretudo se estiver envolvido o retardamento
mental. Nos primeiros anos,  mais tolervel para os pais achar que, se
a criana pudesse andar, ou ouvir, ou no fosse emocionalmente retrada,
seria uma criatura inteiramente normal. Aceitar o fardo extra de ter que
se reconhecer uma limitao mental, alm da diplegia espstica, surdez
ou autismo,  que pode constituir para os pais um difcil processo.

                        Deficincia Secundria

        No caso em que a pessoa tem uma s deficincia, temos de
considerar se ela tambm  portadora de deficincias secundrias.
Qualquer deficincia  suscetvel de criar limitaes que restringem
ainda mais o comportamento, de uma forma direta ou indireta, e um dos
objetivos bsicos da instruo e educao nos primeiros anos 
justamente procurar evitar essas limitaes. Por exemplo, uma criana
com paralisia cerebral tem um controle inadequado dos movimentos de
braos e pernas. Isto significa que ela ter dificuldades em manipular
brinquedos prprios para a sua idade e dispor de menos oportunidades
para se movimentar e explorar os seus arredores. Tem menos experincias
que as crianas no-deficientes da mesma idade e menos oportunidades de
aprendizagem; logo,  passvel de ter um desenvolvimento mental mais
lento. Permanece fisicamente dependente por mais tempo que o normal e,
assim, manter-se- emocionalmente imatura, pois ter de interatuar com
outras pessoas do mesmo modo que as crianas mais novas, chorando e
gritando para que a ajudem, em vez de poder ajudar-se a si mesma. Alm
disso, as atitudes das pessoas que a cercam podem retardar o seu
desenvolvimento geral, porquanto  difcil tratar uma criana imvel,
fisicamente limitada, do mesmo modo que a criana mvel da mesma idade.
        Na mesma ordem de idias, uma pessoa mentalmente retardada
poder ser mantida em casa pela famlia que

    p. 18
considera seu dever proteg-la. Pode ser impedida de contatos com outras
pessoas, desencorajada de fazer coisa alguma por sua prpria iniciativa
e tratada como uma criatura impotente. Portanto, corre o risco de
desenvolver uma deficincia social secundria, nas aptides da vida
cotidiana e interao social, e  capaz de contrair um problema de
comportamento secundrio  deficincia mental, atravs do tdio e da
ausncia de firme controle.

                  Contextos Culturais da Deficincia

        Se uma determinada condio  considerada uma deficincia ou no
variar com o meio onde a pessoa vive, com a sua situao pessoal na
poca e a atitude da sociedade em relao a ela. Uma criana numa
famlia em que existem outras pessoas deficientes no ser vista como
particularmente diferente, por exemplo, se outros filhos tambm forem
retardados mentais ou outros membros da famlia tiverem convulses. Mas,
por outro lado, uma deficincia comparativamente benigna pode ser
considerada uma grave incapacidade numa famlia para quem essa
deficincia seja inslita ou incomum. As pessoas com a mesma deficincia
variaro no grau em que se consideram invlidas e, por vezes, variaro
na medida em que se vem como deficientes numa dada circunstncia e no
em outras.
        Uma deficincia deve ser sempre vista em funo da sociedade e
esta torna-se importante desde o momento do nascimento da criana,
quando os parentes e amigos, ao saberem da notcia, no enviam os
habituais cartes de parabns e presentes, ou desde quando a deficincia
 assinalada e os pais no tm outro remdio seno deixar que outras
pessoas conheam o diagnstico e enfrentar a curiosidade dos amigos que
notaram no estar a criana a desenvolver-se de forma inteiramente
normal. A sociedade no  apenas um pano de fundo para a vida da pessoa
deficiente;  uma fora que imprime determinada forma  sua prpria
vida. Ela ser afetada pelo comportamento das outras pessoas, pela
disposio destas para a ajudar ou rejeitar. Ser afetada pelas normas e
valores da sociedade em que vive; se a sua comunidade atribui elevado
valor ao xito material, ao sucesso esportivo, s realizaes
intelectuais, e se a tolerncia e a boa vizinhana

    p. 19
so consideradas importantes. Ser ainda afetada pelas instituies e os
servios criados pela sua sociedade; se existem ao seu alcance meios
assistenciais para ajud-la a levar uma vida plena, se foram tomadas
providncias na expectativa de que ela venha a necessitar de ser
removida da comunidade, se dispe de organizaes para auxili-la e
garantir sustento  sua famlia.
        De um modo geral, qualquer condio converte-se numa deficincia
se causa um problema  pessoa portadora dessa condio ou s pessoas com
quem ela vive em sua famlia imediata ou na comunidade em geral.
        Apurou-se que a probabilidade de uma pessoa ser apontada como
deficiente  afetada pela cultura em que ela vive. Num contexto
altamente industrializado, competitivo e em desenvolvimento acelerado, a
incapacidade de interao  mais suscetvel de tornar-se bvia que em
meios menos exigentes; assim, mais pessoas so passveis de serem
consideradas deficientes numa rea urbana do que numa rural. Uma pessoa
deficiente poder achar mais fcil perambular por uma aldeia onde o
trnsito oferece poucos perigos, onde h menos necessidade de realizar
grandes percursos e onde as pessoas no tm tanta pressa que no possam
acompanhar o passo mais lento daquela. No obstante, a existncia de tal
pessoa numa aldeia nem sempre  to bem tolerada e idlica quanto por
vezes se pensa, pois ocorre com freqncia uma certa dose de desaforo,
provocao e caoada. Tambm se verificou que a disponibilidade corrente
de emprego influencia a freqncia com que so assinalados os indivduos
deficientes; em pocas de alto nvel de desemprego os menos aptos
defrontam-se com maiores dificuldades para obter trabalho, sendo mais
provvel a sua incluso na categoria dos que necessitam de auxlio.
        O meio mais imediato tambm  importante. A espcie de famlia a
que uma pessoa pertence, suas atitudes e expectativas, e o grau de apoio
que lhe pode ser dado afetaro a maior ou menor probabilidade de que a
considerem deficiente. A debilidade fsica pode ser menos importante
numa famlia que no se interessa por esportes ou ocupaes ativas mas
pode tornar-se um obstculo se significar a excluso de grande parte da
atividade familiar. Uma pessoa portadora de moderada deficincia mental
poder no ser notada numa famlia de baixa inteligncia e escassos
interesses acadmicos; neste contexto

    p. 20
 improvvel que ela seja considerada deficiente. Uma pessoa com o mesmo
grau de deficincia numa famlia sumamente inteligente, onde se espera
que o xito acadmico seja uma realidade concreta, tem maiores
probabilidades de se encontrar em desvantagem.
        Uma terceira considerao  a idade e fase da vida da pessoa.
Algumas condies so vistas como deficincia em certas circunstncias e
no em outras. Existem pontos crticos na vida de uma pessoa deficiente
que, em geral, refletem momentos difceis para os indivduos
no-deficientes. Iniciar a escolaridade pode constituir um momento em
que uma deficincia se torna bvia pela primeira vez, porquanto a pessoa
tem ento de competir com o seu grupo etrio; a adolescncia tambm pode
realar uma deficincia, por ser a poca em que o adolescente se torna
cnscio de seus atrativos como parceiro sexual. Sabe-se que, no caso de
deficincia mental moderada, os nmeros registrados de incidncia so
mais elevados entre os 10 e os 20 anos do que em grupos etrios mais
velhos. Portanto, podemos supor que mais adolescentes necessitam ser
considerados deficientes do que no caso de adultos. Foram sugeridas
vrias explicaes para esse fenmeno, entre as quais se inclui a
aprendizagem prolongada  que a pessoa com uma deficincia mental
benigna aprende mais lentamente mas atinge um nvel adequado de
aprendizagem social na idade adulta, um ritmo mais lento de
amadurecimento ou um efeito de camuflagem, isto , na idade adulta 
mais fcil encontrar um modo de vida em que as deficincias passam
despercebidas, ao passo que os adolescentes esto competindo primeiro na
escola e depois aprendendo e competindo por uma ocupao profissional.
        Tambm parece existirem diferenas de sexo na incidncia de
deficincias. H uma ligeira tendncia para que os rapazes sejam mais
suscetveis de ser considerados deficientes que as moas, e considera-se
geralmente mais fcil que as famlias aceitem a permanncia em casa de
uma filha deficiente, vivendo uma vida protegida, do que no caso de um
filho nas mesmas condies. A moa tem mais probabilidades de ajudar nos
afazeres domsticos, de costurar ou bordar, e, por conseguinte, no
estar to obviamente desocupada.
        Uma influncia cultural final sobre a experincia de uma pessoa
deficiente  o que geralmente se espera que

    p. 21
lhe acontea. A chegada de uma pessoa deficiente a uma sociedade pode
ser vista como um colapso nas expectativas dessa sociedade. A maioria
dos grupos sociais tem um padro esperado de vida e alimenta certas
expectativas acerca do modo como os seus membros se conduziro. Uma
deficincia torna irrelevantes muitas dessas previses e o grau em que
qualquer grupo poder reajustar-se  varivel. A deciso que ter maior
influncia sobre a pessoa deficiente  se ser includa ou excluda; e
isto, por seu turno, depender do que se espera dela. A forma extrema de
excluso  a atitude segundo a qual a criana deve ser afastada o mais
cedo possvel, uma vez que no ser capaz de compartilhar das coisas que
o seu grupo social considera importantes nem estar apta a contribuir
para a sua sociedade. Atualmente, uma criana vista como retardada
mental  considerada em extrema necessidade de internamento numa
instituio onde possa viver uma vida separada; a comprovao de
inteligncia normal, seja qual for a extenso da deficincia fsica,
parece produzir uma atitude contrria  segregao e  uma das
principais influncias sobre a deciso de manter a criana em seu lar.
As comunidades ainda variam em sua aceitao ou rejeio dos
deficientes, embora existam provas de uma mudana de atitude no sentido
da aceitao nos ltimos anos. As atitudes sociais encaminham-se
atualmente no sentido de providenciar para que os deficientes vivam no
seio da comunidade, em vez de serem segregados.

                   Por Que Estudar as Deficincias?

        H trs finalidades bsicas no estudo psicolgico da
deficincia:

        1. Precisamos conhecer os efeitos de vrios tipos de deficincia
sobre a pessoa portadora da deficincia; de que modo afeta o seu
desenvolvimento mental, o seu progresso escolar, a sua personalidade, a
sua conduta social, as suas reaes emocionais e o seu ajustamento ao
trabalho, assim como as exigncias da vida como adulto na comunidade a
que pertence.
        Precisamos saber quais so os efeitos sobre uma famlia de ter
um membro deficiente e de que modo a vida de seus pais e irmos 
influenciada.

    p. 22
Precisamos conhecer as reaes dos no-deficientes aos deficientes, e o
que determina as atitudes positivas ou negativas.
        2. Essas informaes devem ser o mais exatas possveis. Muitos
livros escritos acerca da deficincia, incluindo os de autoria de
pessoas deficientes, contm comentrios reveladores sobre as reaes 
deficincia. O que nem sempre se sabe  se qualquer experincia
particular  nica,  comum a poucos ou a muitos indivduos. Para esse
fim, so especialmente teis as pesquisas com grupos de pessoas, visto
que poderemos ento apurar se qualquer comentrio  tpico de cinco por
cento ou de noventa e cinco por cento de um grupo.
        Nesse contexto, faz-se grande uso de entrevistas, sobretudo
quando so estudadas as mes dos deficientes. Usualmente, o
entrevistador possui uma idia geral das informaes que pretende colher
mas, dentro de cada assunto, encoraja a me a falar livremente. Algumas
das informaes compiladas desse modo so retrospectivas e no 
possvel, usualmente, saber at que ponto a memria da me  fidedigna.
Sabe-se, por exemplo, que quando descrevem a maneira como criaram seus
filhos, as recordaes das mes podem ser levemente distorcidas na
direo do que  considerado na poca ser a melhor prtica de
puericultura; por exemplo, a me que adotou um horrio rgido quando
amamentou seu beb, numa poca em que tal prtica era popular, 
suscetvel de recordar durante a entrevista que era muito menos rigorosa
quanto a horrio do que na realidade foi. Por esta razo, as informaes
obtidas acerca do presente ou do passado recente tendem a ser mais
idneas. Tambm h a possibilidade de as mes no gostarem de admitir a
um entrevistador que usaram mtodos que outras pessoas talvez
considerassem indesejveis, como a punio fsica, o uso de chupeta ou
sair e deixar a criana sozinha. Entretanto,  sumamente provvel que o
mtodo de entrevista seja aceitvel para aquelas mes que podem
conversar descontraidamente e propiciar a revelao de informaes
completamente novas que no eram esperadas pelo entrevistador.
Concludas todas as entrevistas, o investigador poder ento tabular
todas as opinies formuladas e produzir freqncias de atitude.
        A pesquisa sobre atitudes tende a fazer uso de questionrios
planejados para descobrir em que ponto de um

    p. 23
contnuo se situa a atitude do respondente; esse contnuo pode ser de
ajustamento/desajustamento, de atitude positiva/negativa em relao ao
deficiente ou de interesse/ desinteresse no estudo da deficincia.
        So usadas medidas de desenvolvimento para descrever
determinados grupos. Tais medidas podem ser testes ou escalas de
desenvolvimento que fornecem uma orientao no tocante aos estgios de
desenvolvimento normal e s idades em que eles ocorrem.
        Quando dispomos de medidas acuradas do grupo de pessoas que est
sendo estudado, podemos ento procurar os fatores inter-relacionados
numa tentativa de descobrir o que poderia causar a mudana.
        3. As metas acima mencionadas tm como finalidade bsica saber
se podemos causar mudanas que tornem mais feliz a experincia do
deficiente, talvez atravs de melhor adestramento e educao, do
fornecimento de mais servios de aconselhamento, de maior ajuda e
orientao aos pais para que assistam no desenvolvimento de seus filhos.
        Tambm  necessrio saber se podemos melhorar alguns dos efeitos
indesejveis da deficincia, mediante a modificao das atitudes
pblicas e o aumento das oportunidades acessveis aos deficientes.

    p. 24
                                   2

                  Efeitos Psicolgicos da Deficincia

                  O Desenvolvimento do Conceito de Eu

        Todas as experincias de uma criana em seus primeiros anos de
vida contribuem para o conhecimento que adquire de si mesma. (Ver C3.)
As bases do conceito de Eu (Self-concept) so estabelecidas durante os
primeiros meses, quando o beb comea a distinguir o que  eu e o que
 no eu, atravs dos movimentos e da observao de seus membros,
aprendendo a agarrar objetos, descobrindo que pode afetar o meio
circundante graas aos seus prprios movimentos. Quando aprende que os
objetos e as pessoas so permanentes e tm existncias separadas,
atribui-lhes nomes, pergunta por elas e compraz seus pais ao
descrev-las. Aprende a reconhecer pessoas familiares, a conhecer-se num
espelho e que pode influenciar o comportamento dos outros, assim como
estes influenciam o dela. Quando sai de casa, aprende sobre o mundo 
sua volta e, mais tarde, ouvir histrias de livros, rdio e televiso,
sobre o que fazem outras crianas como ela.
        Quaisquer dessas experincias, seno todas, so menos acessveis
 criana deficiente e verifica-se quase sempre que o desenvolvimento de
uma criana deficiente  mais moroso, em maior ou menor grau, que o de
uma criana normal, ainda que a deficiente seja de inteligncia normal.
        O desenvolvimento sensrio-motor em seus primrdios  isto ,
quando a criana coordena seus membros, olhos e ouvidos   retardado
por limitaes fsicas ou

    p. 25
dficits sensoriais, e as frustraes por ser incapaz de realizar o que
quer podem ter um efeito adicional de atraso. Assim, o seu conceito de
Eu como entidade separada , desde o comeo, mais difcil de se
realizar.
        Posteriormente, o desenvolvimento da fala  mais difcil. A
criana pode ter problemas de comunicao, uma perda auditiva ou a fala
ser to pobremente articulada que seus pais no a reconheam nem
recompensem os seus esforos. Tambm se comprovou ser menos freqente
dirigir-se a palavra s crianas deficientes, sobretudo s que sofrem de
retardamento mental, uma vez que se espera menos delas; essas crianas
parecem ser incapazes de entender o que se lhes diz, ou so menos
receptivas e mostram escasso reconhecimento pelo fato de se lhes dirigir
a palavra. Receber um nome e ser chamado por ele  uma parte bsica do
desenvolvimento do conceito de Eu, e as crianas pequenas usam seu
prprio nome antes de comearem a usar eu quando se referem a si
mesmas. Assim, uma criana deficiente estar menos familiarizada com o
seu nome se as outras pessoas lhe falarem com pouca freqncia.
        O uso de espelhos, que  geralmente uma parte aceita da
experincia de uma criana normal, pode constituir uma deciso difcil
para a me de uma criana deficiente, pois talvez ache que deseja
proteg-la. As mes de crianas portadoras de incapacidades fsicas
podem ser relutantes quanto ao uso do jogo de espelho.
        Quando a criana comea a ouvir histrias e a ver televiso,
escuta e assiste a descries e relatos de atividades infantis que ela
talvez nunca venha a experimentar; por conseguinte, ter muito mais
dificuldade em identificar-se com as personagens, pois ser incapaz de
imaginar-se fazendo o que elas fazem.
        Nessas e em muitas outras atividades, a criana deficiente
arrisca-se, pois, a estar em desvantagem. Por essas razes, os programas
de adestramento primrio coroados de maior xito tm sido os que colocam
as experincias de uma criana deficiente o mais perto possvel das de
uma criana normal, usando brinquedos adaptados que ela possa manipular,
encorajando a me a falar o mais assiduamente que puder com a criana,
ainda que a sua resposta seja morosa, fornecendo-lhe carrinhos,
bicicletas, voadores, para que a criana menos mvel experimente
movimento e explorao. As escalas de desenvolvimento

    p. 26
da criana normal podem ser usadas tanto para avaliar o progresso como
para sugerir que experincias devem ser proporcionadas em qualquer
estgio dado. (Por exemplo, Stephen e Robertson, 1972.)
        O conceito de eu  usualmente inferido do que uma pessoa diz
sobre si mesma. Contudo, se for muito jovem ou muito invlida, 
necessrio observar o seu comportamento para ver se ela se conduz como
se, por exemplo, tivesse controle sobre o seu meio.
        Um conceito afim do conceito de eu (self)  o de imagem
corporal, que se refere  representao mental que uma pessoa faz de seu
prprio corpo. O desenvolvimento dessa imagem corporal tambm  mais
difcil para a criana deficiente, tanto porque tem menos experincias
de uso do seu prprio corpo como por no poder aprender tanto a seu
respeito atravs dos outros. Dois aspectos da imagem corporal esto
usualmente includos: o que uma pessoa considera ser uma imagem ideal ou
desejada e o que ela v como seu corpo real. Foi notada nas crianas
deficientes uma tendncia para achar que as no-deficientes so
perfeitas e existe o perigo de que a sua imagem corporal ideal seja
totalmente diferente do modo como se vem a si mesmas. Embora seja
normal uma pequena discrepncia entre as duas concepes, uma diferena
exagerada  considerada, de um modo geral, psicologicamente desajustada.

                      Compreenso da Deficincia

        Quando uma criana deficiente desenvolve um conceito de Eu, esse
conceito deve, em algum estgio, incluir a prpria deficincia. Contudo,
 difcil generalizar quando isso ocorre, pois as entrevistas com mes
sugerem que raramente existe qualquer ponto claro de compreenso. No
caso de uma deficincia congnita, a criana apercebe-se usualmente de
que tem uma limitao na mesma altura em que se d conta de que outras
no a tm, talvez quando compreende que as outras crianas correm e ela
no pode correr.
        Em alguns casos, essa compreenso pode ser muito tardia. 
possvel que uma famlia, para proteger uma criana em seus primeiros
anos, a impea de saber que a sua experincia  diferente. Se a criana
freqenta uma escola residencial, em que todos os alunos tm a mesma

    p. 27
deficincia, talvez ela no atinja a plena conscincia de que 
excepcional. Entretanto, raramente  possvel a uma pessoa deficiente
deixar de medir o impacto de sua deficincia alm da adolescncia. A
procura de emprego e as experincias de namoro tm sido consideradas o
perodo em que a realidade da deficincia e as atitudes dos outros em
relao a ela so plenamente avaliadas. Uma exceo a isso  o caso dos
portadores de graves deficincias mentais, quando, pela prpria natureza
das limitaes, a deficincia no  freqentemente compreendida.
        A exposio a outras pessoas com a mesma deficincia 
geralmente uma importante experincia com efeito varivel.
Generalizando, as crianas tendem a considerar tranqilizador o fato de
existirem outras crianas que tm os mesmos problemas e de no serem
casos nicos. Nos adultos, o efeito  varivel; alguns consideram
tranqilizador e repousante estar com outras pessoas que tm os mesmos
problemas e com quem podem compartilhar atividades. Outros, sobretudo se
a sua deficincia  de gravidade mdia, sentir-se-o deprimidos e at
horrorizados por se esperar deles que faam parte de um grupo
deficiente; e evitaro toda e qualquer associao com esse grupo.
        Uma deficincia adquirida mais tarde na vida envolve uma espcie
algo diferente de compreenso, em geral muito mais rpida do que a
compreenso de uma deficincia congnita. Nesse caso, o conceito de eu
tem de ser alterado e, no caso de uma grave incapacidade, ter de ser
adquirido um totalmente novo. A par deste processo, outras pessoas que a
conheceram antes de ela se tornar deficiente precisam voltar a conhecer
essa pessoa. De um modo geral, as pessoas em posio de se incapacitarem
num perodo adiantado da vida relatam que a interao  mais fcil com
novos conhecimentos do que com as pessoas que conheciam antes de
contrarem a deficincia.
        Um importante elemento no conceito de eu de uma pessoa  a sua
percepo dos papis que pode desempenhar em relao a outras, e a sua
percepo dos papis que elas desejariam desempenhar em relao a ela. A
pessoa pode-se ver como uma organizadora, como o ganha-po de sua
famlia, como um sujeito divertido em reunies sociais. Talvez ache que
os outros a vem como um conselheiro, como algum que ajuda quando
ocorrem problemas, e que seus filhos a consideram uma pessoa poderosa.
Considervel

    p. 28
reavaliao do conceito de eu se faz necessria quando ocorre uma
deficincia. A pessoa tem de reformular a sua percepo de si mesma e do
que acha ser a percepo que os outros tm dela. Se o seu conceito de eu
foi excessivamente diferente do modo como os outros realmente o vem, 
bem provvel que no se ajuste  sua nova situao.
        Esse papel de doente  freqentemente mencionado neste
contexto. Ser doente, deficiente ou invlido envolve o desempenho de um
papel especial no relacionamento com outras pessoas e a expectativa de
que estas desempenhem papis adequados a uma pessoa doente. Isto implica
usualmente a expectativa de que cuidem dela, de que a absolvam de
responsabilidade e de que adotem para com ela uma atitude de
condescendncia. Desempenhar o papel de doente  necessrio s vezes,
e habitual nas fases iniciais da incapacidade, mas pode causar problemas
numa famlia se se prolongar por tempo demais ou alm do tempo
necessrio.
        A reao  deficincia adquirida na idade adulta no se
relaciona proporcionalmente com a gravidade objetiva da deficincia. Uma
deficincia comparativamente benigna pode causar uma severa reao
emocional e uma deficincia mais sria uma reao muito menor. Os
fatores causais no grau de reao parecem ser o que a deficincia
adquirida significa para a pessoa, em funo do seu estilo de vida, sua
ocupao profissional e seus interesses. A surdez adquirida  suscetvel
de chocar uma pessoa que gosta de msica, trabalha como telefonista e
passa muito tempo na companhia de outras pessoas, mais do que algum que
confie menos no ouvido. A deformidade fsica  mais difcil de ajustar
no caso de uma pessoa que sempre se preocupou com a sua aparncia do que
para aquelas cuja aparncia  menos importante.
        Uma srie de reaes reconhecveis foi notada em pessoas que
adquirem deficincias; todas essas reaes so normais e naturais, em
certa medida, mas podem causar problemas se forem excessivas ou durarem
demais. Poder ocorrer a negao, uma recusa em aceitar que alguma coisa
est errada; isto  interpretado como o modo do indivduo se proteger
inconscientemente de um choque demasiado brusco, e tem sido assinalado
naqueles casos em que a deficincia  adquirida de sbito.
        Ansiedade e depresso ocorrem freqentemente como reaes 
perda do eu anterior e de algumas aptides

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anteriores. Outras reaes que tambm se sabe ocorrerem geralmente  em
grande parte num nvel inconsciente, sem que a pessoa esteja plenamente
cnscia do que est a acontecer  so a regresso, quando a pessoa age
como algum mais jovem, tornando-se talvez superdependente; o aumento de
isolacionismo, quando a pessoa se torna exigente e intolerante das
necessidades alheias, se estas conflitarem com as suas; eliminao do
contato com outras pessoas; crescente uso da fantasia, tambm como fuga
para evitar encarar a realidade da deficincia; projeo, quando os
sentimentos de inadequao da pessoa so desviados para outras e
invertidos, de modo que ela v as outras pessoas como as que a
consideram inadequada; novas identificaes, como a compra de coisas
caras, ou a adeso a grupos considerados de elevado status, a fim de
recuperar sua perdida confiana atravs de novas e impressionantes
associaes. Nenhuma dessas reaes  inevitvel e tampouco  provvel
que uma pessoa manifeste todas elas. Contudo,  usual observar-se em
certo grau algumas dessas reaes.
        De um modo geral, a compreensov tem maiores probabilidades de
ocorrer nos pontos de crise. O conceito de pontos de crise aparece com
freqncia na literatura sobre deficincias. Trata-se daqueles estgios
que so importantes no desenvolvimento normal mas se revestem de
importncia intensificada para a pessoa deficiente. Para esta, so os
perodos em que a sua deficincia lhe causa dificuldades adicionais e
constituem usualmente pontos de deciso sobre se ela pode fazer parte da
sociedade normal ou deve desempenhar o papel diferente de deficiente.
Pontos crticos so a poca de ir  escola, quer se trate de escola
normal ou especial; ser aceito como amigo por outros rapazes ou como
namorado pelas moas (ou o inverso no caso feminino); obter um emprego
normal e ser aceito sem restries por um patro ou necessitar de
trabalho protegido; estar apto a sair de casa dos pais, fazer uma vida
independente, casar e arcar com as responsabilidades de um lar.
        Estes estgios tornam-se mais difceis para a pessoa deficiente,
por causa das dificuldades em saber o que se espera e da incapacidade
para prever. A maioria das pessoas no- deficientes cresce com
expectativas bastante claras, baseadas no que acontece  maior parte das
pessoas que conhecem. Podem formular normas com base no que as pessoas
comuns em torno delas fazem, e podem planejar suas carreiras. As pessoas
deficientes tm poucas ou

    p. 30
nenhumas normas a gui-las. Ao passo que a me de uma criana normal
pode dizer confiantemente a seu filho, Quando voc for  escola... ou
Quando voc tambm tiver filhos..., a me de uma criana deficiente
hesitar no uso de frases como essas, pois raramente lhe  possvel
julgar qual ser o futuro de seu filho.
        As mesmas incertezas afetam a pessoa deficiente  medida que
cresce.

                 Alguns Efeitos em Crianas de Escola

                           Uso de Conceitos

        O conceito de eu e os conceitos de outros so certamente
afetados pelo nvel de inteligncia do indivduo, e verifica-se
geralmente que as crianas dotadas de inteligncia inferior tm menos
conscincia de si mesmas e das outras pessoas, na medida em que usam
menos categorias de descrio, ao passo que as crianas mais
inteligentes estaro conscientes das diferenas entre pessoas numa vasta
gama de caractersticas.
        Wooster (1970) comparou o uso de conceitos de outras pessoas por
rapazes de uma escola para subnormais educacionais e por rapazes de uma
moderna escola secundria. Foram avaliados 16 rapazes de cada
estabelecimento de ensino. Mostrou-se-lhes oito fotografias de rapazes e
pediu-se-lhes que os indicassem por ordem para vrias caractersticas,
como muito amvel, brigo, digno de confiana e no fez como lhe
pediram. Os alunos SNE (subnormais educacionais), que eram de
inteligncia limitada, usaram todas as caractersticas como se fossem
parte do mesmo conceito. Parecia no se aperceberem de diferenas mais
sutis: a pessoa considerada amvel era tambm vista como digna de
confiana, fazendo como lhe mandavam, incapaz de brigar e assim por
diante. Os rapazes da moderna escola secundria, que eram de
inteligncia normal, mostraram-se muito mais propensos a usar os
conceitos separadamente, pelo que a fotografia que se classificava em
primeiro lugar num conceito podia estar numa classificao intermdia
quanto a um segundo conceito e ser ordenada de maneira diferente para os
demais conceitos.

    p. 31
                         Nveis de Expectativa

        Existe discordncia sobre se o fato de ser deficiente produz uma
baixa ou uma alta expectativa quanto s realizaes de uma pessoa. Foi
sugerido que uma importante dimenso da personalidade entre os
deficientes pode ser a busca de xito ou evitao de fracasso. Algumas
crianas parecem almejar o sucesso e no ficar muito perturbadas com o
fracasso, outras tentaro evitar o fracasso a todo o custo, no se
mostrando preocupadas com o fato de terem poucos xitos. Pensa-se
existir uma tendncia entre os deficientes para estabelecer como alvo a
evitao de fracassos, visto que tm freqentemente uma longa histria
de malogros e derrotas. Isto sugere que, baseadas na experincia
passada, as suas expectativas no deveriam ser particularmente altas.
Contudo, diferentes crianas tm diferentes experincias e as crianas
mentalmente retardadas que se descrevem no estudo seguinte parecem ter
todas elas alimentado elevadas expectativas.
        Ringness (1961) estudou as classificaes dadas por alunos s
suas prprias realizaes em matrias escolares e em jogos, e  sua
popularidade entre os colegas, e comparou depois essas estimativas com a
realidade. As 40 crianas mentalmente retardadas classificaram suas
realizaes de um modo muito mais elevado que as 40 crianas de
inteligncia mdia e as 40 crianas de elevada inteligncia. Quando
foram reavaliadas um ano depois, as crianas de inteligncia mdia
tinham-se tornado mais realistas com a idade, as crianas de elevada
inteligncia j eram realistas em avaliaes, mas as crianas de
inteligncia inferior continuavam a mostrar a mesma diferena entre
expectativa e realidade. Parecia que a atmosfera de sua sala de aula era
sumamente acolhedora e estimulante mas talvez irrealista, pois as
crianas teriam de, mais cedo ou mais tarde, tornar-se cnscias de suas
limitaes.
        Acredita-se que muitos jovens deficientes so criados com
aspiraes irrealistas.  natural que os pais e professores se mostrem
otimistas e incentivadores  grande parte da instruo inicial tem em
mira preparar o deficiente para a plenitude da vida adulta  mas a
compreenso pela criana que deixa uma escola onde s encontrou outras
crianas deficientes de que no pode competir com as pessoas
no-deficientes deve constituir para ela um tremendo choque. Talvez ela
aspirasse a um emprego mas

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nunca saiu nem apanhou um nibus sozinha, nunca teve de resolver como
chegar a horas a um lugar nem aprendeu a assumir uma responsabilidade.
Por esta razo, os programas de adestramento para crianas necessitam
incluir o mximo de exposio possvel ao mundo em que a criana ir, em
ltima instncia, viver.
        Diz-se freqentemente que os adolescentes portadores de
deficincias so imaturos. Isso ocorre muitas vezes contra um fundo de
relativa proteo. Contudo, a maturidade s poder ser atingida atravs
das experincias de aprendizagem, cometendo erros, assumindo
responsabilidades e convivendo com pessoas que possam ser usadas como
modelos de comportamento.

                       Alguns Efeitos em Adultos

                             Marginalidade

        Um dilema bsico para a pessoa deficiente  o de decidir a que
grupo pertence, se deve identificar-se com os deficientes ou em que
medida poder considerar-se parte da sociedade normal. Ela acha que 
membro da sociedade mas diferente da maioria de seus membros. Por isso
est muitas vezes insegura acerca do grupo a que pertence. A filiao
grupal  claramente afetada pela gravidade da deficincia e sugeriu-se
que, a esse respeito, os portadores de srias deficincias sentem menos
tenso, pois so claramente deficientes e dispem de menos oportunidades
de escolha. A posio psicolgica dos deficientes menos graves tem sido
designada como marginalidade, porquanto se situam entre a incapacidade
total e a ausncia de incapacidade.
        Cowen e Bobrove (1966) estudaram adolescentes cegos e dotados de
viso parcial, e adolescentes surdos e parcialmente deficientes de
audio, na Frana e na Amrica. Numa variedade de medidas de
ajustamento, apuraram que os grupos totalmente incapacitados, os surdos
e os cegos, estavam melhor ajustados que os grupos de deficientes de
audio e de viso, ou seja, que os marginalmente incapacitados. Os
adolescentes totalmente deficientes consideravam-se alvo de menos
compaixo e rejeio, mais aceitos pela sociedade, e mostravam menos
discrepncia

    p. 33
entre si mesmos como gostariam de ser e como realmente eram.
        Quanto mais for possvel a uma pessoa portadora de deficincia
moderada esconder a sua incapacidade, mais provvel  que tenha
ansiedades em situaes sociais; por exemplo, se forem feitos
comentrios preconceituosos acerca da epilepsia, uma pessoa epilptica
deve contestar e revelar a sua condio? Ou deve a pessoa deficiente de
audio fingir que estava distrada para ocultar o fato de que perdeu
partes da conversa? Algumas pessoas deficientes esforam-se ao mximo
para esconder uma incapacidade, evitando as situaes que poderiam
revel-la ou apresentando complicadas explicaes para erros causados
por ela. Ocasionalmente, o indivduo portador de uma incapacidade
marginal torna-se socialmente retrado e evita o contato com outras
pessoas, pois so incapazes de tolerar a ansiedade de nunca saber se
ocorrer uma situao desastrosa e a incerteza de serem ou no aceitas
por outrem.

                       Problemas de Privacidade

        Muitas deficincias fsicas envolvem uma perda de privacidade,
sobretudo quando a deficincia  grave. Funes que a maioria das
pessoas consideram ntimas necessitam de assistncia: ir ao banheiro,
lavar-se, tomar banho. Mesmo quando uma pessoa  relativamente
independente, encontrar um banheiro num local estranho poder requerer
ajuda para uma pessoa cega ou uma pessoa em cadeira de rodas. A
privacidade tende a estar includa em reas de informao pessoal e o
problema de fornecer ou no informaes sobre a prpria pessoa  mais
agudo para os deficientes. Uma pessoa no-deficiente goza normalmente de
liberdade para divulgar ou reter pormenores particulares sobre o seu
modo de vida, seu estado fsico ou seus problemas. A pessoa deficiente
tem de considerar com muito maior cuidado se deve fornecer a informao,
porquanto necessita avaliar primeiro como essa informao ser recebida.
Isto no constitui um grande problema se a pessoa estiver gravemente
afetada  por exemplo, totalmente cega ou gravemente espstica  pois a
sua deficincia  mais bvia, se bem que mesmo nesse caso tenha de
haver-se com a curiosidade e os conselhos gratuitos, e se lhe convm, ou
no aludir  sua condio na esperana de fazer com que os outros se
sintam mais  vontade ou de evitar mal

    p. 34
entendidos sobre a extenso de sua deficincia. A pessoa com uma
deficincia mais moderada e menos evidente v-se num dilema particular;
ela tem que decidir em todas as situaes, primeiro, at que ponto 
provvel que a sua deficincia se torne conhecida e, segundo, qual ser
a conseqncia da descoberta.
        Um estudo com 39 empregados ou candidatos a emprego numa grande
usina siderrgica que eram epilpticos revela o grau em que se registra
a tendncia para esconder a deficincia (Jones, 1965). A quantidade de
pessoas que no revelam a epilepsia talvez seja mais elevada que para
outras deficincias, porquanto existe maior dificuldade em ser aceito
para trabalhar, uma vez que o empregador ter dificuldade em avaliar
quais podem ser os efeitos de uma crise convulsiva. Jones apurou que,
dos 39 sujeitos, apenas 10 tinham declarado que eram epilpticos quando
se candidataram ao emprego, ao passo que a condio dos outros 29 s foi
revelada mais tarde, na maioria dos casos porque tiveram crises durante
o trabalho. Era evidentemente sabido que muitas firmas locais no
empregavam epilpticos.
        Se uma pessoa deficiente decidiu ser franca a respeito de sua
deficincia, tem que decidir se  mais fcil referirse-lhe diretamente,
de um modo srio ou jocoso, se deve encorajar ou desencorajar perguntas
ou discusses, e como enfrentar conselhos gratuitos. Ocasionalmente, uma
pessoa reagir exagerando o seu comportamento deficiente, sendo mais
desastrada do que precisa ser, parecendo mais surda do que realmente .
Isso parece constituir uma tentativa de evitar indecises sobre se
revelar ou no a deficincia, fazendo-a muito mais bvia a todos.
        A recomendao usualmente feita a pessoas com deficincias menos
evidentes  que  aconselhvel revel-la a um punhado de pessoas
selecionadas, como o cnjuge, o empregador e os amigos ntimos, mas que
no se torna necessrio revel-la a conhecimentos casuais.

                       Problemas de Comunicao

        Muitas deficincias prejudicam a comunicao normal. As
deficincias da audio e da fala tm um efeito bvio e os elementos de
comunicao menos obviamente no-verbais tambm podem ser perturbados. O
contato inicial com um novo conhecimento pode-se tornar contrafeito e
hesitante se uma pessoa for deficiente, pois a pessoa no-deficiente

    p. 35
est cnscia de que no deve ficar olhando o tempo todo mas acha difcil
no sentir que o est fazendo e, por outro lado, a pessoa deficiente
apercebe-se usualmente do constrangimento. A maioria das pessoas faz uso
do contato visual no decorrer de uma conversa para enfatizar perguntas,
indicar quando se espera que o interlocutor responda ou mostrar
interesse. (Ver BI e 332.) Se o contato visual  fisicamente impossvel
por causa da cegueira ou sofrvel controle de movimentos fsicos, a
pessoa no-deficiente poder sentir-se embaraada e constrangida. A
posio a partir da qual se estabelece a comunicao pode ser difcil
com uma pessoa numa cadeira de rodas; a menos que se disponha de uma
cadeira conveniente, a pessoa no-deficiente dever decidir se falar
para o alto da cabea da pessoa deficiente ou se agachar-se numa posio
algo incmoda. Assim, alm de quaisquer dificuldades que possa ter em
falar e ouvir, a pessoa deficiente est freqentemente cnscia de certo
desconforto daqueles que lhe falam e  capaz de sentir-se frustrada por
no poder ajud-los.

                   Efeitos Positivos da Deficincia

        Nem todos os efeitos de uma deficincia so indesejveis. As
deficincias afetam diferentes pessoas de diferentes maneiras; a algumas
deprimem, enquanto que para outras podem ser um fator de motivao e um
desafio. Algumas pessoas deficientes expressam o ponto de vista de que,
por serem deficientes, aprenderam a ser mais compassivas e tolerantes do
que eram. Outras reagem dominando atividades que pareciam quase
impossveis e certamente difceis mesmo para indivduos no-deficientes,
como por exemplo as pessoas fisicamente deficientes que empreendem
longas caminhadas a p.
         tradicional a idia de que ocorre um desenvolvimento
compensatrio nas reas no- afetadas para contrabalanar as perdas; por
exemplo, os cegos tm extremamente bom ouvido, os indivduos mentalmente
retardados so muito musicais, as crianas com spina bifida e que no
podem andar so muito desenvoltas em atividades verbais. Esta idia tem
sido pouco estudada cientificamente e  provvel que se aplique a
algumas pessoas mas no a todas. Quando a perda  sensorial, parece
provvel que a perda de um sentido signifique haver menos distraes, o
que

    p. 36
aumenta a concentrao atravs dos sentidos intatos. Pensa-se que as
pessoas com uma perda sensorial adquirem discriminaes mais sutis em
seus sentidos utilizveis, porquando esto mais dependentes deles na
medida em que dispem de menos pistas de outras fontes.

                          Variao no Efeito

        Tal como acontece em todos os aspectos da deficincia,, existem
poucos padres comuns de reao. Algumas pessoas tm escassa reao
observvel  sua deficincia, outras so profundamente afetadas. Em
resumo: As deficincias infantis tm grandes probabilidades de provocar
um efeito retardador em algumas reas do desenvolvimento, nos adultos,
tm sido observadas vrias reaes emocionais, na medida em que
diferentes indivduos chegam a uma situao de convivncia com a sua
deficincia.

    p. 37
                                   3

                            O Meio Ambiente

        Quando estudamos o impacto das pessoas deficientes em seu meio
circundante, temos de considerar como a pessoa deficiente se enquadra em
seu meio  se nos mesmos termos de uma pessoa no-deficiente ou como uma
pessoa deficiente; e, em segundo lugar, como o meio aceita a pessoa
deficiente  se a rejeita ou se causa infelicidade mediante atitudes
negativas.

                        Ajustamento  Sociedade

        Existem muitas variaes nas definies de ajustamento e parece
que todos os que tm usado o conceito utilizaram caractersticas
ligeiramente diferentes para avali-lo. Precisamos de descries
especficas do que entendemos por ajustamento. com efeito, se
desejamos estudar o que ajuda uma pessoa a ajustar-se  comparando,
talvez, grupos bem ajustados e sofrivelmente ajustados  temos
necessidade de identificar quem  bem ajustado. Mas se pedirmos a dois
pesquisadores que classifiquem um grupo de pessoas deficientes como
ajustadas ou no, o mais provvel  que nos deparemos com uma
considervel soma de discordncia, pois seria quase certo defenderem
idias distintas sobre o que constitui ajustamento.
        Quando trabalhamos com deficientes temos de ser claros num
ponto: se estamos avaliando o nvel de ajustamento de uma pessoa nos
mesmos termos do que uma pessoa normal ou de uma pessoa deficiente.
        Para aquelas que estiverem aptas a ajustar-se  sociedade nos
mesmos termos de uma pessoa no-deficiente,, os requisitos mnimos
seriam estes

    p. 38
        1. Permanecer empregada para assegurar sua manuteno;
        2. Ter onde viver;
        3. Estar apta a cuidar de si suficientemente bem para manter um
regime alimentar adequado e saudvel, asseio e sono bastante para
trabalhar de forma apropriada;
        4. Estar apto a manter-se fora de situaes embaraosas;
        5. No depender excessivamente de servios sociais.

        Podemos chamar todos estes aspectos de ajustamentos prticos 
sociedade.
        O ajustamento prtico para a pessoa deficiente parece ser o
seguinte:

        1. Contar com algum que esteja disposto e capacitado para
cuidar dela, quando necessrio;
        2. Conduzir-se de tal modo que o encargo de cuidar dela no seja
excessivo; por exemplo, no ser to exigente e difcil que cause tenso
naqueles que a cercam;
        3. Estar disposta a trabalhar e a ajudar-se a si mesma at ao
limite de suas capacidades.

        O conceito de ajustamento foi interpretado em alguns estudos de
um modo que pode ser visto como ajustamento pessoal. Este uso do
conceito inclui aspectos do comportamento que so necessrios para que
tanto a pessoa normal como a deficiente vivam felizes. As seguintes
dimenses foram geralmente consideradas importantes: Independncia, at
onde as limitaes fsicas e mentais permitem: ser capaz de enfrentar
emergncias, saber a quem recorrer em busca de ajuda e como entrar em
contato com eles; no ser totalmente dependente de outros para
entretenimento mas ser capaz, uma vez por outra, de se ocupar sozinha;
ser capaz de tomar decises, quando necessrio, no precisando de acudir
a outrem.
        Compreenso da realidade, para evitar ambies impossveis, como
um trabalho inadequado, posses inatingveis ou contratos de compra a
prazo que no podem ser completados; no se conduzir de um modo bizarro
ou socialmente imprprio; compreenso das leis bsicas em relao 
propriedade; no causar nem ter filhos sem tomar as disposies
adequadas para o futuro.

    p. 39
Relaes interpessoais adequadas para evitar a solido extrema e a
rejeio por desconhecimento das reaes de outras pessoas; no
interromper ou monopolizar conversas nem dirigir-se a estranhos de
maneira familiar; compreenso da conduta moral bsica, cumprir
promessas, no tomar dinheiro emprestado e esquecer-se de devolv-lo;-
conscincia do que  comportamento sexual aceitvel e inaceitvel, estar
apto a contribuir para uma amizade, tanta quanto a receb-la.
        Razovel maturidade emocional para evitar exploses de mau
humor, reaes agressivas ou colricas sempre que a pessoa for
contrariada; no ameaar nem causar danos em, pessoas ou propriedades,
se estiver irritada.
        Capacidade para perseguir fins apropriados, evitando freqentes
mudanas de trabalho ou residncia por motivos triviais; saber como
mudar de emprego, no saindo de um sem ter planejado um outro; ter
alguns objetivos a longo prazo, em vez de procurar apenas satisfaes
imediatas. Os estudos de pessoas deficientes, nos quaisse fez a
comparao entre pessoas bem ajustadas e sofrivelmente ajustadas,
sugerem que so importantes as seguintes caractersticas:

        1. As pessoas melhor ajustadas tm conceitos positivos do Eu,
possuem mais amor-prprio e consideram mais facilmente como meritrias
as suas contribuies para a sociedade.
        2. So menos agressivas e menos ansiosas que as pessoas
sofrivelmente ajustadas; so menos passveis de ficar irritadas ou
perturbadas pelo que consideram um tratamento injusto ou comportamento
indelicado; e so mais capazes de tolerar situaes incertas ou
ambguas, quando no esto seguras de quais possam ser as reaes de
outros em relao a elas.
        3. Tm menos necessidade de aprovao social e so mais capazes
de confiar em seus prprios julgamentos, sobre se esto fazendo as
coisas bem.

                                Emprego

        Ser capaz de encontrar trabalho e conserv-lo  um dos mais
importantes aspectos do ajustamento social,

    p. 40
existem algumas provas de que estar empregado constitui um bom indicador
geral de ajustamento global. Os estudos sobre adultos que esto se
ajustando a uma deficincia adquirida j em perodo mais adiantado da
vida sugerem que o fato de, ao ter alta no hospital, a pessoa voltar ou
no ao trabalho no est relacionado com a extenso da incapacidade mas
com o fato de as que esto trabalhando, seja em tempo integral ou
parcial, relatarem menos dissabores e contratempos em outras reas de
suas vidas. As que no procuraram emprego pareciam completamente vazias
de ambio e propsitos; tinham pouca vida social, no participavam em
atividades recreativas e tinham muito mais queixas acerca de seu estado
fsico e vida de famlia.
         parte as consideraes prticas de ter dinheiro para viver e
garantir o sustento, ter um emprego aumenta o amor prprio, ajuda a
evitar o tdio e aumenta usualmente o montante de contato com outras
pessoas.
        As pessoas deficientes, quando trabalham, esto empregadas em
trs espcies de contextos:

        1. Algumas esto em emprego aberto, em ocupaes comuns,
empregadas em condies que no diferem das de uma pessoa
no-deficiente.
        2. Algumas esto empregadas no que  geralmente designado por um
emprego de nicho. Esta expresso refere-se a um tipo de ocupao, num
contexto normal, que , na maioria dos casos, especialmente adaptada
para a pessoa deficiente. Pode ser uma contribuio simples e pouco
exigente mas til para a organizao. Na maior parte das vezes, no  um
posto to produtivo quanto o dos demais trabalhadores mas, usualmente, o
empregador  uma pessoa compreensiva que deseja ajudar. Por vezes, o
emprego  obtido quando a me ou o pai da pessoa deficiente trabalha na
organizao e est, portanto, em condies de fiscalizar, sempre que
necessrio. Os empregos de nicho quase nunca so bem pagos mas podem
constituir a nica possibilidade ao alcance do empregado de trabalhar
num emprego aberto.
        3. Os que no podem arcar com o pleno emprego em virtude de
limitaes mentais ou fsicas, podem ser empregados em oficinas
protegidas (sheltered workshops). A, as pessoas deficientes podem

    p. 41
ser produtivas num ritmo mais lento, pois o seu trabalho est organizado
de acordo com a sua capacidade.
        Qual desses trs tipos de emprego  o apropriado para qualquer
pessoa depender do seu grau de deficincia fsica, nvel de
inteligncia e comportamento social e no trabalho. O efeito da
deficincia fsica depende largamente das operaes necessrias para
executar o trabalho. A inteligncia normal torna vivel, se as
deficincias no forem excessivas, a colocao da pessoa num emprego
aberto; aspessoas portadoras de grave deficincia mental tero
necessidade, muito provavelmente, de ficar em oficinas protegidas e
raras pessoas com QI inferior a 50 sero plenamente empregveis nas
condies e exigncias atuais. As possibilidades de emprego de pessoas
cujo retardamento mental  moderado so comprovadamente mais difceis de
prever. Numerosos estudos tentaram identificar os fatores que nos
indicariam se uma pessoa  empregvel mas a maioria das tentativas,
usando fatores como nvel educacional, classe social, personalidade,
ajustamento, no foi coroada de xito. O fator que, at  data, parece
estar mais envolvido  o da aparncia, na medida em que uma pessoa
portadora de uma deficincia mental moderada teria maiores
probabilidades de ser empregada que uma que parece excntrica ou
anormal. Na prtica, o mtodo mais eficaz de apurar se uma pessoa
moderadamente deficiente pode trabalhar  ela aceitar um emprego e ver
se tem xito em seu desempenho.
        A maioria das pessoas com deficincia mental moderada est, de
fato, em pleno emprego; por exemplo, uma pesquisa em Edimburgo mostrou
que dois teros dos indivduos com deficincias mentais moderadas que
deixaram a escola tinham-se ajustado ao trabalho.
        As pessoas com epilepsia tambm tm boas possibilidades de
trabalhar em pleno emprego. Um estudo recente de pessoas epilpticas
mostrou que trs quartos dos epilpticos em idade de emprego esto
plenamente empregados e sem embarao algum em decorrncia de sua
condio, e outros 12% esto empregados em trabalho restrito.
        No caso de pessoas com deficincia sensorial ou fsica, somada
ao fator do nvel de inteligncia, a existncia e disponibilidade de um
emprego adequado  importante, embora existam provas de que algumas
pessoas com esse

    p. 42
tipo de deficincia tm que aceitar empregos abaixo de sua capacidade.

                          Oficinas Protegidas

        A maioria das oficinas protegidas (sheltered workshops) trabalha
atualmente em regime de subempreitada para indstrias ou organizaes
locais. Armar caixas, embalar produtos, trabalhos de montagem, desmonte
de equipamentos obsoletos, envelopar brochuras para expedio postal,
so tarefas tpicas da espcie de trabalho empreendido. Por vezes,
faz-se necessrio adaptar o trabalho s necessidades especiais dos
trabalhadores; utilizam-se armaes para manter o trabalho firme e
regular, usando-se s vezes caixas ou blocos com divisrias que contm a
quantidade certa de pregos a usar para obter o nmero correto de itens
num pacote.
        As finalidades desse tipo de oficina tendem a ser mais
imprecisas que as daquelas oficinas cujo objetivo  habilitar os seus
aprendizes a entrar na indstria aberta. Nesta ltima situao, a
oficina precisa ser o mais semelhante possvel de uma fbrica normal,
com relgio de entrada, horrio de trabalho, disciplina e fiscalizao
normais em qualquer indstria. A oficina protegida, entretanto, tem
muito poucos trabalhadores que progridam at um nvel competitivo, e as
finalidades precisam expressar-se em termos da satisfao e felicidade
para aqueles que a freqentam.
        Historicamente, a oficina protegida que realiza trabalho de tipo
industrial tornou-se cada vez mais comum desde a dcada de 1950. Antes
disso, a capacidade da pessoa com grave deficincia mental para
trabalhar no era inteiramente compreendida. Por essa poca, muita
pesquisa foi realizada sobre os mtodos de adestramento de pessoas
retardadas, e demonstrou-se que o ponto de partida de uma pessoa
retardada, quando tenta pela primeira vez fazer um trabalho, no tinha
relao alguma com o nvel de aptido que ela poder atingir se receber
uma instruo adequada; e que, em alguns casos, poder alcanar nveis
normais de realizao. Esse adestramento consistia em decompor a
operao a ser executada em pequenos estgios e ensinar cada estgio
separadamente, programar incentivos eficazes para o trabalho e
proporcionar bastante prtica (ver Clarke e Clarke, 1974).

    p. 43
        Em anos recentes, uma nova dimenso foi adicionada s atividades
das oficinas protegidas. Pensa-se hoje que, embora seja til para a
pessoa deficiente ampliar seus recursos mediante a aprendizagem de
vrias tarefas e encontrar satisfao no fato de ser produtivo e ter
xito no que faz, no  necessrio, porm, que realize esse tipo de
trabalho o tempo todo.  cada vez mais freqente as oficinas,
introduzirem pausas na rotina de trabalho quando as lies administradas
so de simples tarefas domsticas (enfiar contas, pr a mesa, fazer ch
e limpar a casa) ou de habilitaes sociais (entender o dinheiro, usar o
telefone, lavar a cabea, ou o tempo gasto a pintar, cantar ou em
atividades recreativas como o futebol, os jogos de equipe e nadar).
        Nem todas as pessoas gravemente deficientes podem freqentar uma
oficina protegida. A maioria dos deficientes, fsica e mentalmente
incapacitados necessita de uma Unidade de Assistncia Especial. A
experincia corrente sugere que a tendncia das pessoas com um nvel de
desenvolvimento abaixo dos dezoito meses  serem incapazes de arcar com
as tarefas de uma oficina. A Unidade de Assistncia Especial 
planejada para cuidar dos deficientes durante o dia, desenvolver neles
aptides simples como agarrar e manipular objetos, locomover-se,
alimentar-se pela prpria mo, usar um banheiro e manter a pessoa to
estimulada e ativa quanto possvel.
        As vantagens das oficinas protegidas e das Unidades de
Assistncia Especial afetam a pessoa deficiente e sua famlia. Permitem
 pessoa deficiente sentir que sai todos os dias para trabalhar, como
faz tanta gente  sua volta; propiciam-lhe uma mudana de ambiente e
impedem que permanea entediado em casa; oferecem-lhe uma gama de
contatos sociais que muitas vezes no seria possvel estabelecer se
ficasse em casa o dia todo. Tambm fornecem uma oportunidade para o
supervisor da oficina avaliar se o deficiente ser capaz, em ltima
instncia, de progredir atravs do treinamento at ao emprego aberto; e
as oficinas permitem-lhe ganhar uma pequena soma de dinheiro. Do ponto
de vista da famlia, ele est longe de casa o dia todo, num lugar onde
se sabe que  bem assistido, e sua me pode levar uma vida muito mais
normal, sem as restries impostas pela necessidade de cuidar do filho
deficiente. Onde no existe essa assistncia diurna so muito mais
freqentes os pedidos de assistncia permanente atravs do internamento
em instituies.

    p. 44
                           Aptides Sociais

        Embora ser capaz de executar o trabalho requerido seja
obviamente de importncia vital, muitos outros aspectos de estar
empregado esto envolvidos no ajustamento bem sucedido, e muitas pessoas
deficientes perdem empregos, no por serem incapazes de executar o
trabalho mas porque outros aspectos do comportamento so inadequados ou
imprprios. Podem surgir problemas porque se atrasam na chegada ao
trabalho, faltam demasiadas vezes por motivos inaceitveis  talvez no
entendendo que assistir a um jogo de futebol ou ir visitar o seu
assistente social so coisas que devem ser feitas fora das horas de
trabalho. Podem experimentar dificuldades em cooperar e trabalhar como
parte de uma equipe, ou talvez sejam incapazes de aceitar instrues sem
discutir. Existem outros problemas de adaptao ou conveno social
suscetveis de criar dificuldades para o empregado deficiente, se bem
que o nodeficiente possa,  claro, cometer os mesmos equvocos. Pode
sentar-se e ficar  espera de mais materiais de trabalho, em vez de
tentar pedi-los; pode achar difcil bater papo com seus colegas de
trabalho sem suspender o trabalho entre mos, e  capaz de ficar
perambulando para conversar com pessoas em outras reas; um outro
problema conhecido  lembrar-se de que deve lavar-se e tomar banho com
freqncia depois de um trabalho quente e sujo.
        A visita  cantina na hora do almoo pode constituir uma
experincia perturbadora se no for familiar e  necessria uma certa
soma de planejamento antecipado para chegar  caixa com a quantidade
certa de comida, talheres e dinheiro bastante para pagar a refeio.
        Algumas deficincias podem envolver problemas especiais de
comportamento socialmente inaceitvel. Foi comentado que as pessoas
surdas fazem, por vezes, rudos irritantes de que no se apercebem,
arrastam os ps e pousam objetos com muito estardalhao, o que 
perturbador para as pessoas com audio normal. As pessoas cegas podem
ficar balanando a cadeira para a frente e para trs enquanto esto
sentadas ou produzir trejeitos faciais. Uma pessoa com paralisia
cerebral pode ser propensa a babar-se quando faz um esforo de
concentrao ou ser desastrada. Muitos desses hbitos passam
despercebidos daqueles que esto habituados a lidar com a pessoa
deficiente e, em muitos casos, ela s ter encontrado em sua infncia
gente

    p. 45
compassiva, como sua famlia e professoras, que acabou por no se dar
conta do que h de inslito nesses hbitos. Nunca  possvel predizer se
qualquer grupo de companheiros de trabalho aceitar o comportamento
inslito ou rejeitar completamente a pessoa por causa de seus modos
estranhos.
        Uma outra razo para falhar na interao com a sociedade  o
tdio. Se uma pessoa deficiente vai para um emprego residencial ou vive
em alojamentos, poder mostrar- se muito satisfeita enquanto trabalha
mas inteiramente incapaz de se ocupar ou entreter nas restantes horas da
tarde.  sumamente possvel que isso acontea se esteve vivendo numa
escola interna, pensionato ou hospital, onde h sempre gente por perto e
se proporciona considervel soma de entretenimento. s pessoas nessa
posio ter que ser especificamente ensinado como se ocuparem e
sugestes concretas devero ser feitas sobre o que podem fazer, dentro
dos limites de seu oramento para encontrar diverses.

                       Atitudes dos Empregadores

        Se um empregador admitir ou no uma pessoa com determinada
deficincia para um certo posto depende,  claro, dos requisitos desse
posto e do modo como o empregador acha que ele deve ser desempenhado,
mas parece que as atitudes positivas ou negativas so igualmente
importantes. Quando se perguntou a grupos de empregadores se admitiriam
em suas firmas pessoas com vrias deficincias, cerca de metade afirmou
que sim e metade que no. As suas respostas, entretanto, variam em
relao  deficincia que estiver sendo discutida. As pesquisas sugerem
que, em seu todo, os empregadores esto menos dispostos a empregar uma
pessoa cuja deficincia seja retardamento total, sobretudo se o posto a
que ela se candidata envolver responsabilidades administrativas ou de
vendas. Os que afirmaram que empregariam uma pessoa mentalmente
retardada  uma pesquisa cita a percentagem de 20%  disseram que lhe
dariam um posto na rea de produo. Tambm tendem a resistir ao emprego
de pessoas cegas na administrao, em postos de escritrio ou de vendas;
embora alguns desses cargos fossem imprprios e impossveis para uma
pessoa cega, a resistncia dos patres parece ser devida, em parte, 
falta de conhecimentos sobre o

    p. 46
modo como os indivduos cegos podem superar o problema de locomoo,
tomando notas e compensando a falta de viso com o uso de outros
sentidos. As pessoas surdas tendem a ser consideradas mais aceitveis em
postos administrativos. Mais de metade dos patres no empregaria uma
pessoa epilptica para cargos de produo, administrao ou vendas.
        As atitudes negativas parecem estar relacionadas aosaspectos
econmicos do emprego; muitos empregadores dizem que os custos extras
que estariam envolvidos na admisso de deficientes no so compensados
por benefcios. Parece que as pessoas com deficincias bvias so mais
suscetveis de conseguir inicialmente emprego porque o empregador tem
uma atitude positiva e compassiva.
        Felizmente, existem muitos patres que empregam pessoas
deficientes e, de uma forma geral, os estudos indicam que, quando um
deficiente permanece no emprego, ele ganha na comparao com a sua
contraparte no-deficiente quanto ao desempenho funcional.

              Atitudes da Sociedade para com o Deficiente

        Tendo observado alguns dos modos como as pessoas deficientes se
ajustam  sociedade e se enquadram em seu meio ambiente, passamos agora
s idias sobre como a sociedade encara os deficientes.
        De um modo geral, as pesquisas de atitudes pblicas para com as
deficincias indicam uma mudana na direo positiva com o passar dos
anos, embora exista ainda uma considervel proporo de reaes
negativas.  claro que se qualquer comunidade ou seo de uma comunidade
tem atitudes fortemente negativas para com a invalidez, isso tornar
muito mais difcil o ajustamento de uma pessoa deficiente a essa
sociedade. Corre o perigo de se retrair, de se tornar ansioso e
relutante em enfrentar situaes estranhas, pois ignora como ser
recebido.
        Muitas pesquisas em grande escala sobre atitudes pblicas para
com a epilepsia foram realizadas entre 1949 e 1964. As percentagens de
respostas indicam que, durante esse perodo, houve uma mudana numa
direo positiva e de maior compreenso. Por exemplo, o nmero de
pessoas que concordou com a afirmao de que a epilepsia no  uma forma
de insanidade aumentou de 35% para 74%.

    p. 47
O nmero das que opinaram que os epilpticos deviam ser empregados da
mesma maneira que toda a gente aumentou de 45% para 75%. Contudo, na
poca da ltima pesquisa havia ainda cerca de um quarto da populao
expressando atitudes negativas; estavam de acordo com enunciados
sugerindo que os epilpticos deviam ser excludos da vida normal e
responderam no a perguntas como se gostariam que seus filhos
freqentassem uma escola onde havia uma criana epilptica.
        Os estudos de atitudes em relao a deficientes fsicos parecem
apenas ligeiramente menos favorveis e a concluso mais comum foi que
metade das pessoas entrevistadas tinha primordialmente atitudes
negativas.
        De um modo geral, entretanto, as pessoas que so compreensivas
em relao a uma deficincia mostram-se mais propensas a compreender e
aceitar todas as deficincias;  raro encontrar uma pessoa que tenha uma
atitude positiva, por exemplo, para com a cegueira e fortemente negativa
para com a deficincia fsica,, Uma atitude de rejeio para com o
invlido faz usualmente parte de uma atitude geral de preconceito em
relao a todo e qualquer grupo visto como diferente, seja ele tnico ou
religioso. A pessoa extremamente intolerante de uma deficincia tambm
ser, muito provavelmente, intolerante de pessoas que pertencem a outros
grupos, sobretudo os grupos minoritrios, diferentes daquele a que ela
pertence. Goffman (1963) usa o conceito de estigma, um conceito
negativo ligado a todos os grupos que tendem a ser vistos como
desacreditados, no inteiramente humanos ou no elegveis para fazer
parte da sociedade. Acha que o estigma se vincula a qualquer pessoa que
no se ajusta  sociedade, seja um mutilado ou um doente mental, um
membro de qualquer minoria racial ou tnica, ou algum com um ferrete
social, como ter estado na priso.
        Embora exista uma tendncia das pessoas compreensivas para
aceitarem todas as deficincias, parece haver uma diferena entre
deficincias fsicas e mentais, na medida em que as primeiras so algo
melhor aceitas que as segundas. Isto pode decorrer do fato de ser
freqentemente mais difcil comunicar com os deficientes mentais e de
haver menos pontos de interesse comum que possam ser discutidos. Uma
outra razo possvel  que, de um modo geral,  mais difcil a uma
pessoa no-deficiente entender o que sente e pensa um deficiente mental
do que imaginar

    p. 48
que possui a mesma mente num corpo diferente. Toda a gente experimentou,
num momento ou outro, uma reduo de eficincia fsica mas imaginar-se
numa situao de capacidade mental mais limitada  algo muitssimo mais
difcil.
        Tm-se registrado vrias tentativas para descobrir se algum
setor particular da comunidade  mais compreensivo que outros:

        Diferena de Sexo: Os estudos tm apresentado resultados vrios
mas concluem que no h diferenas ou que as mulheres so mais
compreensivas que os homens. Isto  coerente com o que normalmente se
considera ser uma caracterstica da personalidade feminina: maior
solicitude para cuidar de pessoas, querer proteger os mais desamparados
e ser menos crtica em suas apreciaes de outros. Estas concluses
foram repetidas com moas adolescentes.
        Inteligncia: No existem boas provas de que o nvel de
inteligncia esteja relacionado com a atitude positiva ou negativa em
relao aos invlidos.
        Idade: As crianas tm escassa reao  incapacidade durante o
perodo pr-escolar, pois nesse estgio todas elas tm limitaes e no
esto suficientemente cnscias das caractersticas de outras pessoas
para que se apercebam de suas incapacidades. Existem algumas provas de
que as atitudes negativas para com as incapacidades aumentam com a idade
da criana e so mais comuns entre alunos do curso secundrio que entre
os do primrio. De um modo geral, a idade tem escasso efeito nos
adultos, se excetuarmos uma ligeira tendncia dos adultos mais jovens
para mostrarem maior compreenso que as pessoas mais velhas. Isto poder
ser simplesmente devido ao fato de as atitudes terem-se geralmente
tornado mais positivas com o passar dos anos, influenciando assim a
gerao mais moa.
        Educao, Nvel Scio-econmico e Ocupao: As provas so muito
confusas sobre as relaes entre atitude e essas reas, e poucas
concluses claras puderam ser estabelecidas. Sugeriu-se que as pessoas
de nveis scio-econmicos superiores so mais compreensivas para a
deficincia mental e emocional do que para as deficincias fsicas;
conferem mais valor  boa inteligncia e estabilidade emocional

    p. 49
do que  compleio fsica, e so por isso propensas a. manifestar maior
simpatia pelos que tm deficincias naquela rea. Uma outra sugesto
interessante  que as pessoas com empregos em que a aparncia fsica 
importante rejeitam mais a deficincia fsica do que aquelas cujas
ocupaes no atribuem grande importncia  aparncia fsica. Esta
sugesto parece, entretanto, contradizer a anterior; mas novas pesquisas
se fazem necessrias para tornar mais claro esse relacionamento.
        De um modo geral,  provvel que o preconceito contra a
deficincia esteja espalhado por igual entre diferentes classes, grupos
ocupacionais e pessoas de diferentes nveis educacionais.
        Personalidade: As caractersticas da personalidade que foram
identificadas como as mais comuns na pessoa compreensiva so semelhantes
s que caracterizam a pessoa deficiente bem-a justada. Parecem ter
conceitos mais elevados do eu, nveis inferiores de ansiedade, maior
necessidade de aprovao social e maior capacidade para tolerar a
ambigidade.
        Situao: As situaes em que o preconceito  mais evidente
variam do modo que seria de esperar.  menos provvel haver provas de
uma atitude negativa em situaes comparativamente impessoais, como
encontrar uma pessoa deficiente num trem ou numa conferncia, ou em
qualquer lugar pblico onde o contato seja breve, no envolva
necessariamente interao e possa terminar com bastante rapidez. Em
situaes pessoais mais prximas, o preconceito tem maiores
probabilidades de se evidenciar, como no caso de uma pessoa invlida se
candidatar a um emprego, procurar alugar casa ou desejar entrar numa
famlia por casamento.

              Interaes de Deficientes e No-Deficientes

        Muitas observaes tm sido feitas acerca das interaes sociais
de pessoas deficientes e no-deficientes. Nas interaes de menos xito,
as pessoas deficientes sentem comumente que esto sendo tratadas como se
fossem totalmente invlidas, incapazes de toda e qualquer reao normal.
Uma pessoa surda pode ser tratada como se lhe fosse

    p. 50
impossvel observar seja o que for e no se apercebesse de que esto
falando dela; parte-se do princpio de que uma pessoa fisicamente
deficiente  incapaz de responder por si mesma e de que  preciso
gritar-lhe se no puder ouvir; a pessoa no-deficiente preferir
dirigir-se a uma outra pessoa no-deficiente que esteja presente em vez
de se dirigir quela que  tema da conversao  como na situao
clssica em que uma pessoa sumamente inteligente e fisicamente
deficiente ouviu a pergunta: Ser que ele pe acar no ch? Esta
espcie de reao parece eqivaler a uma supergeneralizao da
deficincia e  dificuldade, por parte do no-deficiente, em entender
quais so os efeitos de qualquer deficincia especfica.
        Um modo interessante de ajudar a conseguir empatia entre
no-deficientes e deficientes foi usado com crianas de escola mais
velhas. Cada uma delas passou um dia como pessoa deficiente, de olhos
vendados ou confinada a uma cadeira de rodas, tendo que continuar sua
vida escolar normal. No final do dia, elas tinham desenvolvido muito
maior compreenso do modo como se sente uma pessoa deficiente.
        As pesquisas mostraram que na interao com deficientes, as
pessoas no- deficientes tornam-se estereotipadas em seu comportamento,
pois tendem a repetir certos padres fixos de atuao e de reao, assim
como a repetir as mesmas frases. Tornam-se muito mais inibidas e
supercontroladas do que em suas interaes com outras pessoas
no-deficientes. Essa inibio relaciona-se com a necessidade sentida
pelo no-deficiente de considerar cuidadosamente cada tema de conversa
antes de inici-la, a fim de evitar que o assunto possa ser indelicado
ou doloroso para o ouvinte. Talvez ache que deve evitar referncias a
atividades em que a pessoa deficiente no pode participar; no falar
sobre longos passeios a p ou ir a um baile se o interlocutor estiver
confinado a uma cadeira de rodas, nem referir-se a algo interessante que
viu se estiver conversando com uma pessoa cega. Na prtica,  claro, a
pessoa fisicamente deficiente poder gostar imenso de fazer longos
passeios em sua cadeira de rodas e de assistir a bailes, e a pessoa cega
usar normalmente o conceito de ver num sentido diferente.
        Tambm foi verificado que o no-deficiente  propenso a terminar
as conversas com os deficientes mais depressa do que o faria com uma
outra pessoa, porquanto

    p. 51
acha essa atividade mais esgotante. Alm disso, mostra que est menos
apto a concentrar-se no que foi dito e tem uma idia menos precisa dos
pontos de vista que foram expressados.

                          Mudana de Atitude

        Como parece provvel que a sade mental e o bem-estar de uma
pessoa deficiente so influenciados por atitudes pblicas,  importante
descobrir como as atitudes podem ser mudadas numa direo positiva.
        Uma tentativa de mudar as atitudes em relao  doena mental
foi empreendida por Cumming e Cumming (1957) numa pequena cidade
canadense. Realizaram uma srie de discusses de grupo, mostraram filmes
durante mais de seis meses e avaliaram as atitudes dos residentes antes
e depois desse perodo. Os resultados indicaram que a mudana de atitude
era possvel desde que as idias se ajustassem aos pontos de vista
correntemente sustentados mas que havia resistncia a qualquer mudana
se um ponto de vista fortemente arraigado fosse contestado. Os
participantes puderam aceitar que a faixa de comportamento normal 
freqentemente mais ampla do que em geral se acredita e que a conduta
divergente tem uma causa e, portanto, pode ser compreendida e
modificada. Contudo, foram incapazes de aceitar que o comportamento
normal e anormal podem ser vistos como parte do mesmo contnuo, no
sendo qualitativamente diferentes. Esta ltima reao,  geralmente
interpretada como indicativa de medo e rejeio da doena mental, e como
negao da possibilidade de que algum possa ficar mentalmente enfermo.
        As investigaes sobre atitudes para com os deficientes sugerem
que nem a informao por si s nem o contato com pessoas incapacitadas
so suficientes per se para mudar atitudes mas que o efeito de
informao e contato combinados tem um impacto favorvel.
        Os estudos de contato com incapacitados em relao  atitude
baseiam-se nos depoimentos de contato dos sujeitos que esto sendo
estudados ou em sesses organizadas de contato. No primeiro caso,
pergunta-se a um grupo de pessoas se tm tido qualquer contato com
deficientes. com base em suas respostas, so divididas em dois grupos 
o das pessoas que declaram ter tido contatos e o das que dizem que no.
Procede-se ento  comparao das atitudes

    p. 52
desses dois grupos para com os deficientes. Este mtodo  algo
insatisfatrio, pois o que os sujeitos entendem por contato nem sempre 
a mesma coisa, e o montante e gnero de contato variam. Os resultados
desses estudos mostram que, de um modo geral, as pessoas que tiveram
contato com deficientes tm atitudes ligeiramente mais favorveis que as
outras que no o tiveram, mas as diferenas no so muito grandes e
alguns relatrios mostram uma concluso oposta: as pessoas que tiveram
contato com deficientes manifestam atitudes mais negativas. Esta ltima
concluso  provavelmente devida  espcie de contato experimentado. 
sabido que um dos fatores que influencia a reao ao contato somente,
sem informao concomitante,  o ambiente em que o contato tem lugar.
Por exemplo, visitar uma pessoa deficiente no hospital, se o ambiente
circundante for deprimente ou perturbador para o visitante poder ter um
efeito negativo.
        Quando as experincias de contato so previamente organizadas e
as reaes estudadas, a concluso geral ainda  de que o contato, por si
s, no muda atitudes. Num projeto, freqentar uma colnia de frias de
vero onde havia tambm crianas fisicamente deficientes no teve
qualquer espcie de efeito sobre as crianas no-deficientes. Em outros,
crianas que estavam em classes escolares com outras mentalmente
retardadas e ainda com outras que tinham sofrido amputaes no se
tornaram mais positivas. De fato, neste ltimo caso, as crianas
tornaram-se ainda mais negativas em relao s suas colegas amputadas.
        Do mesmo modo, fornecer informaes a respeito da deficincia
atravs de livros, filmes, televiso e conferncias aumenta a informao
de uma pessoa sobre o deficiente mas no est comprovado que afete a sua
atitude de qualquer forma til.
        Em contraste, contato mais informao demonstraram produzir
atitudes mais favorveis. Um estudo foi realizado numa colnia de frias
para crianas deficientes. No comeo do perodo de frias, as atitudes
dos novos supervisores foram comparadas com as dos que tinham trabalhado
anteriormente nessa colnia e verificou-se que eram menos positivas.
Durante as frias, os supervisores tinham,  claro, um contato contnuo
com as crianas e recebiam informaes dos profissionais que pertenciam
ao quadro da colnia. No final das frias, havia mudanas claras nas
atitudes dos novos supervisores numa direo positiva.

    p. 53
        Um outro experimento tentou mudar as atitudes de moas de uma
escola secundria para com os surdos-mudos. Escolheram-se dois grupos de
moas, um que tinha as atitudes mais positivas e outro as mais
negativas. O programa envolvia seis horas de informao sobre a
surdomudez, instruo no alfabeto manual e oportunidades para comunicar
com indivduos surdos-mudos. As estudantes com as atitudes mais
positivas no mudaram  presumivelmente porque havia pouca margem para
mudana, visto que suas atitudes j eram positivas  mas as estudantes
com atitudes inicialmente negativas mostraram mudanas positivas de
atitude; realizaram mais trabalhos voluntrios que antes e leram mais a
respeito da surdo-mudez. Alm de demonstrar que a informao somada ao
contato pode mudar atitudes, esse estudo sugere tambm que, com
experincias certas, as atitudes podem ser mudadas num prazo muito
curto.
        Assim, o preconceito em relao aos deficientes existe
certamente mas h alguma esperana de que, a acreditar nas tendncias
atuais, venha a diminuir no futuro. O recrudescimento de assistncia e
instalaes comunitrias deve significar que mais pessoas tm contato
com os deficientes na vida cotidiana. Em conjunto com os programas de
rdio e televiso sobre sade mental e deficincia mental, disporemos
dos ingredientes necessrios para a mudana de atitude. Pode-se esperar
que o crescente envolvimento de trabalhadores voluntrios em hospitais e
em numerosas organizaes locais para deficientes proporcione contatos
cada vez mais assduos aos membros da comunidade, embora parea
importante, com base nas concluses de pesquisas, que eles recebam
tambm informaes de apoio.

                         Curiosidade Ambiental

         parte os aspectos positivos ou negativos da atitude pblica,
existe uma outra caracterstica das pessoas nodeficientes que pode
causar problemas para os deficientes e, sobretudo, para as mes de
crianas deficientes; referimo-nos  curiosidade. Muita gente sente-se
curiosa a respeito dos deficientes e intriga-a o motivo por que eles so
como so e como conseguem fazer sua vida cotidiana. As atitudes das
pessoas deficientes diante dessa curiosidade variam; algumas ficaro
satisfeitas em discutir suas condies

    p. 54
e talvez sintam certo alvio pelo fato de poderem mencion-las, ao passo
que outras podem ressentir-se da curiosidade, considerando-a uma
intruso. Dispomos de algumas informaes nesta rea sobre o modo como
as mes se sentem. No parece haver uma atitude majoritria no tocante a
perguntas; vrias pesquisas mostram que cerca de metade das mes
interrogadas disseram encorajar perguntas a respeito de seus filhos e a
outra metade disse que a curiosidade alheia as ofendia e que se sentiam
irritadas com as perguntas sobre uma criana obviamente diferente. 
claro, tm muita importncia a natureza das perguntas e as atitudes de
quem as formula. A maioria das mes acolhe bem o interesse desde que
genuno, razovel e no conselheiral; os conselhos gratuitos e ficar
olhando com insistncia no so bem recebidos e,  claro, os comentrios
indelicados merecem apenas repulsa. Por vezes, as mes escapam a tal
curiosidade evitando deliberadamente o contato com outras pessoas.
        O problema de enfrentar as perguntas e comentrios de outros 
extremamente agudo quando a criana sai de casa pela primeira vez e a
me no est segura sobre qual ser a reao de amigos e vizinhos; mais
tarde, as pessoas conhecidas ficam sabendo da deficincia e a interao
torna-se mais fcil para os pais.

                     A Terminologia da Deficincia

        De tempos em tempos, a terminologia usada em relao aos
deficientes sofre mudanas. Usualmente isso deve-se ou ao fato de se
considerar que o termo j no  apropriado ou ento porque adquiriu uma
conotao depreciativa. A frase surdo-mudo  hoje raramente usada,
pois compreendeu-se que a maioria das pessoas surdas  capaz de
articular alguma fala e certamente de emitir sons expressivos; audio
deficiente  hoje uma designao muito mais aceitvel e sublinha o fato
de existirem graus de surdez. O nome mongol est comeando a
desaparecer, pois acha-se que, apesar da superficial semelhana facial
que deu origem ao termo  quando Langdon Down, h, cem anos, pensou que
os deficientes mentais podiam ser classificados em tipos raciais  essas
pessoas no tm absolutamente nada a ver com a raa mongol. Assim, os
nomes

    p. 55
Sndrome de Down e Doena de Down esto gradualmente tomando o seu
lugar.
        Palavras que se tornaram estigmatizadas esto em grande parte
associadas a doenas e deficincias mentais; os termos imbecil,
idiota, luntico tornaram-se gradualmente termos ofensivos ou
insultuosos, tendo sido substitudos por terminologias mais aceitveis,
como deficiente mental ou doente mental. No campo da deficincia
fsica, os termos mutilado, aleijado e invlido j no so de
agrado geral, sendo preferido incapacitado ou deficiente fsico.
        A tendncia  para que essas mudanas ocorram atravs da presso
de grupos profissionais que acham ter-se tornado excessiva a indesejvel
vinculao a palavras; mas o uso dos termos mais antigos continua,
particularmente entre as pessoas com atitudes mais negativas.

                      Atitudes dos Profissionais

        Um grupo particular de pessoas na sociedade que exerce uma
importante influncia sobre as atitudes e experincias dos deficientes 
formado pelas que esto profissionalmente envolvidas. Mdicos,
enfermeiras, visitadores sanitrios, assistentes sociais, todos tm
contato com os deficientes de tempos em tempos, e suas reaes variam.
Pesquisas sobre as experincias de pessoas deficientes e mes de
deficientes apuraram que, num extremo, algumas esto inteiramente
satisfeitas com a ajuda que lhes tem sido prestada, enquanto que no
outro extremo algumas acham que no receberam assistncia alguma e tm
de enfrentar sozinhas os seus problemas. Sempre que a ajuda profissional
foi considerada inadequada sugeriram-se numerosas razes. Nem todos os
grupos profissionais receberam treinamento apropriado para lidar com os
problemas do deficiente, e  possvel que se sintam inseguros sobre como
auxiliar a me a enfrentar os problemas e como responder s perguntas
que surgem. Em alguns casos, o contato freqente com o deficiente tem
tido o efeito de fazer o profissional esquecer o impacto da deficincia
sobre o indivduo que teve unicamente uma experincia; talvez pense que
o indivduo est exagerando suas reaes a uma deficincia de somenos,
pois conhece tantas pessoas que esto muito mais deficientes que ele.
Finalmente, um

    p. 56
profissional poder parecer imprestvel porque se mostra embaraado e
frustrado por no ser capaz de contribuir com alguma coisa que, a seus
prprios olhos, seja praticamente til.
        Entretanto, do ponto de vista da pessoa deficiente e, sobretudo,
do ponto de vista de uma me, embora a ajuda prtica seja apreciada, uma
atitude compassiva e mcentivadora  de igual importncia. Mesmo que as
intenes de prestar ajuda prtica sejam ineficazes, o tempo gasto a
escutar problemas e a dar conforto  claramente apreciado.

    p. 57
                                   4

                       Famlias dos Deficientes

               Reaes Iniciais  Deficincia na Criana

        As deficincias ocorrem em diferentes pocas da vida e tornam-se
bvias em diferentes alturas. Em alguns casos, a pessoa nasce com uma
deficincia, como na maioria dos casos de paralisia cerebral ou
deficincia mental. Outras deficincias so adquiridas mais tarde,
atravs de acidente ou enfermidade. Quando uma criana nasce com
deficincia, esta nem sempre  bvia no nascimento. A maioria dos casos
de Sndrome de Down ou deformidade fsica so reconhecidos quando a
criana nasce mas numerosas deficincias s se evidenciam quando a
criana deixa de desenvolver os comportamentos usuais. Os pais talvez s
se apercebam de que h qualquer coisa errada se a criana no andar
quanto outras crianas da mesma idade j caminham ou se virem que,
comparado com o filho dos vizinhos do lado, o deles  muito menos
receptivo ou mais aptico. Se a criana for primognito e no houver
outras por perto para estabelecer comparaes, os pais podero levar
algum tempo sem se aperceber de que a criana no est tendo um
desenvolvimento normal. Assim, a poca de reconhecimento de uma
deficincia congnita depende da poca prevista para cada fase crtica.
        Os efeitos psicolgicos imediatos da deficincia de uma criana
sobre seus pais tendem a variar segundo o momento em que reconheceram o
seu estado e desse reconhecimento ter sido mais ou menos sbito.
        Poucos pais esperam (se acaso existe algum...) ter um filho
deficiente. Nos raros casos em que a possibilidad

    p. 58
de uma deficincia poderia ter sido teoricamente conhecida da me antes
do parto, na prtica isso parece no ser considerado. Um relatrio
canadense de entrevistas com mes de crianas com deficincias nos
membros induzidas pelo uso da talidomida sugeriu que as mes no tinham
aceito a possibilidade de leso no filho, embora os efeitos da
talidomida se tivessem tornado conhecidos durante a gravidez delas
(Roskies, 1972).
        Virtualmente em todos os casos os pais tero certas esperanas e
expectativas a respeito da criana, antes desta nascer. Quase toda a
nova me faz duas perguntas aps o parto:  menino ou menina? e Est
bem? Se a resposta  segunda pergunta for no ou uma evasiva, o
ajustamento a ter um filho deficiente comea nesse instante.
        Nessa situao, quando o conhecimento da deficincia  sbito,
tm sido observados padres bastante claros de reao. A primeira reao
 de choque e um sentimento de incredulidade de que isso pudesse ter
acontecido. Segue-se o desejo de ficar sozinha, quando a me se esfora
por absorver a notcia. A esta segue-se tipicamente uma reao de
pranto, que  interpretada como dor e luto pela perda da criana
perfeita que se esperava.
        Muito se escreveu acerca da melhor maneira de dar  me a
notcia de que o seu beb tem uma deficincia. A maioria das informaes
 obtida atravs de entrevistas posteriores com as mes, pedindo-se-lhes
que recordem suas experincias e as avaliem. Sabemos existir uma
tremenda variao em quem conta aos pais  pode ser um mdico, uma
enfermeira ou uma parteira. Por vezes, o pai  informado primeiro e 
ele quem conta  me. Alguns pais so informados gradualmente,
comeando-se por minimizar a gravidade da deficincia e revelando-se
depois a sua verdadeira extenso; outros recebem todas as informaes
imediatamente. A algumas mes o beb  apresentado na hora, outras so
desencorajadas de ver o beb por algum tempo.  difcil ter a certeza
sobre qual  a melhor maneira, visto que, usualmente, cada casal tem
apenas uma experincia e  incapaz de comparar com outras possveis
experincias. Sabemos, porm, que a maioria das mes que tm opinies
formadas e definidas a respeito expressa preferncia pela franqueza,
honestidade e completa informao. As evasivas e meias-verdades so
raramente eficazes e s podem levar a me a pensar que a situao ainda


    p. 59
pior do que na realidade . Muitas mes tambm expressam indignao pelo
fato de lhes serem sonegadas informaes que tinham direito a conhecer.
        Quando a deficincia no  bvia ao nascer, o processo de
percepo  mais gradual e existem variaes individuais no ritmo em que
os pais podem chegar a aceitar a deficincia do filho. Muitas reaes
emocionais tm sido descritas. Uma recenso da literatura produz uma
considervel lista de sentimentos que foram observados e relatados pelos
pais: depresso, sentimentos de isolamento, choque, frustrao e clera;
culpa pela possibilidade de que a deficincia possa ter sido causada por
algo que a me fez no passado; speras crticas aos mdicos ou
enfermeiras envolvidos no parto, ou a qualquer autoridade considerada
insensvel e imprestvel; alarma e horror pelos desejos de que a criana
morra (embora este gnero de sentimento seja dificilmente expresso pelos
pais, no  particularmente incomum quer nos estgios iniciais ou quando
a criana e os pais esto mais velhos e estes comeam a imaginar o que
poder acontecer ao filho quando morrerem); perda de amor-prprio,
quando se sentem incapazes de gerar um filho normal, e sentimento de
derrota.
         pouco provvel que os pais experimentem todas essas reaes;
alguns podem no experimentar qualquer padro perceptvel de reao e
no se deve considerar inevitvel que todos os pais alimentem esses
sentimentos. Temos pouca idia sobre o grau em que qualquer desses
padres de reao  comum; entretanto, parece provvel que uma reao
identificvel, seja ela qual for, constitua um problema importante para
alguns e pode ter ou no uma base realista.
        A ttulo ilustrativo, um grupo de mes nos East Midlands
(Hewett, 1970) que tiveram filhos com paralisia cerebral foram
indagadas, durante as entrevistas, sobre se alimentavam sentimentos de
isolamento. Para a maior parte dos 21% que disseram sentir-se isoladas,
a experincia parecia ser mais de uma sensao de isolamento que de
isolamento real, pois era notrio que elas no estavam desligadas de
seus contatos sociais. Para essas mes, era claramente possvel
sentirem-se isoladas sem que na realidade o estivessem. Por outro lado,
algumas mes tinham escasso contato social e poder-se-ia esperar que se
sentissem isoladas mas assim no era. Portanto, em termos numricos, uma
minoria dessas mes sentiu-se isolada. Contudo,

    p. 60
para as que assim se sentiam, o isolamento podia ser um considervel
problema. As mes que tm pouco contato com outras na mesma situao
tendem a perguntar-se se mais algum sentir o mesmo que elas, e
alimentam muitas dvidas sobre se esto cuidando da criana da maneira
certa. Existe um risco definido de isolamento se a criana for difcil
de fazer sair de casa, se a famlia no tiver carro e se viverem num
lugar isolado.
        Uma reao freqentemente mencionada ao tomar-se conhecimento de
que uma criana  deficiente  a peregrinao. Os pais visitam
numerosos mdicos em hospitais e consultrios privados, consultam vrias
sociedades e organizaes, e recorrem at a curandeiros na esperana de
encontrar uma cura para a condio do filho. De fato, esta reao 
comparativamente rara. No estudo dos East Milands que mencionamos
acima, perguntou-se s mes se tinham consultado mais algum, alm do
mdico inicial; 80% nunca pediram conselho a ningum fora do Servio
Nacional de Sade e somente trs das restantes 36 mes tinham procurado
mais de uma espcie de assistncia particular. Resultados semelhantes
foram apurados em outros estudos de pais de crianas deficientes e
comprova-se que 80% no procuram outra opinio alm da primeira.

                       Criar um Filho Deficiente

        Sem dvida, criar um filho deficiente  suscetvel de envolver
angstias e problemas adicionais para seus pais. Contudo,  necessrio
recordar que criar um beb normal tambm pode ser um processo angustioso
para muitas mes e espera-se que qualquer me sinta um certo grau de
ansiedade.  muitas vezes proveitoso comparar mes de crianas
deficientes com mes de crianas normais no mesmo contexto social; s
ento  possvel avaliar os problemas adicionais de se ter um filho
deficiente.
        De um modo geral, quando uma criana deficiente cresce, embora
sua me possa ter no comeo sentido profundamente a sua deficincia, ela
passa a ser cada vez mais aceita como criana normal, na medida em que
os aspectos de sua normalidade se tornam mais importantes. Quando a
deficincia  bvia no nascimento, as mes so propensas a relatar que
comearam a aceitar a criana quando olharam em seus olhos e viram at
que ponto parecia normal. Esse contato visual parece ser o incio de uma
ligao

    p. 61
me-filho. Desde esse momento, os aspectos normais da criana  que so
importantes para a me e cada estgio importante que ela alcana na
escala de desenvolvimento normal  saudado com entusiasmo. As
investigaes sobre os mtodos de criao de filhos deficientes
mostraram, de um modo geral, que a maioria das mes cria seus filhos
deficientes da mesma forma que os filhos normais, dando o devido
desconto ao ritmo mais lento de desenvolvimento.

                         Problemas de Deciso

        O fato de a criana ser deficiente tornar usualmente necessrio
tomar mais decises do que seria o caso com uma criana normal e, em
muitos casos,  difcil decidir o que ser melhor para a criana. Muitas
decises nem sempre so claras e algumas desvantagens podem estar
envolvidas, seja qual for a escolha feita, por exemplo, se uma criana 
portadora de uma deficincia que requer o ingresso em hospital para
cirurgia durante a infncia, a escolha ter de ser feita entre
submet-la s operaes, a bem de sua adaptao fsica, e aceitar
qualquer reaoemocional que possa advir do fato de a criana estar
longe de casa e sofrendo talvez dores e desconforto; ou no a
hospitalizar enquanto for muito pequena, dando prioridade ao seu
bem-estar emocional. Nenhuma dessas alternativasparece obviamente certa
ou errada.  medida que a criana se desenvolve, uma deciso de
princpio tem que ser freqentemente tomada: se insistir para que ela
execute todas as atividades de um modo normal, para que seja menos
obviamente diferente quando tiver mais idade, ou se lhe permitir que
atue do modo que a prpria criana achar mais fcil para maximizar suas
experincias. As mes de crianas com deficincias de membros em virtude
da talidomida tiveram por vezes que tomar essa deciso, pois uma criana
podia ocasionalmente usar seus ps de maneira mais confortvel que as
mos e sentir maior satisfao no uso dos ps para agarrar coisas,
embora isso enfatizasse a sua anormalidade. Uma situao semelhante  a
da criana surda; muitas crianas surdas parecem achar mais fcil usar
sinais para comunicar e uma deciso tem que ser tomada: encorajar essa
tendncia ou desencoraj-la para aumentar a probabilidade de que a
criana utilize a fala normal para comunicar.

    p. 62
        Quando a criana deficiente cresce, ela ter um padro de
aptides; algumas coisas far bem, outras atividades sero muito
difceis para ela  por exemplo, pode ser muito boa no desenho e passar
grande parte do tempo fazendo quadros mas ser medocre em jogos de bola.
Tm que ser tomadas decises sobre se lhe permitir que passe todo o
tempo que quiser fazendo desenhos, encorajando assim as suas aptides
mais elevadas, ou se  prefervel insistir para que tente realizar
aquilo em que no  boa e jogar a bola com ela a fim de remediar seus
dficits. Neste ponto,  usualmente necessrio um meio termo e
verificou-se que, por vezes, permitir  criana que se entregue 
atividade de que mais gosta pode ser usado como recompensa para uma
tentativa de executar algo que lhe  difcil.
        Uma das maiores decises que os pais de uma pessoa deficiente
tm que tomar  se h possibilidade de cuidar dela em casa ou se deve
ser entregue aos cuidados permanentes de uma instituio de assistncia.
com uma criana pequena, a maioria das pessoas concorda em que ela est
mais feliz em casa, embora as condies tornem por vezes impossvel a
sua permanncia; analisaremos no Captulo 9 as razes para a necessidade
de assistncia permanente. Quanto s crianas mais velhas ou adultos, a
deciso torna-se mais difcil, pois h vantagens em sair de casa, assim
como h vantagens em que uma criana normal v para uma escola com
internato. Ter mais companheiros, mais vasta gama de equipamentos e
instalaes para treino, e aprender a ser mais independente.  possvel
que sejam fornecidas mais diverses do que lhe seriam acessveis em casa
e a vida numa instituio residencial, quer se trate de escola, hospital
ou residncia, est organizada de acordo com as necessidades de sua
populao. Por outro lado,  provvel que receba menos ateno pessoal
que em casa e talvez sinta que est sendo rejeitado pela famlia. Os
pais de crianas portadoras de graves deficincias mentais e fsicas
tendem a achar que, mais cedo ou mais tarde, o ilho necessitar de
assistncia residencial e aceitam isso desde que seja para o prprio bem
dele. Pode ser tranqilizador para os pais saberem que h instituies
onde a criana pode ser cuidada quando eles no puderem continuar a
cuidar dela, talvez porque ficou excessivamente pesada, ou de
comportamento demasiado difcil, ou caiu doente. Alguns hospitais tm
uma lista de espera a longo prazo, pelo que os pais esto tranqilos
sabendo que o hospital

    p. 63
conhece o filho deles e que um lugar estar disponvel para ele a
qualquer momento futuro, no caso de necessidade. Como seria de esperar,
a atitude dos pais no que toca a seus filhos ficarem sob assistncia
residencial permanente  muito afetada pelo que conhecerem dos
estabelecimentos existentes e da qualidade de suas instalaes.
        Nos estudos sobre deficientes h por vezes a implicao de que
existe um conjunto terico ideal de circunstncias em que uma criana
deficiente poder viver e ser criada: que ela possa ser totalmente
aceita e no superprotegida, desenvolver seu potencial mximo em todas
as reas e evitar o desenvolvimento de quaisquer problemas de
comportamento ou distrbios de personalidade. Embora isto seja,
obviamente, uma meta desejvel, definir realmente os conceitos
envolvidos  difcil. Como tm de ser tomadas decises que envolvem
inevitavelmente alguma perda de possveis vantagens,  impossvel
generalizar sobre qual seria o mtodo de criao ideal de uma criana
deficiente; muita coisa depende da prpria criana, de sua famlia e dos
servios que lhes so acessveis.

                   Prioridades e Predies dos Pais

        Conhecemos um pouco sobre o modo como os pais de crianas
deficientes encaram o futuro delas. Quando a criana  de idade
pr-escolar, a espcie de escola para onde ela ir  considerada de
fundamental importncia. Se  aceita numa escola normal ou se
necessitar de uma escola especial  visto como smbolo de sua aceitao
ou rejeio como parte do mundo normal.
        Pensando ainda no futuro, a adolescncia  vista como um perodo
crtico, pois trata- se de mais uma idade em que ser testada a
normalidade da pessoa e a deficiente pode ser ou no aceita em termos
iguais por seus pares nodeficientes. De um modo geral, quando a criana
 pequena, os pais preferem que ela cresa na companhia de
nodeficientes, em vez de pessoas de seu prprio grupo de deficincias,
se bem que isso seja bastante improvvel no caso de a criana ser
gravemente deficiente. A adolescncia, entretanto,  o perodo em que os
pais consideram, muito provavelmente, que a associao com outros
adolescentes, deficientes pode ser benfica para seu filho. Se 
previsto ou no o futuro casamento do filho depender do grau de

    p. 64
deficincia. As mes de moas com membros defeituosos (Roskies, 1972)
so propensas a prever para elas relaes matrimoniais algo protegidas.
         claro que os pais de crianas deficientes tm, de fato, menos
possibilidades que os pais de crianas normais de predizer o futuro de
seus filhos. Em muitos casos, tm escassas relaes com outras pessoas
mais velhas portadoras da mesma deficincia e, caso as tenham,  difcil
comparar deficincias. Assim, no possuem padres pelos quais possam
ajuizar o futuro e a impossibilidade de prever o que possa ser esperado
 capaz de gerar ansiedades adicionais.

                         Aceitao ou Rejeio

        So estes os conceitos comumente usados no estudo de
deficincias mas sua aplicao nem sempre  fcil numa situao
particular. A implicao usual,  claro,  que a aceitao  uma boa
coisa e a rejeio uma coisa pssima. A rejeio fsica literal no
ocorre, na maioria dos casos, nos melhores interesses da criana,
evidentemente; mas trata-se de uma atitude comparativamente rara. Por
exemplo, Halliday e outros (1965) estudaram 95 crianas com spina bifida
que sobreviveram ao tratamento cirrgico inicial aps o parto, e
verificaram que apenas 5% foram para instituies permanentes e que
quatro delas eram ilegtimas, de modo que, em qualquer dos casos, talvez
no fossem cuidadas por suas mes.
        Quando a criana permanece com a famlia, embora tenha sido
literalmente aceita numa acepo fsica, o conceito de aceitao  mais
complicado. A aceitao do fato de que a criana  deficiente  um
estgio, mas precisamos considerar tambm se as suas limitaes foram
aceitas. Os conselheiros profissionais que forem consultados
apresentaro, muito provavelmente, um quadro realista do futuro da
criana mas tero evitado ser excessivamente otimistas para que os pais
no venham a decepcionar-se;  possvel que os pais no aceitem as
limitaes descritas e continuem a ambicionar para a criana um nvel de
desenvolvimento superior ao que os conselheiros previram.  claramente
indesejvel que essas ambies sejam demasiado irreais, pois isso
redundar em frustrao tanto para os pais como para a criana. Por
outro lado,  prejudicial adotar um ponto de vista extremamente
pessimista acerca da criana.

    p. 65
Almejar um nvel de desenvolvimento um pouco acima do que  estritamente
realista tem produzido ocasionalmente resultados surpreendentes.
        Cumpre notar que a aceitao da criana no seio da famlia no 
um acontecimento definitivo. A sua presena na famlia poder ser aceita
quando a criana  pequena e considerada um beb mas talvez seja mais
difcil aceit-la mais tarde. As diferenas entre ela e seus irmos e
irms tornam-se mais bvias, e  possvel que tenha ficado pesada demais
para manipul-la fisicamente, de comportamento difcil ou perturbadora
para os outros membros da famlia.
        Tem sido por vezes comentado que a integrao da criana a um
grupo reconhecido de diagnstico pode tornar mais difcil para a famlia
senti-la como um de seus membros; por vezes, ela parece ter mais em
comum com outras crianas espsticas ou portadoras da Sndrome de Down
do que com seus prprios irmos e irms, e suas realizaes e
personalidade podem ser consideradas mais relacionadas com sua condio
patolgica do que com ela prpria como indivduo.

                             Superproteo

        A superproteo  um outro conceito comumente usado e geralmente
tida por indesejvel, porquanto limita o desempenho da criana ao
torn-la menos independente e mais lenta no desenvolvimento das aptides
que lhe proporcionariam certa autonomia. Se no lhe  permitido trepar
numa cadeira ou subir uma escada porque poder cair, ento ela ficar
menos apta a desenvolver as aptides motoras bsicas; se no lhe for
permitido sair sozinha  rua, ento nunca aprender a orientar-se e a
descobrir por si mesma os percursos convenientes. Contudo, na prtica, a
diferena entre proteo necessria e superproteo  difcil de
definir. Na realidade, muitas crianas deficientes so passveis de
quedas se escalarem degraus, por causa de sua coordenao sofrvel de
movimentos dos membros ou por causa de convulses; e as crianas de
limitada idade mental podem muito bem no ter conscincia dos perigos do
trnsito. A descrio de superproteo s pode claramente ser usada se a
criana for impedida de se envolver em atividades com escassos riscos
para a sua segurana.
        Os pais de crianas deficientes acham freqentemente que
deveriam ser mais protetores em relao ao filho deficiente,

    p. 66
por causa das atitudes das outras pessoas. Acham que se a criana tiver
um acidente, ento os outros vo pensar que foi por negligncia dos
pais, que ela  realmente indesejada e que os pais no cuidaram como
deviam da segurana dela por ser deficiente.

              Problemas na Criao de Filhos Deficientes

        Em seu estudo de um grupo de famlias de crianas deficientes na
Ilha de Wight, Rutter e outros (1970) apuraram haver a tendncia para
que a proporo de famlias que descreviam problemas de desorganizao
da rotina domstica, deteriorao das relaes sociais e
descontentamento com os servios existentes era maior quando a criana
era portadora de grave deficincia, embora a associao entre o nmero
de problemas e a severidade da deficincia no fosse particularmente
forte. Outros fatores estavam tambm claramente envolvidos.
        As famlias com filhos que tinham distrbios fsicos e disfuno
cerebral, incluindo epilepsia, eram sumamente passveis de apresentar
problemas de desorganizao de rotina quando comparadas a famlias de
crianas asmticas ou crianas com distrbios de natureza psiquitrica.
(O distrbio fsico refere-se nesse estudo a qualquer desordem crnica 
durando usualmente um ano, pelo menos, associada a uma deficincia
persistente ou recorrente de alguma espcie, e que estava presente na
criana durante o ano anterior ao estudo.)
        As perturbaes no relacionamento familiar foram relatadas
sobretudo pelos pais cujos filhos tinham disfuno cerebral ou distrbio
psiquitrico, e menos por aqueles cujos filhos tinham distrbios
fsicos. O descontentamento com os servios foi mencionado com igual
freqncia por todas as famlias.
        Examinaremos agora algumas das reas especficas em que as
famlias de crianas deficientes acham defrontar-se com problemas.
        Assistncia fsica  criana. Uma estimativa de freqncia
mostrou que a condio causadora de maior stress para a me  a
incontinncia, a qual envolve maior nmero de lavagem de roupa, custos
extras para fraldas ou cuecas especiais, maior nmero de banhos na
criana e tempo extra

    p. 67
consumido a trocar-lhe as roupas. A incontinncia tambm cria
dificuldades para levar a criana de visita e t-la por muito tempo fora
de casa. A segunda condio mais geradora de stress  a que resulta de a
criana no poder andar. Isto pode ser muito exaustivo para a me, pois
ter de ergu-la em peso com freqncia e torna-se deveras difcil usar
nibus para transporte, pois ter de retir-la de casa em cadeira de
rodas. Uma terceira condio causadora de stress decorre de a criana
ter manifestaes de leso cerebral; isto  to esgotador quanto a falta
de mobilidade. As manifestaes de leso cerebral incluem comportamentos
tais como a hiperatividade, a atividade descontrolada e desorganizada, a
incapacidade de tolerar frustraes e episdios de gritos.
        Problemas das mes jovens. Considera-se que as mes jovens
experimentam dificuldades maiores com um filho deficiente, sobretudo se
for o primognito. Algumas deficincias so mais comuns em filhos de
mes mais jovens, por exemplo, as mes de crianas com spina bifida so,
como grupo, mais jovens que a mdia. Neste caso, as ansiedades comuns de
ter de cuidar de um beb so aumentadas pelas incertezas de cuidar de um
deficiente.
        Menos Benefcios da Parentalidade. Foi afirmado que os pais de
crianas deficientes auferem menos benefcios e tm, em contrapartida,
mais problemas. So recompensados menos vezes pelas realizaes da
criana, quando esta comea a andar ou falar. A criana talvez seja, por
vezes, menos receptiva, sorrindo aos pais menos assiduamente ou
tagarelando raramente com eles. Os pais tampouco sentiro muitas
satisfaes com o aproveitamento da criana durante os anos de escola e
mais tarde: aprender a ler, bom desempenho nos exames, xito numa
carreira. Isto no implica que inexistam satisfaes na criao de um
filho deficiente; de fato, um sinal de progresso numa criana cujo
desenvolvimento  muito lento pode ser saudado de um modo
proporcionalmente mais entusistico do que se o mesmo progresso fosse
realizado por uma criana normal; mas  preciso que ocorra uma reduo
proporcional de valores e expectativas.
        Disciplina. Se uma criana deficiente deve ser punida, e em que
situaes, quando o seu comportamento  considerado

    p. 68
indesejvel, eis uma questo que tem sido causa de dificuldades. Pode
parecer muito injusto punir uma criana, se acharmos que ela  incapaz
de entender por que est sendo castigada ou se a sua travessura se deve,
talvez,  prpria deficincia, por exemplo, quando uma criana
fisicamente diminuda quebra alguma coisa.
        Contudo, os resultados de um estudo, pelo menos, sugerem que, na
prtica, a disciplina raramente constitui um grande problema. Hewett
(1970) apurou que as mes de crianas com paralisia cerebral por ela
entrevistadas tinham opinies sobre a disciplina que eram muito
semelhantes s opinies das mes de crianas normais de quatro anos,
entrevistadas num outro estudo. Uma grande maioria das mes em ambos os
grupos disse aprovar em geral uma palmada no filho quando este se porta
mal. A maioria (71%) das mes de diminudos fsicos afirmou que sua
poltica de dar uma palmada no filho deficiente era a mesma que para os
outros filhos normais. As que acharam que bater no filho no era uma
conduta apropriada deram como justificao que a deficincia mental
impedia a criana de entender o que a palmada significava, ou ento que
a criana era demasiado pequena ou deficiente para que se pudesse
qualific-la de travessa no mesmo sentido de uma criana mais velha e
no-deficiente. Somente 5% das crianas na amostra foram isentas de toda
a punio: as que eram portadoras de grandes deficincias mentais e
fsicas. Fosse qual fosse o mtodo de punio usado, 95 % das mes
disseram que empregavam praticamente os mesmos mtodos a que recorriam
para os seus outros filhos.
        Sair com a criana. Poder sair facilmente com uma criana
deficiente constitui uma importante vantagem. Quando  difcil levar a
criana  rua, a me defronta-se com dificuldades de ordem prtica 
como no poder ir fazer compras  e de ordem pessoal, pois corre o risco
de sentir-se isolada e limitada em sua liberdade de movimentos. Os
problemas de sair com uma criana deficiente so de duas espcies: ou
existem estorvos fsicos de mobilidade se a criana no pode andar ou
est sujeita a freqentes crises, convulsivas, ou ento se existem
problemas de comportamento imprevisvel e desordenado, em cujo caso 
difcil percorrer lojas, principalmente os supermercados, e a me
sentir-se- muito embaraada se a criana se comportar desastradamente
em pblico. No estudo da Ilha de Wight

    p. 69
(Rutter e outros, 1970), os pais de crianas com disfuno cerebral eram
os que pareciam ter maiores problemas. Das 46 famlias com crianas
nessas condies, 41 relataram que sua liberdade de movimentos era
limitada pela criana. Das 59 famlias com filhos fisicamente
deficientes, 19 afirmaram ter o mesmo problema. Verificou-se geralmente
que ter automvel torna muito mais fcil sair com uma criana gravemente
deficiente.
        Sair sem a criana. Como seria de esperar do pargrafo anterior,
o nmero de crianas com disfuno cerebral no estudo da Ilha de Wight
que no podiam ficar sozinhas tambm era bastante grande; 35 das 46
famlias de crianas com disfuno cerebral achavam que seus filhos no
podiam ser deixados sozinhos em casa sem perigo. Das 59 famlias com
filhos fisicamente diminudos, 15 tinham o mesmo problema.
Numericamente, no estudo dos East Midlands (Hewett, 1970), o problema
foi menor e apenas vinte das 180 mes entrevistadas acharam que no
podiam deixar a criana sozinha sem assistncia, se bem que, neste caso,
as mes no tivessem sido interrogadas acerca de deixarem seus filhos
sozinhos por longos perodos. Em alguns casos, a criana no podia ficar
s porque caa freqentemente ou porque era deficiente mental. A criana
portadora de deficincia mental, se tiver mobilidade, apresenta um
grande problema nesse aspecto. Em contrapartida, as crianas fisicamente
diminudas so muito mais fceis de deixar sozinhas, desde que fiquem
presas de maneira segura s suas cadeiras.
        No estudo de Hewett, no houve provas de que os pais sassem
juntos com menos freqncia que os pais de crianas normais. Se no
saam, a razo quase nunca se relacionava com a criana deficiente mas
simplesmente porque achavam, como alguns pais de crianas normais, que
era sua obrigao no sair com muita assiduidade quando os filhos so
pequenos. Os pais que queriam baby-sitters no tinham grandes
dificuldades em encontr-las, ao que parece, embora achassem ser muito
mais difcil achar algum que eles considerassem capaz de olhar pela
criana e se dispusesse a assumir a responsabilidade. Uma criana
sujeita a crises convulsivas constitua um problema especial nesse
contexto.

    p. 70
        Assistncia no caso de me hospitalizada. A possibilidade de que
uma me no esteja em condies de cuidar da criana por algum tempo 
motivo de preocupao para muitas mes. Isso poder ser um problema para
quase metade das mes de crianas com paralisia cerebral (Hewett, 1970),
se essa situao se apresentar. Foi-lhes perguntado como resolveriam o
problema se tivessem que estar temporariamente ausentes de casa.
Disseram que seus filhos normais poderiam ser cuidados quase
completamente pela famlia mas somente 56 das 180 crianas deficientes
poderiam ser assistidas pela famlia ou com a ajuda de amigos e
vizinhos. Esta opinio parecia ser parcialmente devida  falta de
confiana dos parentes em que seriam capazes de lidar com uma criana
paraltica cerebral e, em parte, devida  relutncia das mes em pedirem
a outras pessoas que aceitem as responsabilidades adicionais.
        Frias. A maioria das famlias com crianas deficientes consegue
fazer frias mas para algumas a criana pode tornar as frias difceis
ou impossveis. As principais dificuldades so as graves deficincias
fsicas e mentais, o comportamento difcil, a micturio e as convulses
freqentes. No estudo da Ilha de Wight (Rutter e outros, 1970), 14 das
59 famlias com crianas portadoras de distrbios cerebrais consideraram
as frias um problema. Do grupo total de pais entrevistados, 12 casais
nunca mais fizeram frias desde o nascimento da criana e trs
tinham-nas feito mas com tamanhas dificuldades que relutavam em sair de
novo. Assim, embora as dificuldades em tirar frias afetem uma minoria,
so impostas limitaes aos afetados.
        No estudo de mes de crianas com paralisia cerebral (Hewett,
1970), a maioria tambm as levara de frias (71%). A maior parte
encontrara alojamentos da maneira habitual e ficara em hotis, penses,
colnias de frias e parques de campismo; alguns casais tinham usado as
acomodaes especiais fornecidas por vrias organizaes interessadas na
assistncia a deficientes. Contudo, naquelas famlias que no saram de
frias, os motivos no estavam geralmente relacionados com a criana
deficiente, e era porque no dispunham de recursos para viajar ou outras
circunstncias, como uma mudana de casa. Apenas quatro famlias no
puderam sair de frias porque lhes foi impossvel encontrar alojamentos
adequados.

    p. 71
        Algumas das crianas nessa pesquisa tinham tido frias especiais
para deficientes, embora muitas das mes pensassem que esse tipo de
frias seria mais adequado quando as crianas fossem mais velhas, no se
importassem de ficar fora de casa e sentissem prazer na companhia de
outras crianas (as crianas estavam todas entre um e nove anos de
idade). As mes que no estavam interessadas em que seus filhos fizessem
esse tipo de frias eram aquelas cujos filhos tinham deficincias
moderadas e que, portanto, do ponto de vista de sair de frias, no
acarretavam grande problemas  famlia, ou ento aquelas cujos filhos
tinham deficincias to graves e to pouca conscincia do que se passava
 sua volta que no fazia sentido lev-los para tais colnias de frias.
        Muitas crianas deficientes ficam atualmente alojadas em
pensionatos ou hospitais enquanto seus pais tiram frias. O perodo vai
usualmente at oito semanas e proporciona aos pais uma oportunidade de
descanso; e, se tiverem filhos no-deficientes, podem prestar- lhes toda
a ateno e entregar-se a atividades que so impossveis quando a
criana deficiente est presente.
        Contato com outras crianas. Se a criana deficiente  filho
nico, no freqenta uma escola nem uma unidade de assistncia especial
durante o dia, poder ficar muito limitada em seus contatos com outras
crianas, se bem que haja,  claro, muitas crianas no- deficientes em
situao idntica. Hewett (1970) apurou que a percentagem de crianas
deficientes que estavam muito limitadas em seus contatos com outras
crianas atingia 13%, em comparao com os 1% de crianas normais de 4
anos.
        Atendimento em Clnicas.  claro que a maioria das crianas
deficientes  atendida em clnicas de vrias espcies, s quais recorre
muito mais freqentemente que as crianas no- deficientes. Para muitas
famlias, isso no representa um srio problema e constitui uma parte
aceita de sua vida. As dificuldades surgem para algumas famlias se o
transporte for um problema, se ambos os pais trabalham e precisam de
pedir licena para faltar ao servio ou se a criana tem averso a
freqentar clnicas, resiste a que a levem ou cria dificuldades enquanto
l est.

    p. 72
        Moradia. Algumas famlias acham que, quando a criana deficiente
cresce, sua moradia torna-se inadequada e as caractersticas
habitacionais aumentam o problema de assistncia  criana. Na pesquisa
da Ilha de Wight, doze das 59 famlias com crianas fisicamente
diminudas e dezoito das 46 famlias com crianas portadoras de
disfuno cerebral tinham tido problemas de moradia. As casas com
banheiros mal planejados, escadas perigosas, difcil acesso  privada ou
portas estreitas, podem apresentar problemas.  necessrio, por vezes,
tomar disposies para que a criana deficiente durma no andar trreo, a
fim de evitar a luta para lev-la escadas acima. A localizao de uma
casa tambm pode ser difcil; no ter jardim  uma desvantagem para
qualquer famlia com crianas mas ainda maior se a criana for
deficiente, necessitar de superviso por mais tempo e no puder ir a um
parque ou playground por seus prprios meios. Residir prximo de
artrias de grande trnsito  tambm difcil. Algumas famlias tm de
comprar casa nova por causa da criana deficiente; um chal  muitas
vezes considerado a soluo mais conveniente.
        Custos. Concorda-se geralmente em que custa mais ter um filho
deficiente que um no- deficiente. Os custos adicionais podem resultar
da necessidade de mudar de casa ou de se concluir que um automvel 
essencial. A maioria das crianas deficientes gasta roupas e sapatos
mais rapidamente e se a criana for incontinente, as despesas de
lavanderia e o desgaste das roupas de cama tambm aumentam. Algumas
vezes, a me teria ordinariamente de trabalhar fora para ajudar no
oramento da famlia; a presena de uma criana deficiente torna isso
muito mais difcil.
        Proporcionar estimulao adequada. A muitas crianas deficientes
faltam as experincias que as crianas normais tm no decorrer normal da
vida cotidiana. As deficientes mentais no saem com tanta freqncia nem
se envolvem tanto nas atividades do lar porquanto parecem menos aptas a
tirar disso alguma vantagem. As crianas fisicamente diminudas so
freqentemente difceis de levar de um lado para outro e suscetveis de
ter mais ausncias de casa que uma criana normal. Cashdan (1968) relata
um interessante experimento que ilustra este ponto com trs grupos de
crianas que eram todas da mesma idade mental. Usou trs

    p. 73
testes para descobrir at que ponto cada criana estava familiarizada
com diferentes espcies de objetos. Os materiais dos testes consistiam
em sacos plsticos, cada um deles contendo cinco objetos; e cada saco
destinava-se a testar o conhecimento da criana sobre uma determinada
situao. O primeiro teste abrangia Excurses e Acontecimentos: a
criana tinha de retirar de um saco o objeto que ela poderia ver no
jardim zoolgico, de um outro saco uma coisa que ela veria nos
balnerios e assim por diante. O segundo teste cobria situaes da vida
cotidiana  como um cabeleireiro, uma garagem e lojas. O terceiro teste
avaliava a familiaridade com atividades adultas, usando objetos
domsticos. Em todos estes testes, as crianas fisicamente diminudas e
mentalmente deficientes reconheceram menos objetos do que as crianas
normais de quatro anos que tinham a mesma idade mental.
        Cashdan tambm entrevistou as mes para avaliar o grau de
estimulao e a soma de afeio que as crianas recebiam. com base em
sua avaliao do montante de estimulao dada, as crianas normais foram
as que receberam mais, as deficientes mentais menos e as fisicamente
diminudas foram as menos favorecidas de todas. Na avaliao do afeto
demonstrado, as crianas com deficincias fsicas e mentais situaram-se
em nvel semelhante e receberam menos afeio que as crianas normais.
Contudo, essas diferenas eram de grupo; e observando os escores
individuais, algumas das mes de crianas mentalmente deficientes
apresentaram escores to elevados quanto os mais altos obtidos por mes
de crianas normais. As diferenas ocorreram nas que tiveram escores
inferiores, e houve mais escores muito baixos no grupo mentalmente
deficiente.
        Sentimentos de Inadaptao. Por vezes, as mes de crianas
deficientes sentem-se ineptas para arcar com a tarefa de criar o filho e
passam a autocriticar-se. Hewett (1970) sublinha, entretanto, que muitas
caractersticas tradicionalmente mencionadas como tpicas das mes de
crianas anormais tambm podem ser comuns em mes de crianas normais; e
a autora ilustra o seu ponto de vista com um estudo de mes de crianas
de quatro anos de idade em Nottingham. Mais de metade dessas mes
criticavam-se como mes e afirmavam freqentemente sentir-se culpadas
por no terem conseguido ser a espcie de me que consideravam ideal

    p. 74
        Criar um filho deficiente, entretanto, no consta unicamente de
problemas. Na amostra dos East Midlands (Hewett, 1970), 90% das mes
consideraram que seus filhos paralticos cerebrais eram crianas felizes
e fceis de manejar, 69% que eles no eram particularmente exigentes,
embora uma minoria de 31% quisesse seguir a me por todo o lado ou estar
com ela o tempo todo.

     Efeitos de uma Criana Deficiente sobre as Relaes dos Pais

        De um modo geral, ter um filho deficiente no afeta com
freqncia as relaes dos pais, se bem que, se o casamento for
instvel, a deficincia da criana possa, ao que parece, acrescentar
mais um problema.
        O estudo da Ilha de Wight (Rutter e outros, 1970) apurou que o
nico problema freqentemente mencionado, causado pela criana,  o das
discusses entre os pais sobre o modo de cuidar do filho deficiente e o
que lhe deve ser permitido fazer. As famlias com esse problema so
minoria: 17 dos 59 pais de crianas fisicamente diminudas e 20 dos 46
pais que tinham filhos com disfuno cerebral.
        Hewett (1970) apurou considervel concordncia entre os pais.
com efeito, 67% das mes dessas crianas disseram que elas e seus
maridos estavam de acordo a respeito da criao de seu filho deficiente.
Parecia haver considervel dose de desarmonia num punhado de famlias
mas, aparentemente, era pouco provvel que a criana deficiente tivesse
algo a ver com isso; esses casais teriam sido conflitantes mesmo sem o
filho. Havia 31 crianas da rea de East Midlands cujas mes teriam sido
includas nessa pesquisa se aquelas no estivessem sob assistncia
residencial. Isto poder ter excludo algumas famlias de elevada
discordncia, se este tipo de famlia , de fato, mais propenso a
procurar assistncia residencial para seus filhos. Contudo, mesmo que
todas essas 31 crianas fossem contadas como provenientes de famlias
onde havia discordncia parental, o montante de discordncia na amostra
no seria superior ao apurado em famlias de crianas normais.
        Estudos sobre pais de crianas com spina bifida apuraram que o
nascimento de uma criana deficiente teve inicialmente um efeito
unificador sobre os pais; mas a tenso conjugal era suscetvel de se
fazer sentir mais tarde. Foram

    p. 75
apurados ndices de divrcio e de separao mais elevados que os normais
mas verifica-se usualmente que a criana no foi a nica causa. Esses
casamentos j estavam em perigo e a criana deficiente provocou a tenso
extra que precipitou o colapso. Quando as famlias permaneceram unidas,
os pais j estavam casados h pelo menos cinco anos, e a criana tinha
sido planejada e desejada.

                       Efeitos de Outros Filhos

        Tem sido verificado por vezes que o nascimento de um filho
normal depois de se ter um deficiente acarreta o efeito de reduzir a
tenso nos pais. Entretanto, um nmero significativo de pais 
dissuadido de ter mais filhos pela presena do deficiente, quer por medo
de que o seguinte possa tambm ser deficiente, quer porque a criana
deficiente d tanto trabalho e  to difcil cuidar dela que eles no
poderiam ocupar-se ainda do novo beb. Assim, a deciso de ter ou no
outro filho  um problema de menor importncia para aqueles casais que
tm uma criana moderadamente deficiente.
        Na pesquisa dos East Midlands com 180 famlias de crianas
portadoras de paralisia cerebral (Hewett, 1970), cerca de metade das
mes declarou que os seus sentimentos sobre terem outro filho ou no
mantinham-se inalterados. Trs delas tiveram outro filho especificamente
por causa do primeiro ser deficiente. Entretanto, 34% declararam que
tinham sido dissuadidas de ter outro filho ou que haviam tido outro mas
teriam preferido no t-lo.

          Efeitos de uma Criana Deficiente sobre Seus Irmos

        Foi sugerido que os irmos e irms de crianas deficientes podem
ser afetados de diversas maneiras; podem ser negligenciados a favor da
criana deficiente; pode ser exercida sobre eles mais presso para que
triunfem na vida, a fim de contrabalanar o fracasso do irmo
deficiente; quando crescem, podem sentir-se embaraados pela presena do
membro deficiente da famlia e ser relutantes em convidar amigos para
casa.
        Quando uma criana  afetada pela deficincia de seu irmo ou
irm, estudos de profundidade sugeriram as seguintes reaes bsicas:
ela sente-se culpada por ter importunado

    p. 76
os pais com o pedido de um irmozinho ou irmzinha; acha que a criana
deficiente est estragada de mimos, leva sempre a melhor ou goza de
excessivas atenes dos pais; tem dificuldade em explicar o caso de seu
irmo ou irm aos amigos, pois acredita que a condio de deficiente tem
reflexos na famlia.
        Contudo, a maioria dos irmos de crianas deficientes no 
perceptivelmente afetada pela presena em casa do deficiente. O nmero
de irmos afetados varia de estudo para estudo, dependendo dos critrios
empregados. Um estudo mostrou que 25% dos irmos de crianas com
cardiopatia congnita tinham problemas de comportamento ou distrbios
psicossomticos. Um outro estudo apurou que os irmos de crianas com
spina bifida tinham quatro vezes mais possibilidades de obter escores na
faixa de desajustamento, quando se usou uma escala de avaliao de
ajustamento social, e oito vezes mais possibilidades de ter escores na
faixa de instabilidade.
        Entretanto, o primeiro de dois estudos relacionados de irmos de
crianas com o Sndrome de Down e de crianas com fenda palatina no
encontrou mais problemas que num grupo de comparao formado de crianas
no-deficientes. No segundo estudo, porm, as irms mais velhas de
crianas mentalmente deficientes parecem correr maior risco de distrbio
psiquitrico.
        Existem algumas provas de que as reaes dos irmos  criana
deficiente esto relacionadas com as reaes de seus pais. Tambm foi
sugerido que os irmos de crianas moderadamente deficientes so mais
freqentemente desajustados que os de crianas portadoras de graves
deficincias.
        As concluses obtidas no estudo da Ilha de Wight sugerem tambm
que s uma minoria de irmos  afetada. Foi perguntado aos pais se a
presena da criana deficiente dissuadia os outros filhos de receberem
seus amigos em casa. Cinco das 59 famlias com filhos fisicamente
deficientes e nove das 46 famlias com um filho portador de disfuno
cerebral disseram que sim.
        Hewett (1970) relata que tanto s mes de crianas normais de 4
anos como s de crianas com paralisia cerebral foi perguntado se outras
crianas na famlia pareciam sentir cimes da de 4 anos ou da que tinha
uma deficincia fsica, respectivamente. Em ambos os casos, 33 % das
amostras relataram a existncia de certo cime. Nesse

    p. 77
estudo, muitas mes afirmaram dedicar deliberadamente ateno extra aos
filhos normais para contrabalanar a. maior soma de atenes requeridas
pelo filho deficiente, mas a maioria achou que o cime no chegava a ser
um problema. Verificaram algumas vezes que pessoas estranhas  famlia
eram ocasionalmente propensas a favorecer a criana deficiente.
Perguntou-se ento s 180 mes se estavam preocupadas com o
comportamento de seus filhos normais. Apenas onze disseram que sim e em
oito desses casos havia outras causas possveis, como o abandono do lar
pelo pai ou desavenas conjugais.
        Diferentes abordagens da disciplina poderiam ser difceis de
explicar s crianas e foram expressas ambas as direes de reaes dos
irmos; em alguns casos, acharam que a criana deficiente nunca devia
ser punida e em outros mostraram ressentimento se ela no era castigada.
Apenas alguns irmos (13%) se manifestaram ressentidos com as
discriminaes necessrias, por exemplo, que a criana fisicamente
diminuda fosse ajudada para se vestir.
        De um modo geral, parece que os sentimentos dos irmos so
heterogneos, em vez de serem claramente tolerantes ou claramente
despeitados.

                    Mtodos de Auxlio s Famlias

        As discusses de grupo e as reunies regulares para familiares
de pessoas deficientes so cada vez mais populares. Muito poucas dessas
iniciativas tm sido avaliadas em pormenor e no se sabe muita coisa
sobre o que acontece s atitudes e sentimentos no decurso das
discusses; contudo, opina-se que so quase sempre benficas. Podem ser
usadas para fornecer informaes, como um frum para resolver problemas
e prestar mtua assistncia; auxiliam os participantes a sentir que no
esto sozinhos para enfrentar seus problemas e produzem grupos de
presso com o propsito de conseguir melhoramentos nos servios e
instalaes.
        Na maioria dos estudos em que os deficientes ou seus familiares
foram interrogados acerca das informaes recebidas,  digno de nota o
fato de afirmarem muito freqentemente no terem recebido informao
suficiente. Isto poder refletir, em parte, a circunstncia de muitas
das perguntas formuladas serem irrespondveis de momento;

    p. 78
na maioria das vezes,  impossvel dizer o que causou a deficincia ou
predizer exatamente o que a criana conseguir realizar no futuro.
Tambm pode ser devido ao fato de nem toda a informao fornecida
durante uma sesso com um consultor ser retida. Sabe- se que os
pacientes que saem da sala de cirurgia de um mdico s se recordam de
uma parcela do que lhes  dito. Os pais que levam seu filho deficiente
para consulta esto usualmente ansiosos e amide absorvidos no que a
criana faz, se est se comportando bem e se est mostrando o seu melhor
aspecto. As reunies regulares de grupo podem ajudar os pais a pr em
dia as informaes e a ouvir o conferencista convidado num estado de
esprito mais descontrado.
        Uma opinio dissonante  a de que a filiao numa Sociedade de
Pais pode, em alguns casos, aumentar a ansiedade e a frustrao, talvez
porque os pais tomam plena conscincia de todos os problemas possveis e
no apenas o deles.
        Tambm esto sendo introduzidas  embora se encontrem
predominantemente em estgio experimental  (1) as oficinas (workshops)
para ajudar os pais a avaliarem e ensinarem seus prprios filhos; (2)
disposies para que assistentes sociais especialmente treinados nos
mais recentes mtodos de desenvolvimento do comportamento desejado e de
reduo de problemas de conduta visitem os pais e as crianas em seus
prprios lares; e (3) bibliotecas de brinquedo, para aumentar a gama de
equipamentos ldicos  disposio da criana deficiente.

    p. 79
                                   5

              Dficits Cognitivos, Motores e Educacionais

        Muitas deficincias envolvem problemas de desenvolvimento
cognitivo  progresso irregular nos processos pelos quais percebemos o
nosso meio circundante, aprendemos, compreendemos e recordamos fatos
sobre o mundo e atuamos apropriadamente (ver volume C2).
        Na prtica, os fatos acerca dos dficits cognitivos ou motores
expressam-se de vrias maneiras, de acordo com os mtodos usados para
descobri-los.

         Mtodos de Avaliao de Dficits Cognitivos e Motores

        Em alguns casos  usado um teste de inteligncia. Este consiste
numa lista padronizada de questes a serem formuladas e tarefas a serem
executadas, e o sujeito recebe um escore na base do nmero de respostas
certas ou desempenhos bem-sucedidos. Esse escore  ento comparado com
os escores do seu prprio grupo etrio na amostra de padronizao  o
numeroso grupo de pessoas que foram testadas quando o teste foi
construdo, a fim de fornecer normas ou padres para os escores do
teste. Se o indivduo que est sendo testado tem um escore que 
exatamente a mdia para o seu grupo etrio, o seu QI ser 100 em todo e
qualquer teste atualmente em uso corrente. Outros escores representam a
sua posio em relao aos indivduos da mesma idade, em termos de que
proporo obtm escores superiores ao dele e que proporo obtm escores
inferiores. Os testes variam no tocante a que escores de QI representam
cada proporo do grupo etrio. Contudo, o

    p. 80
uso mais comum dos escores de QI, no que se refere a deficientes,  o
seguinte: considera- se que a faixa de inteligncia normal  a que tem o
QI 80 como seu limite inferior e inclui,  medida que os nmeros sobem,
as classificaes de inteligncia mdia inferior, mdia, mdia superior
e superior. A faixa de QI entre 70 e 80  considerada fronteiria entre
subnormalidade e normalidade; os indivduos com uma deficincia mental
moderada tm QI's entre 50 e 70, e os de QI abaixo de 50 so comumente
classificados como indivduos seriamente subnormais. Este sistema de
classificao no goza, em absoluto, de concordncia geral, e as
opinies e prticas variam quanto a que nmeros de QI marcam
efetivamente os limites de cada categoria. Como o QI de qualquer pessoa
 suscetvel de variar de ocasio em ocasio e de acordo com o teste que
estiver sendo empregado,  desaconselhvel insistir em categorias
rgidas quando se descreve o indivduo. Entretanto, para a descrio de
grupos, esse sistema parece ser o mais correntemente usado.
        Os testes de QI so usados para descrever o funcionamento
intelectual geral de grupos de pessoas e baseiam-se usualmente na
avaliao de uma certa gama de capacidades cognitivas.
        Por vezes, emprega-se uma escala de avaliao do desenvolvimento
com o propsito de apurar se qualquer grupo dado tem um dficit; por
exemplo, se estiver sendo avaliada a fala,  conveniente expressar os
resultados em termos de uma idade verbal ou idade de fala. Nesta
situao, a capacidade da pessoa que est sendo avaliada  registrada e
comparada, no com o seu prprio grupo etrio mas com o que se apurou
ser a mdia para outros grupos etrios. Assim, um grupo de pessoas
mentalmente retardadas poder ter idades verbais entre os quatro e dois
anos, quando suas idades cronolgicas so de 10 para 11 anos; isto
significa que, do ponto de vista da linguagem delas, essas pessoas
desenvolveram suas aptides a um nvel que se situa entre a mdia de uma
criana de quatro anos de idade e a de uma criana de dois anos de
idade.
        Em alguns casos de dficit,  mais conveniente no usar uma
escala para medio  como quando  utilizada uma escala de inteligncia
ou uma escala de idade mental  mas recorrer  classificao dos
sujeitos em dois grupos, o daqueles que tm uma capacidade adequada e o
dos que tm um defeito. Isto ocorre quando a articulao da

    p. 81
fala  dividida nas categorias de inadequada ou adequada; quando a
distrao ou dificuldade em fixar a ateno no que se requer 
registrada como presente ou ausente; ou quando aspectos da percepo
visual so considerados problemticos ou no.
        Um mtodo final que tem sido usado para descrever dficits  o
mtodo experimental. Neste caso, d-se a dois ou mais grupos de sujeitos
 um dos grupos representar uma populao normal, no-deficiente  a
mesma tarefa, sob exatamente as mesmas condies, e os respectivos
desempenhos so comparados a fim de se apurar se um grupo tem melhor
desempenho que um outro. Por exemplo, um grupo de crianas normais, um
grupo de crianas mentalmente retardadas e um grupo de crianas autistas
podero receber a tarefa de apertar um boto sempre que acender uma luz
verde num painel de pontrole mas no quando aparece uma luz vermelha. Os
trs grupos seriam ento comparados para ver se qualquer deles tem
tempos de reao mais lentos ou comete maior nmero de erros.

             Mtodos de Avaliao de Dficits Educacionais

        Neste caso,  quase sempre usado um padro etrio. So
administrados testes de aproveitamento numa determinada matria, os
quais foram padronizados num grupo numeroso de crianas de vrias
idades, e a realizao em qualquer aspecto de uma aptido educacional 
comparada com a realizao mdia de vrios grupos etrios. Os testes de
leitura podem incluir medidas de preciso na leitura de palavras, frases
ou pargrafos, de rapidez de leitura ou de compreenso do que foi lido.
Os testes de aritmtica medem a rapidez de trabalho ou a exatido, e
podem ser de aritmtica mental ou escrita. Os testes de redao medem
usualmente a exatido ortogrfica. Assim, poder-se- afirmar que uma
criana tem uma idade de leitura de 7 anos, na medida em que l to bem
quanto uma criana comum de 7 anos de idade cronolgica, uma idade
aritmtica de 6 anos e meio e uma idade ortogrfica de 5 anos.
        Um problema no uso deste tipo de teste de realizao educacional
 certificarmo-nos de que os padres so correntemente relevantes. Aps
alguns anos, no podemos ter a certeza de que o que metade das crianas
de 7 anos na populao podiam ler ento  o mesmo que elas podem ler
agora. Os mtodos e as prticas educacionais, como a

    p. 82
idade em que a criana comea aprendendo a ler, podem influir nos
padres etrios. Por esta razo, se as idades de leitura de um grupo de
crianas deficientes esto sendo investigadas, testa-se freqentemente
um grupo de crianas no-deficientes ao mesmo tempo, a fim de apurar se
as idades de leitura do teste ainda so apropriadas ou se so corretas
para uma determinada escola ou rea de residncia.
        De um modo geral, existe uma relao entre dficit cognitivo e
dficit educacional. Na maioria dos casos de retardamento intelectual,
esperamos que se verifique tambm atraso educacional, embora a relao
no seja particularmente forte em alguns aspectos de aproveitamento. Ler
de forma acurada, por exemplo,  uma atividade geralmente afetada pela
inteligncia inferior mas algumas pessoas com QI's de, digamos, 50 ou
60, podem ler com muita preciso e outras com QI's mais elevados, talvez
de 70 ou 80, so incapazes de ler. A ortografia , em geral, pior nas
pessoas de inteligncia inferior mas existem variaes que no tm
relao alguma com o QI. A aritmtica est muito mais intimamente
relacionada com o nvel de inteligncia.
        Contudo, em pessoas de inteligncia normal podem-se registrar
dficits educacionais. Neste caso, precisamos procurar outros fatores
relevantes.

              Fatores Que Influenciam o Dficit Cognitivo

        O principal fator de diferenciao entre pessoas deficientes que
tm dficits cognitivos e as que no tm parece ser se o crebro est
envolvido ou no na deficincia. No estudo da Ilha de Wight (Rutter e
outros, 1970), o desempenho num teste de inteligncia de crianas com
deficincias fsicas que envolviam o crebro foi comparado com o
desempenho de crianas com distrbios fsicos que no implicavam o
crebro, como asma, eczema, surdez, distrbios ortopdicos,
cardiopatias, diabetes, paralisia decorrente de poliomielite e distrofia
muscular. O desempenho no teste de inteligncia deste ltimo grupo foi
muito semelhante ao de um grupo de crianas no-deficientes usado para
comparao. O grupo de crianas cuja deficincia envolvia o crebro, e
que dava provas de epilepsia incomplexa ou de leso cerebral estrutural,
incluindo o Sndrome

    p. 83
de Down, registrou escores acentuadamente inferiores. Quatorze dessas
crianas eram excessivamente retardadas, para poder obter um escore no
teste usado e tinham uma grave deficincia mental. Contudo, houve
diferenas dentro desse grupo, pois as crianas com epilepsia incomplexa
no obtiveram escores inferiores aos das crianas no-deficientes; s
foram apurados dficits no desempenho das crianas com leso cerebral
estrutural.
         parte os dficits que decorrem diretamente da condio,
considerou-se que uma outra espcie de influncia  a falta de
experincia quer resultante das limitaes da prpria deficincia, quer
do ambiente em que a pessoa vive. Muitas crianas deficientes
desenvolvem-se mais lentamente que o normal porque suas experincias so
mais limitadas, se bem que possam vir a alcanar finalmente o nvel
normal. A deficincia motora, a cegueira e a surdez, tm um efeito
comprovadamente retardador em alguma fase do desenvolvimento. Alm
disso, existem provas de que um ambiente desprovido de estimulao
cultural pode afetar o desenvolvimento de qualquer criana e o seu
amadurecimento intelectual  passvel de ser afetado por escassa
conversao ou interesses restritos no lar, sofrvel freqncia escolar
e uma ausncia geral de interesse pelas atividades intelectuais na
famlia. Uma criana deficiente  suscetvel de ser afetada pelo seu
ambiente no mesmo grau que uma criana normal, se no mais.

         Fatores Que Influenciam o Aproveitamento Educacional.

        Os dois fatores mencionados acima como influentes, no
desenvolvimento cognitivo tambm afetam o aproveitamento educacional. O
progresso da criana em sua educao pode ser dificultado por fatores
que decorrem diretamente da deficincia, como as dificuldades de
aprendizagem, ateno e concentrao, ou as dificuldades na percepo
visual e auditiva; tambm se admite que a falta de experincia exerce,
uma vez mais, uma influncia decisiva no atraso educacional, quer porque
a prpria deficincia, impede a criana de experimentar muitas das
coisas a cujo respeito tem de aprender, quer porque o seu ambiente
familiar no lhe proporciona a mesma vivncia educacional da maioria das
famlias.

    p. 84
        Vrios outros fatores tm sido tambm sugeridos como importantes
no exame do que torna uma criana deficiente mais passvel de
retardamento educacional.
        As ausncias da escola so mais comuns para muitas crianas
deficientes. Em seu regresso de um perodo de ausncia, a criana ter
perdido novas informaes que os seus colegas de classe aprenderam; se
lhes foi ensinado algum aspecto importante de uma determinada matria 
como uma regra de leitura ou uma operao aritmtica  ela poder muito
bem achar que no entende o que as outras esto fazendo. Se a professora
no lhe der instruo extra, o que nem sempre  possvel numa turma
numerosa, a criana ficar provavelmente confusa, frustrada ou
deprimida, e  possvel que passe a ter menos interesse em tentar um bom
desempenho. Foi sugerido que um nico perodo de ausncia no 
excessivamente prejudicial mas que uma srie de ausncias tem um
acentuado efeito nocivo. As crescentes ausncias da escola de muitas
crianas deficientes so geralmente devidas  crescente necessidade de
ir ao hospital ou a clnicas, a perodos de doena diretamente causados
pela deficincia ou devidos a algum efeito colateral  como doenas
respiratrias em crianas fisicamente deficitrias e mentalmente
retardadas  ou problemas de transporte, se forem necessrios arranjos
especiais de transporte. Os problemas de ausncia da escola para ser
hospitalizada so superados, em certa medida, pela administrao de
aulas nas enfermarias.
        Tambm foi opinado que, quando so usadas drogas no tratamento
de uma deficincia, elas podem ter um efeito retardador. Esse problema
surge principalmente nos casos de epilepsia, quando  ocasionalmente
difcil encontrar o nvel em que as convulses da criana sejam
controladas sem que ela no fique excessivamente sonolenta. As
tentativas para demonstrar os efeitos de drogas anticonvulsivantes no
apresentaram, entretanto, quaisquer resultados concretos e talvez isso
no constitua um fator importante.
        Foi sugerido que um outro fator que contribui para o
retardamento educacional so as expectativas reduzidas dos pais e
professores acerca do aproveitamento de uma criana deficiente. Como se
d um certo desconto ao seu desempenho, em virtude da deficincia da
criana, as presses para que se desempenhe bem so evitadas e os sinais
de atraso no trabalho escolar so atribudos  sua incapacidade,

    p. 85
em vez de serem considerados algo que deveria ser remediado.
        Sejam quais forem os fatores envolvidos,  evidente que a
deficincia fsica, quer o crebro esteja afetado ou no, est
relacionada com o reduzido aproveitamento educacional. A pesquisa da
Ilha de Wight (Rutter e outros, 1970) apurou que todos os grupos de
crianas com um distrbio fsico em que o crebro no estava envolvido
continham crianas com problemas de leitura. De um modo geral, elas
tinham nveis de preciso de leitura nove meses abaixo de sua idade
cronolgica e nveis de compreenso de leitura seis meses abaixo. Todos
os grupos de crianas com deficincias fsicas continham crianas que
estavam, pelo menos, 24 meses atrasadas na leitura. Quando foi levado em
conta o efeito da inteligncia e se calculou o nvel de leitura que
seria de esperar na base da idade cronolgica e QI medido das crianas,
verificou-se que 14% das crianas com desordens fsicas liam num nvel
pelo menos vinte e oito meses atrs do que era esperado, ao passo que no
grupo no-deficiente a percentagem no chegou aos 5,5%. O grupo de
crianas com distrbios fsicos em que o crebro estava envolvido
registrou um atraso maior na leitura; em mdia, eles estavam dois anos
atrs do aproveitamento mdio de seu grupo etrio, tanto em preciso de
leitura como em compreenso de leitura. Esse atraso no pde ser
inteiramente explicado pela inteligncia reduzida, como ao ser levado em
conta o QI, uma vez que mais de 25% das crianas estavam atrasadas na
leitura em pelo menos vinte e oito meses, o que era consideravelmente
superior  freqncia de 5,5%) apurada nas crianas no-deficientes. As
ausncias escolares talvez tenham sido influentes mas tampouco
explicaram inteiramente os resultados da pesquisa. Os pesquisadores
apuraram que as crianas com distbio cerebral estavam mais
freqentemente ausentes da escola que as no-deficientes. Entretanto, as
crianas com epilepsia simples no se ausentavam muito mais que a mdia
e, apesar disso, tinham certo atraso de leitura; alm disso, o ndice de
ausncia escolar era o mesmo para crianas cujos distrbios fsicos no
envolviam o crebro e para aquelas cujas deficincias tinham implicaes
cerebrais, mas o atraso de leitura era muito maior no segundo grupo.
Assim, as ausncias escolares eram um possvel fator contribuinte mas
no explicavam inteiramente os ndices de atraso. Foi concludo que o
atraso

    p. 86
de leitura do grupo com distrbios cerebrais tambm se devia em parte
aos efeitos diretos da disfuno cerebral. Examinaremos agora algumas
das concluses em relao a grupos especficos de crianas deficientes,
no que. se refere ao dficit cognitivo ou educacional.

Autismo

        Quer se tenha ou no concludo que as crianas autistas tm
nveis reduzidos de inteligncia e com que freqncia se chegou a essa
concluso depende em certa medida de que crianas foram includas no
grupo diagnstico de autismo. Alguns autores excluram as crianas
mentalmente deficientes com caractersticas de autismo e outros
incluram-nas. O que  certamente claro  que, quando os nveis de
inteligncia das crianas autistas so medidos por testes de
inteligncia, os resultados vo desde a verificao de inteligncia
normal em alguns casos at graves deficincias mentais em outros; e que
existe um vis no sentido dos nveis inferiores de inteligncia. Um
estudo (Lotter, 1966) de 32 crianas diagnosticadas como autistas apurou
que 22 dessas crianas tinham QI's abaixo de 55e outras 6 tinham QI's
inferiores a 80. Somente as quatro restantes tinham nveis de
inteligncia na faixa normal, sendo trs de inteligncia mdia e uma
acima da mdia.
        Rutter e outros (1967) procederam  avaliao de 68 crianas que
tinham freqentado o Departamento Infantil do Hospital Maudsley de 1950
a 1958 e a cujo respeito os psiquiatras que as assistiram tinham
concordado num diagnstico de psicose infantil, sndrome esquizofrnico
da infncia, autismo infantil ou quaisquer sinnimos dessas. condies.
Das 63 crianas, dez foram incapazes de obter um escore ou de prestar a
suficiente colaborao para obter um escore em qualquer dos testes
usados e no houve prova alguma de que os seus QI's fossem superiores a
50. Das 53 que foram testadas, 17 tinham QI's de 50 ou menos, 18 tinham
QI's entre 51 e 70, 12 obtiveram QI's entre 71 e 90 e, finalmente, 6
registraram QI's de 91 a 120. Embora seja muito difcil testar crianas
autistas, e neste estudo o psiclogo achou muitas vezes que o resultado
no era uma medida particularmente vlida da inteligncia da criana, os
escores mostraram ser muito estveis e extraordinariamente

    p. 87
semelhantes quando as crianas foram reavaliadas entre cinco e quinze
anos depois.
        Essas crianas foram comparadas com um outro grupo de crianas
que estavam na mesma faixa de nveis de inteligncia e tinham vrios
diagnsticos mas no eram autistas, e so evidentes muitos outros
dficits nas crianas autistas. A fala estava atrasada em todas as 63
crianas autistas, quer porque nunca se desenvolvera, quer porque se
desenvolvera e voltara a regredir; o atraso de fala foi encontrado em 53
das 63 crianas no-autistas e, portanto, tambm era comum neste grupo
mas no de forma to universal. Mais tarde, verificou-se que as crianas
autistas eram mais suscetveis de ter perodos curtos de ateno ou
persistncia sofrvel; 35 delas mostraram essa caracterstica em
contraste com apenas 17 do grupo no-autista. Contudo, no se distraam
com tanta facilidade; somente duas das crianas autistas eram passveis
de distrao, comparadas com 12 do grupo no-autstico.
        Dentro dos escores gerais do teste de inteligncia houve provas
de variabilidade nos nveis obtidos pelas crianas autistas; a tendncia
delas foi para acharem mais difceis as tarefas verbais; e tiveram maior
dificuldade em lidar com tarefas que envolvessem pensamento abstrato, ou
simbolismo, ou lgica seqencial. Estavam inteiramente  vontade em
tarefas que requeressem aptides manipulatrias ou espao-visuais, e nos
testes que pedissem a recordao imediata de material verbal. Essas
diferenas pareciam ser devidas a defeitos no uso e entendimento da
linguagem, e so compatveis com a concluso de que todas as crianas
tinham atraso de desenvolvimento verbal.
        Parece claro que um dficit intelectual  extremamente comum no
autismo mas ainda est sendo debatida a natureza real do dficit. Uma
teoria diz que, embora os olhos e ouvidos da criana autista funcionem
normalmente, ela  incapaz de dar nexo  informao que lhe chega e,
sobretudo, no pode coordenar a informao proveniente de cada um dos
sentidos de modo a formar um todo significativo. Uma outra teoria  que
as crianas autistas nunca aprenderam que os objetos so permanentes e,
portanto, no podem desenvolver a linguagem, pois  difcil aprender a
denominar um objeto quando este no  compreendido como possuidor de
existncia permanente e independente. Uma terceira teoria sugere que os
estmulos so demasiado

    p. 88
intensos para a criana autista e o seu comportamento estranho  uma
defesa contra o excesso de excitao. Estas e muitas outras teorias
esto sendo atualmente investigadas e a maioria dos investigadores pensa
que, seja qual for a natureza do dficit, ele  provavelmente devido a
um atraso no desenvolvimento de algumas partes do crebro; e que o
principal sintoma reside na anormalidade da resposta aos estmulos
ambientais.

Cegueira

        Como a cegueira no envolve necessariamente o crebro, no se
espera a ocorrncia de um dficit cognitivo, alm do que est envolvido
na falta de viso. Existem algumas provas de que as crianas cegas de
pouca idade se desenvolvem mais lentamente durante os estgios
iniciaisde coordenao de seus sentidos intatos e de seus movimentos
mas, por fim, os outros sentidos desenvolvem-se de molde a compensar a
viso deficiente. Somente quando a viso faz parte de uma condio de
mltipla deficincia, incluindo uma leso cerebral,  que os dficits
cognitivos tendem a ser muito pronunciados.
        Pensava-se que os conceitos abstratos seriam mais difceis de
aprender no caso de faltarem as provas oriundas de um dos sentidos.
Contudo, um experimento veio demonstrar que conceitos como orgulho,
medo, tristeza, podem ser tatilmente apreciados por crianas mais
velhas, em idade escolar. O experimento (Dershowitz, 1973) foi realizado
com rapazes e moas dos oito aos dezesseis anos, de idade; alguns
sujeitos eram cegos e outros possuam viso. Desenhos planos, recortados
em chapas de amianto, e formas de barro tridimensionais, foram
preparadas para representar os vrios conceitos. Cada um desses itens
foi apresentado aos sujeitos, a quem se perguntava qual de dois
conceitos o item representava para eles; por exemplo, se representava
clera ou paz. As crianas dotadas de viso eram vendadas para um teste
e tambm lhes era administrado o teste como exerccio de apreciao
visual. Os resultados mostraram que as crianas cegas podiam apreciar
tatilmente esses conceitos to bem quanto as crianas dotadas de viso
que tinham os olhos vendados mas no tiveram melhor desempenho que
estas; a percepo visual dessas

    p. 89
propriedades pelas crianas com viso foi superior  percepo tatil das
mesmas propriedades pelas crianas cegas.

                          Distrbio Cerebral

        Vimos no comeo do captulo que as crianas deficientes cujo
crebro est envolvido em sua deficincia so mais suscetveis de terem
dficits educacionais e intelectuais.
        Quando o crebro est implicado na deficincia, tambm 
provvel que existam algumas dificuldades de percepo visual, quer
dizer, os olhos esto vendo corretamente mas o crebro  incapaz de dar
sua contribuio normal para a organizao da informao que os olhos
recebem. Muitas pessoas com paralisia cerebral ou com disfuno cerebral
tm essas dificuldades, as quais so muitas vezes difceis de assinalar
mas podem ter um profundo efeito. Por exemplo, a pessoa afetada pode ter
dificuldade em prestar ateno ao objeto desejado se Houver muitas
distraes visuais; pode ser-lhe difcil, por exemplo, apanhar um garfo
e uma faca numa mesa de jantar sobrecarregada ou encontrar um livro numa
escrivaninha apinhada. Foi sublinhado que no se trata de um estado a
que habitualmente chamamos no prestar ateno mas, outrossim,  o
resultado de se atentar para coisas demais ao mesmo tempo ou de prestar
ateno s coisas erradas. Por vezes, uma criana ter dificuldade em
reconhecer linhas horizontais e verticais, o que torna problemtico
andar de um lado para o outro, sobretudo quando se cruzam portas. A
pessoa afetada tambm pode deixar de notar algo importante atravs de
uma falha na explorao visual da rea  sua volta, e podem ocorrer
acidentes quando tropea ou cai sobre algo que no viu. Os problemas de
percepo visual esto provavelmente relacionados com a conduta
desastrada que freqentemente acompanha uma leso cerebral.
        A dificuldade em discriminar entre esquerda e direita tambm 
mais comum em crianas com leso cerebral.
        Na maioria dos casos de dficit perceptual, considera-se que, de
um modo geral, a condio se deve diretamente  maturidade incompleta ou
retardada das partes do crebro onde a leso ocorreu.

    p. 90
O dficit de ateno na leso cerebral foi experimentalmente
investigado. Um experimento (Gorton, 1972) comparou grupos de crianas
normais, crianas mentalmente retardadas que foram diagnosticadas como
portadoras de leso cerebral na base de um exame neurolgico e crianas
mentalmente retardadas cuja deficincia se atribuiu a fatores culturais
ou familiares. Todas as crianas executaram problemas aritmticos em
diferentes ambientes. Todas elas trabalharam melhor sozinhas num
cubculo que ao lado de outras numa situao corrente de sala de aula.
As crianas normais e as mentalmente retardadas por fatores
culturais-familiares trabalharam melhor quando estavam visualmente
isoladas num cubculo, embora no tivesse efeito algum sobre o seu
desempenho o fato de o cubculo ser ou no  prova de som. Entretanto, o
grupo de crianas mentalmente retardadas por leso cerebral trabalhou
melhor quando estava completamente isolado de distraes visuais e
auditivas, trabalhando num cubculo  prova de som.

Paralisia Cerebral

        Calcula-se habitualmente que cerca de metade das pessoas que tm
paralisia cerebral so deficientes mentais, um quarto tem nveis de
inteligncia na faixa fronteiria e um quarto  de inteligncia mdia ou
acima da mdia.
        De um modo geral, apurou-se que o seu ritmo de desenvolvimento 
consideravelmente mais lento que o das crianas fisicamente normais e
que, como grupo, so muito morosos para aprender a falar.
        Mesmo quando a inteligncia  normal e a deficincia fsica 
moderada, h provas de que uma considervel quantidade de pessoas com
paralisia cerebral tem dificuldades percepto-motoras; podem experimentar
dificuldades na anlise de relaes espaciais, no desempenho de simples
tarefas de construo, na diferenciao entre esquerda e direita, e, de
um modo geral, na avaliao de tamanho, forma e distncia. Foi sugerido
que essas freqentes dificuldades perceptivas se devem diretamente, em
parte,  leso cerebral mas tambm  limitada experincia inicial em
atividades que ajudam a criana a aprender a coordenar os sentidos e os
movimentos dos membros. Esta ltima

    p. 91
teoria  corroborada pela observao de que, por vezes, os defeitos
perceptuais aumentam com a idade.
        O desenvolvimento e desempenho do portador de paralisia cerebral
tambm  afetado por uma crescente freqncia de deficincias
sensoriais; por exemplo, uma pesquisa apurou que mais de 50% das
crianas hemiplgicas, cuja espasticidade afeta principalmente um lado
do corpo, tinham defeitos sensoriais. Em virtude dos movimentos fsicos
anormais envolvidos, as deficincias sensoriais so muitas vezes
difceis de detectar. As perdas auditivas parecem ser especialmente
comuns. Uma investigao (Dunsdon, 1952) de 27 pessoas com paralisia
cerebral, as quais tinham fala retardada, mostrou que, quando sua
audio foi apropriadamente investigada, apenas uma tinha o ouvido
completamente normal de um lado e uma ligeira perda do outro lado. As
restantes tinham todas problemas de audio que provavelmente
contribuam para o atraso de fala.

Surdez

        Quando a surdez  a nica deficincia, e o crebro no est
envolvido, no h provas de que a inteligncia esteja afetada. Tal como
no caso de cegueira, o desenvolvimento cognitivo tende a ser um pouco
mais lento nas crianas surdas, quando comparadas a crianas
no-deficientes da mesma idade, mas as diferenas so muito pequenas.
Embora se diga freqentemente que as pessoas com deficincia auditiva
tm extrema vivacidade visual, existem certas provas de que, na
infncia, o desenvolvimento da percepo visual pode ser mais moroso que
nas crianas dotadas de audio normal; um estudo (Colin e Vurpillot,
1971-1972) de 60 rapazes surdos, de quatro a sete anos de idade, usou
uma tarefa de figuras camufladas, em que os rapazes tiveram de descobrir
figuras camufladas num grande desenho. Quando comparados com rapazes de
ouvido normal da mesma idade, as crianas surdas deram respostas
sofrveis e a estratgia que usaram para fazer a busca foi menos
eficiente.
        Foi dito que a surdez  a maior barreira educacional, pois a
discusso de matrias abstratas fica difcil sem a fala e a comunicao
verbal desenvolta. Foi verificada a freqente existncia de certa
deteriorao auditiva entre grupos de crianas educacionalmente
retardadas e a perda

    p. 92
auditiva sem diagnstico nem medidas corretivas  certamente uma das
causas que contribui para o atraso educacional.

                               Epilepsia

        Concorda-se geralmente em que a epilepsia per se no est
relacionada com a inteligncia reduzida e que a maioria das crianas
epilpticas so de inteligncia normal. Um estudo de treze pares de
gmeos monozigticos (idnticos) que foram escolhidos porque um dos
membros do par tinha ataques e o outro no, mostrou que no existiam
diferenas significantes entre os seus nveis de inteligncia; o QI
mdio dos gmeos que tinham ataques epilpticos era 100,7 e o dos gmeos
sem ataques era 103,2. Em termos psicomtricos, uma diferena dessas 
considerada to pequena que se deve provavelmente a fatores aleatrios,
assim como  provvel que se produzisse na direo inversa caso o teste
fosse repetido, de modo que tal diferena e considerada estatisticamente
insignificante. Um nvel de inteligncia inferior  mdia numa criana
epilptica ser apurado, muito provavelmente, numa criana com sria
leso cerebral e em que a epilepsia  sintomtica dessa condio.
        Os progressos educativos tm mais probabilidades de ser
afetados. Na pesquisa que envolveu todas as crianas de nove a onze anos
de idade na Ilha de Wight (Rutter e outros, 1970), registraram-se 59
crianas epilpticas sem outras complicaes nem sinais de leso
cerebral. Os resultados de outros estudos, segundo os quais esse grupo
era de inteligncia mdia, foram confirmados e apurou-se que o seu QI
mdio era 102, mas a leitura estava, em media, doze meses atrasada em
relao  idade cronolgica. 18% das crianas epilpticas estavam
atrasadas dois anos ou mais na leitura, ao passo que menos de 1% das
crianas sem problemas fsicos ou psiquitricos, usadas para fins
comparativos, apresentavam um atraso anlogo. Os investigadores
concluram que o atraso em leitura estava relacionado  disfuno
cerebral e no a outros possveis fatores.
        Outras fontes sugeriram que a aritmtica e a ortografia podem
estar ainda mais atrasadas em crianas epilpticas.

    p. 93
              DFICITS COGNITIVOS, MOTORES E EDUCACIONAIS

                          Deficincia Mental


        Os deficientes mentais tm mais dficits que qualquer outro
grupo e, como princpio geral, quando o nvel intelectual diminui o
nmero de deficincias adicionais tende a aumentar.
        A maior parte das aptides cognitivas esto deterioradas nos
deficientes mentais. Quase todos os gneros de aprendizagem so
desempenhados mais lentamente, embora haja certas provas de que, numa
tarefa no-verbal de aprendizagem de cor, o desempenho  to bom quanto
o de pessoas normais da mesma idade (a tarefa consistia em associar em
pares diversos desenhos de objetos familiares; os sujeitos eram
portadores de deficincias mentais moderadas). A soluo de problemas 
prejudicada e a capacidade de construo , em mdia, sotrvel. A
pesquisa da Ilha de Wight apurou que, em crianas com um QI abaixo de
70, a capacidade de construo,, aferida atravs de copiar formas
geomtricas com fsforos, era sofrvel em 34 % dos sujeitos, comparado
com um pouco mais de 2% das crianas no-deficientes.
        A falta de controle motor  mais comum nos deficientes mentais,
sendo mais freqentemente observada uma coordenao sofrvel. Das
crianas com QI's inferiores a 70 na pesquisa da Ilha de Wight, 43,4%
tiveram mau desempenho no Teste Oseretsky de Proficincia Motora, em
comparao com 5% das crianas normais. Do lado positivo, observou-se
que em algumas tarefas motoras, embora o desempenho inicial fosse
sofrvel, as crianas com deficincia mental, desde que recebessem
adestramento adequado, podiam alcanar nveis prximos dos normais. A
falta de persistncia motora  isto , a incapacidade de manter por
algum tempo um ato motor voluntrio que foi iniciado por ordem verbal,
como manter os olhos fechados, pr a lngua de fora ou conservar a boca
aberta   mais acentuada nos deficientes mentais; 40% da amostra de
crianas retardadas da Ilha de Wight mostraram acentuada falta de
persistncia motora, em comparao com 5% do grupo normal. Tambm do
lado positivo, afirma-se que os deficientes mentais so dotados de boa
reteno para alguns desempenhos e recordam tarefas que lhes foram bem
ensinadas h muito tempo.
        As deficincias sensoriais complicam o desempenho em muitas
tarefas e encontram-se mais freqentemente nos

    p. 94
deficientes mentais. Uma pesquisa com um grupo de sujeitos de 10 a 19
anos de idade  que tinham idades mentais de 5 anos e acima  num
hospital psiquitrico, apurou que apenas 44% do grupo no tinham perdas
auditivas.
        Finalmente, o desenvolvimento da fala e verbal  mais lento nos
deficientes mentais. Foi usualmente apurado que o seu desenvolvimento da
fala obedece a uma seqncia normal de desenvolvimento mas numa cadncia
muito mais lenta e com um nvel final abaixo da mdia.
        No estudo da Ilha de Wight, dentro do grupo de crianas com QI's
abaixo de 70, cerca de 25 % no tinham usado palavras singulares antes
dos dois anos de idade e s depois dos trs anos empregou frases de trs
palavras; as estimativas de sua freqncia variaram entre 50% e 82%. No
estudo acima, cerca de metade das crianas tinham defeitos de
articulao, sofrvel complexidade verbal e capacidade descritiva
inadequada.
        Cumpre assinalar que, no grupo que  geralmente classificado
como deficientes mentais, existe uma vasta gama de nveis que vai desde
os totalmente incapacitados por deficincias mentais, fsicas e talvez
sensoriais, em alguns casos inclusive com epilepsia, at aos que podem
ter QI's em torno de 70 mas no so diferentes, de um modo demasiado
bvio, da populao normal. A freqncia e a extenso dos dficits
variam em conformidade.

                          Distrofia Muscular

        Durante muitos anos, desenrolou-se uma controvrsia sobre se as
pessoas com distrofia muscular eram mais suscetveis de atraso mental.
Um baixo QI mdio foi verificado muitas vezes em grupos de sujeitos com
distrofia muscular progressiva tipo Duchenne mas discutiu-se se a
diminuio de inteligncia estaria diretamente relacionada com a doena
ou seria devida  privao de experincia decorrente das limitaes
fsicas. A situao parece ser que os nveis de inteligncia de pessoas
com distrofia muscular progressiva cobrem a mesma faixa das normais;
entretanto, a mdia  tipicamente um QI de 80 em vez de 100 e ocorre uma
Incidncia crescente de retardamento mental; um estudo (Cohen e outros,
1968) de 211 pacientes com distrofia muscular progressiva apurou que 21%
eram retardados mentais

    p. 95
mas no havia qualquer aumento de atraso mental entre seus irmos que
no eram distrficos. Como a distrofia tipo Duchenne  geneticamente
causada, h por vezes mais de um rapaz afetado numa famlia; quando
irmos com distrofia so comparados, os seus nveis de inteligncia so
muito semelhantes. Sempre que h retardamento mental,, considera-se
usualmente que ele  devido a uma deteriorao orgnica do crebro mas
no foram encontradas ntidas anormalidades estruturais ou qumicas.

                            Spina Bifida

        A inteligncia em crianas com spina bifida varia com o tipo de
leso, o sexo da criana e a presena ou ausncia e gravidade da
hidrocefalia.
        Em crianas com spina bifida e sem hidrocefalia, o QI 
normalmente distribudo. A hidrocefalia, se presente e extensa, 
suscetvel de causar uma inteligncia reduzida,, ausncia de coordenao
motora e percepo visual defeituosa. Foi apurado que as mulheres tm
maiores possibilidades de deteriorao intelectual que os homens (tem-se
especulado que os rapazes gravemente afetados tm menos, probabilidades
de sobreviver).
        As crianas com spina bifida so quase sempre educacionalmente
retardadas. Um estudo apurou um atraso mdio de leitura de 18 meses e de
30 meses nas idades aritmticas. A ortografia tambm  retardada em
mdia. Uma causa provvel  que essas crianas tm freqentes perodos
de hospitalizao e, por vezes, so tardiamente escolarizadas. Foi
estimado que trs quartos dessas crianas necessitam de assistncia
corretiva especializada em aptides, educacionais.

                               Concluso

        Uma concluso geral  que quando o crebro est envolvido numa
deficincia, as capacidades cognitivas so passveis de deteriorao; e
que uma criana com qualquer forma de deficincia corre o perigo de ser
educacionalmente retardada em maior ou menor grau. Entretanto, em
qualquer grupo de crianas, o seu aproveitamento educacional tambm
depende de fatores tais como motivao,. Interesse e reduo ao mnimo
de frustraes

    p. 96
                                   6

              Distrbios de Personalidade e Comportamento

        A estrutura da personalidade e a incidncia e tipo de distrbios
de comportamento nos deficientes so difceis de estudar porque
diferentes pesquisadores tm usado vrias definies, mtodos e teorias
da personalidade como base para seus trabalhos de investigao (ver D1 e
D3). As concluses so formuladas em termos de estrutura da
personalidade, distrbios de personalidade, distrbios emocionais,
distrbios ou desordens de comportamento e doena mental, e estes
conceitos sobrepem-se com freqncia.
        Entretanto, as questes fundamentais a formular parecem ser as
seguintes: Os deficientes tm personalidade identificavelmente distintas
dos no-deficientes? Os deficientes so mais propensos a um
comportamento inaceitvel para eles mesmos ou para os outros?

                           Mtodos de Estudo

        A maioria dos autores acha que mtodos especiais e distintas
teorias da personalidade no so necessrias quando se estuda os
deficientes e que eles podem ser usualmente avaliados recorrendo s
mesmas teorias de estrutura e pelos mesmos mtodos dos no-deficientes.
Contudo, muitos mtodos de avaliao da personalidade baseiam-se em
depoimentos verbais e respostas a questes sobre o modo como uma pessoa
sente e se comporta, e sobre suas atitudes em relao a outras. Isto
suscita um problema particular quando a comunicao verbal com uma
pessoa deficiente  limitada.

    p. 97
        As excees  regra geral de que no so precisas teorias
especiais foram alguns estudos de personalidade realizados entre
deficientes mentais. Neste caso, foram apresentadas algumas teorias
especiais, por exemplo, a explicao da rigidez do comportamento de
pessoas retardadas, a qual sugere que a tendncia dos deficientes
mentais  para repetir os mesmos padres de comportamento; so menos
propensos a tentar novos padres e a transferir uma resposta dada numa
situao para uma outra. A abordagem terica da aprendizagem social
avalia a pessoa deficiente em termos da preferncia do indivduo por
qualquer reforo particular (recompensa) e a sua expectativa de que esse
reforo ocorrer em resultado da sua conduta.
        No campo da deficincia em geral, quatro mtodos bsicos tm
sido usados:

        Questionrio com o sujeito. Os mesmos questionrios ou outros
mtodos verbais que so usados na populao geral tm sido aplicados e,
em alguns casos, fizeram-se tentativas para simplificar os questionrios
usados, de modo que possam ser entendidos e completados por pessoas
menos inteligentes, cuja leitura  mais limitada.
        Questionrio sobre o sujeito. Neste caso,  apresentado um
questionrio aos pais da pessoa que est sendo avaliada ou a algum que
a conhece bem. Pode ser na forma de uma lista especificada de perguntas
ou uma entrevista em que o entrevistador apresenta questes especficas
para resposta, mas a pessoa que est sendo entrevistada  encorajada a
falar livremente e o entrevistador decide sobre a resposta final.
        Observao direta do comportamento. Quando a comunicao com o
sujeito  limitada,  muitas vezes prefervel observ-lo para ver como
ele se comporta e formular uma avaliao da sua personalidade ou dos
problemas, com base nessas observaes.
        Observaes experimentais do comportamento. Os grupos de
sujeitos podem ser observados enquanto executam a mesma tarefa sob
condies idnticas, efetuando-se comparaes entre eles para avaliar
seus tipos de reao.

                             Personalidade

        A maioria dos estudos focaliza os distrbios de personalidade
mas alguns visam  investigao da estrutura ou

    p. 98
tipo de personalidade, usualmente quando se acredita que so
significativamente diferentes do normal.
        Um estudo (Wilcox e Smith, 1973) utilizou um questionrio de
personalidade para examinar um grupo de 101 crianas com deficincia
mental moderada. Os rapazes retardados divergiam em quase todos os 14
fatores dos rapazes normais; mostraram-se menos cooperativos, muito
menos inteligentes, menos estveis, mais exigentes, menos expansivos,
menos perseverantes, muito mais irredutveis, mais individualistas, mais
manhosos, mais deprimidos, com menos autodomnio e mais tensos. As
nicas escalas que no produziram diferenas foram as que avaliavam
caractersticas de agressividade-rebeldia e temeridade-cordialidade. As
moas retardadas tambm apresentaram considerveis diferenas; elas eram
muito menos cooperativas, muito menos inteligentes, menos estveis,
mais exigentes, mais dogmticas, algo menos expansivas, menos
perseverantes e amistosas, muito mais individualistas e realistas, mais
deprimidas, dotadas de menos autodomnio e mais tensas que as moas
normais. Considerou-se que as diferenas em nvel de inteligncia ou no
modo como as crianas retardadas respondiam s perguntas podiam ter
afetado os resultados e havia uma complicao adicional, a saber, que
havia mais crianas de lares desfeitos no grupo retardado. As moas
pareciam especialmente afetadas por esse fator e, segundo parecia, as
evidentes diferenas de personalidade podiam estar mais relacionadas com
a instabilidade familiar do que com a deficincia mental em si.
        Trabalhando tambm com deficientes mentais, Cromwell (1963) usa
o enfoque terico da aprendizagem social mencionado acima. Previu que as
pessoas retardadas tero menos expectativas de xito que as normais e
so mais propensas a evitar fracassos em vez de buscar xitos. Cromwell
considerou que essa tendncia surgiu porque as pessoas retardadas devem
ter conhecido menos xitos no passado. Essa tendncia pode ser
demonstrada experimentalmente. Uma tarefa tpica  dar ao sujeito dois
quebracabeas para completar; permite-se-lhe que termine um mas no o
outro. Mais tarde, -lhe propiciada a oportunidade de repetir aquele em
que foi bem-sucedido ou de tentar de novo aquele em que falhou. A sua
escolha indica se o seu propsito  o xito, tentando agora realizar o

    p. 99
quebra-cabea incompleto, ou se  evitar o fracasso, repetindo aquele
que j demonstrara ser capaz de fazer.
        Um terceiro exemplo de descrio da personalidade do deficiente
ocupou-se de clientes surdos que estavam sendo reabilitados (Bolton,
1972). Os seus conselheiros de reabilitao receberam 42 adjetivos e
foi-lhes solicitado que indicassem quais eram os que melhor e pior
descreviam cada um dos clientes. Destacaram-se quatro tipos de
personalidade. Quase metade dos clientes foram descritos como
expansivos, enrgicos e cooperativos; o segundo tipo foi descrito como
passivo, tmido, reservado, ameno e retrado; o terceiro tipo era
defensivo, desconfiado, teimoso, impulsivo; e o quarto tipo era
nervoso, cauteloso, preocupado e dcil para aprender. Estes quatro
tipos correspondiam bem s tipologias sugeridas por outros autores.

                      Distrbios de Comportamento

        Muito mais ateno foi prestada  freqncia e tipo de
distrbios de comportamento nas pessoas deficientes. Embora conceitos
como os de desajustamento e perturbao emocional possam no se referir
exatamente aos mesmos tipos de comportamento, consideraremos algumas das
concluses obtidas em todas essas reas, porquanto tm sido relacionadas
a diferentes deficincias.

                          Paralisia Cerebral

        Concorda-se geralmente em que a incidncia de distrbios de
comportamento  maior na paralisia cerebral do que nos indivduos
no-deficientes mas as estimativas sobre em que grau  maior variam
bastante. No caso extremo, foi sugerido que metade dos indivduos com
paralisia cerebral acompanhada de crises convulsivas tm um distrbio de
natureza psiquitrica, tal como um tero dos isentos de ataques.
Contudo, uma pesquisa com 54 desistentes escolares espsticos apurou que
seis pessoas (cerca de 11%) tinham manifestado sinais inequvocos de
distrbio psicolgico, pelo que haviam recebido ou lhes fora oferecido
tratamento psiquitrico. As diferenas nessas duas estimativas podem ser
devidas a diferentes definies de distrbio ou talvez ao fato de o
tratamento ter sido oferecido,

    p. 100
no segundo caso, a menos crianas que as que dele necessitavam.
        Foram mencionados freqentemente alguns problemas com que se
defronta o portador de paralisia cerebral adolescente, e h uma sugesto
de que a adolescncia  um perodo particularmente difcil para os
deficientes. Nesse perodo, eles ganham maior conscincia das reaes
dos seus pares, das atividades em que no podem tomar parte, como danar
ou praticar esportes, de que no so atraentes, das realidades da
situao de trabalho; e, em alguns casos, tm que renunciar a uma
fantasia de que ficaro curados quando crescerem. Todos estes fatores
contribuem, ao que se cr, para o distrbio psiquitrico no paraltico
cerebral adolescente.
        Parece haver um aumento de freqncia dos acessos de
irascibilidade em crianas com paralisia cerebral. Na pesquisa de Hewett
(1970) com as mes de 180 crianas com paralisia cerebral nos East
Midlands, o nmero de crianas que nunca tiveram birras foi idntico ao
de crianas normais de 4 anos, 32% destas ltimas jamais as tiveram e
31% das crianas com paralisia cerebral nunca fizeram tais cenas de mau
humor. Contudo, as freqncias de birras variavam e a ocorrncia diria
ou quase diria no grupo portador de paralisia superava em mais do dobro
a do grupo normal, sendo as propores de 22% contra 97%,
respectivamente. Segundo parece, uma elevada proporo das crianas que
tinham birras freqentes experimentava srias dificuldades de
comunicao ou carncia de fala, motivo pelo qual no podiam expressar
verbalmente os seus sentimentos nem formular pedidos; a frustrao deve
desempenhar um papel nessas exploses. Por certo, as birras dirias ou
quase dirias eram trs vezes mais comuns em crianas portadoras de
deficincias fsicas e mentais do que nas crianas fisicamente
deficientes de inteligncia normal; o grau de deficincia fsica no
estava relacionado com a freqncia das birras. Foi reconhecido,
entretanto, que aquilo a que as mes de crianas deficientes chamavam de
birras no estava necessariamente definido de modo to claro quanto para
as mes de crianas normais e chamar a vrios comportamentos birras 
mais de uma interpretao quando se lida com as pessoas seriamente
deficientes.
        As birras tm sido mencionadas com idntica freqncia, porm,
em pessoas mais velhas com paralisia cerebral

    p. 101
e um estudo de desistentes escolares indicou que 42% dos deficientes
moderados com paralisia cerebral eram dominados por acessos de
irascibilidade que pareciam fugir ao seu controle.

                               Epilepsia

        Existem escassas provas que demonstrem haver um padro de
personalidade comum a todas as pessoas com epilepsia. Entretanto, a
maioria dos pesquisadores concorda em que existe uma crescente
incidncia de problemas neurticos e distrbios de carter entre pessoas
epilpticas, os quais se pensa geralmente serem causados por fatores
circundantes, como a ansiedade sobre ter um ataque, sobre as
conseqncias sociais e sobre se revelar ou no o problema.
        Os principais tipos de distrbio encontrados so geralmente
coincidentes entre os vrios estudos, se bem que, quando as desordens
so analisadas em maior detalhe, surgem muitas contradies entre as
concluses.
        Bagley (1971) resume da seguinte maneira os principais tipos de
distrbios:

        1. Um quadro neurtico com ansiedade, depresso, medos e
inibio;
        2. Agressividade com acessos irascveis (ou birras) e
comportamento anti-social;
        3. Comportamento hiperativo e hipercintico;
        4. Deficincia mental.

        Foi sugerida uma teoria da interao para explicar os distrbios
de comportamento, na qual a personalidade pr-ataque, o comeo dos
ataques, a reao do meio aos ataques e a reao da criana a tudo isso
interatuam mutuamente para produzir o comportamento final.
        Bagley estudou 118 crianas epilpticas e verificou que o
comportamento delas podia ser dividido em duas categorias distintas: o
agressivo e o ansioso; e que estas categorias eram semelhantes s
encontradas em estudos de crianas no-epilpticas. Bagley usou
classificaes independentes por dois colaboradores em 39 itens de
possvel comportamento perturbado. com base nessas classificaes, as
118 crianas puderam ser divididas em quatro categorias, contendo
quantidades muito semelhantes. Assim

    p. 102
22% tiveram escores acima do ponto intermdio tanto em comportamento
agressivo como no ansioso; 25% s no comportamento agressivo; 24% s no
comportamento ansioso; e 29% tiveram escores abaixo do ponto intermdio
em ambos os comportamentos.
        Tambm estimou que 43% dos 118 sujeitos tinham distrbios
psiquitricos to grandes quanto os que podiam ser observados numa
clnica de orientao infantil; e entre os 118 havia dez crianas que
pareciam mais perturbadas que praticamente todas as crianas
no-epilpticas da clinica de orientao infantil.
        Os distrbios de comportamento esto relacionados a fatores
adversos no meio ambiente da criana. Condies como moradia
superlotada, pobreza, morte ou desero de um dos pais, permitem
distinguir claramente entre crianas epilpticas com ou sem distrbios
de comportamento de todas as espcies: ansioso, agressivo ou ambos.
Segundo parece, havia fatores significativamente mais adversos no meio
ambiente quando havia um parente prximo tambm epilptico.
        Tem sido freqentemente sugerido que uma forte emoo pode
deflagrar os ataques; medo, angstia, excitao, susto, culpa,
frustrao  todas estas emoes tm sido examinadas como capazes de
produzir um ataque numa pessoa epilptica.

                          Deficincia Mental

        A probabilidade crescente de distrbios de comportamento tem
sido quase universalmente encontrada. Um estudo com crianas portadoras
de deficincia mental moderada sugeriu haver entre elas o triplo de
desajustadas em relao a crianas de inteligncia normal.
Caractersticas do comportamento desajustado eram a depresso, inibio,
tenso e agresso em relao aos adultos, e o desajustamento parecia
mais comum nas crianas mais velhas do que nas mais novas. Alm da
deficincia, outros fatores pareciam ser tambm importantes. As que eram
desajustadas tinham mais freqentemente antecedentes familiares
instveis, sua sade era mais freqentemente precria e tinham mais
defeitos fsicos.
        Vrias razes foram sugeridas para a crescente incidncia de
distrbios de comportamento nos deficientes mentais. Como tm mais
deficincia,  admissvel que sintam

    p. 103
mais frustraes e conflitos, estejam sujeitos a mais presses e sejam
mais passveis de rejeio, superproteo ou isolamento.
        Depois da prpria deficincia mental, o distrbio de
comportamento  a razo mais provvel para se solicitar a admisso numa
instituio.
        As estimativas da freqncia real de distrbios de comportamento
em deficientes mentais variam muito, de acordo com a definio que se
use de distrbio. Por exemplo, uma estimativa diz que metade dos
deficientes mentais tem graves distrbios psiquitricos, um outro que
33% tm distrbios de personalidade e 7% so doentes mentais. Tem sido
freqentemente sugerido que o tipo de distrbio de comportamento
encontrado varia com o nvel intelectual e que o grupo de QI superior 
propenso ao comportamento neurtico ou anti-social, ao passo que o grupo
de QI inferior tem maiores probabilidades de ser hipercintico ou
psictico. (Ver P3.)
        A doena mental foi assinalada em cerca de 10% dos deficientes
mentais em numerosos estudos, os quais tendem a concordar em que a
esquizofrenia constitui a mais comum forma de psicose, ao passo que a
depresso verdadeira  rara.

                        Deficincias Sensoriais

        Reunimos neste contexto os indivduos com deficincia auditiva e
deficincia visual, pois tm sido feitas algumas vezes comparaes entre
os efeitos dessas duas perdas sensoriais sobre o comportamento.
        O problema bsico de avaliao do distrbio de comportamento num
caso ou outro tem sido a falta de um padro; dever o comportamento de
pessoas com perdas sensoriais ser comparado com o de no-deficientes, na
tentativa de se chegar a uma avaliao do distrbio de comportamento, ou
ser possvel levar em conta os problemas especiais de perda sensorial?
Se adotarmos a segunda alternativa, muito comportamento aparentemente
incomum pode ser visto como normal ou esperado na maioria de pessoas
surdas ou cegas.
        Na infncia, assinala-se com freqncia que os surdos so
emocionalmente retrados e manifestam traos ou rituais compulsivos que
so repetidamente realizados. Essa

    p. 104
caractersticas aumentam a probabilidade de que uma criana surda possa
ser erroneamente considerada deficiente mental ou autista. Se a perda
auditiva pode ser corrigida em alguma extenso, mediante um aparelho de
prtese auditiva, o comportamento da criana muda freqentemente de uma
forma espetacular. Se essa perda de ouvido fosse levada em conta antes
da introduo da prtese auditiva, poder-se-ia observar que a criana se
adapta de maneira perfeitamente normal aos estmulos que lhe so
acessveis e se ajusta  sua prpria gama de experincias.
        So caractersticas das pessoas surdas mais velhas o
egocentrismo, a rigidez de comportamento, a impulsividade sem angstia
ou culpa a respeito de suas aes, a falta de empatia com outras pessoas
e a compreenso sofrvel dos efeitos de seu comportamento sobre os
demais. Essas caractersticas do comportamento podem ser igualmente
consideradas muito distintas daquelas de pessoas no-deficientes, mas
compreensveis e previsveis em algum cuja capacidade de comunicao
com os outros  limitada. Por exemplo,  lcito considerar que a conduta
evidentemente retrada  caracterstica de algumas pessoas surdas, mas,
de fato, quando parece que elas no esto prestando ateno ao que
acontece em seu meio circundante imediato,  possvel que estejam
concentradas no que est acontecendo num pano de fundo, que  aquilo de
que as pessoas dotadas de ouvido tomam conhecimento atravs dos sons.
        Foi sugerido que os surdos esto constantemente num estado de
dvida e precisam verificar freqentemente se aquilo que entendem estar
acontecendo  o mesmo que foi entendido por outras pessoas. Isto pode
estar relacionado com a to notada desconfiana da pessoa surda. Foi
sugerido que as pessoas surdas so propensas a tentar confiar em suas
prprias percepes e juzos, sendo raro encontrar um surdo
excessivamente dependente de outrem, ao passo que o cego tende a confiar
na informao fornecida pelos outros para confirmar suas observaes.
        Considera-se que as formas de doena mental variam, entre o cego
e o surdo. Se ocorre depresso numa pessoa surda,  mais provvel que
adote uma forma agitada, com tendncia para a desconfiana, e raramente
ser da forma retardada, com caractersticas de culpa e autocensura. No
h provas de que a esquizofrenia seja mais comum que na

    p. 105
populao geral. No caso de neurose, o tipo mais freqentemente
encontrado no surdo  da espcie obsessiva-compulsiva, ao passo que o
cego tende para o tipo histrico, dramtico-histrinico, de distrbio.
Um estudo de pessoas cegas apurou uma incidncia crescente de neurose,
tal como  medida por respostas a um questionrio. Em comparao com 16%
dos sujeitos dotados de viso, que trabalhavam nas mesmas organizaes,
31% dos sujeitos cegos registraram escores na faixa neurtica. Mais
sujeitos do sexo feminino que do masculino tiveram escores sugerindo
neurose, e os escores de neurose foram mais elevados para pessoas mais
idosas.

                        Problemas de Avaliao

        Uma impresso geral da literatura  que a percentagem de
distrbio de comportamento ser maior entre os deficientes que na
populao geral. Entretanto, muitos estudos so difceis de avaliar.
        Existe provavelmente mais variao terminolgica nesta rea que
em qualquer outra rea de estudo da deficincia. Doena mental, desordem
psiquitrica, distrbio de comportamento, perturbao emocional e
desajustamento so apenas alguns dos termos aplicados. Alm disso, como
vimos no caso do distrbio sensorial, os juzos podem ser formulados
mediante o uso de diferentes padres, e algumas condutas evidentemente
desordenadas podem ser tambm vistas como adaptativas, dentro dos
limites da pessoa.
        Um segundo problema  que nem sempre dispomos de padres para
comparar resultados. Os estudos mais satisfatrios avaliam um grupo
no-deficiente que vive, freqenta a escola e trabalha no mesmo ambiente
ou em ambientes to comparveis quanto possvel aos do grupo deficiente
que estiver sendo examinado. Em outros casos, formulam-se enunciados
acerca da freqncia de determinado comportamento num grupo, mas
ignoramos se a presena da deficincia  importante, visto no existirem
dados comparveis para grupos no-deficientes.
        Surgem por vezes dificuldades naqueles casos em que se extraram
concluses de grupos selecionados, sobretudo os que esto sob
assistncia residencial. Os dados sobre deficientes mentais que vivem
hospitalizados, por exemplo, so suscetveis de fornecer uma impresso
diferente dos

    p. 106
dados obtidos a partir de um grupo de deficientes mentais que vivem em
suas casas, pois o primeiro grupo talvez seja diferente de um modo que
se relaciona com o prprio fato de estar num hospital.  de se esperar
que um grupo hospitalizado seja mais difcil de cuidar, ou menos
independente, pois so essas as razes que levam justamente a solicitar
internao.
        Finalmente, h o problema de deslindar os fatores relevantes.
Acentuadas diferenas de comportamento entre dois grupos, um deficiente
e outro no, podem sugerir que a deficincia produz a diferena de
comportamento. Contudo, quando so considerados outros fatores,
destacam-se s vezes como sendo de maior importncia. Se fatores
adversos como sejam m habitao, famlias desfeitas e relaes
familiares perturbadas so mais comuns no grupo deficiente, eles podero
ser muito mais importantes para o comportamento da criana que a prpria
deficincia.
        Sabemos, por exemplo, que a atitude dos pais est por vezes
relacionada com o comportamento da criana, embora nem sempre seja claro
se o comportamento difcil na criana causa uma atitude parental mais
negativa ou se, pelo contrrio,  um efeito desta. As atitudes parentais
tm sido principalmente estudadas atravs de questionrios ou
entrevistas com os pais, sendo depois classificadas na base do material
da entrevista.
        Uma pesquisa mostrou que quanto mais difcil era o comportamento
da criana na escola, mais hostis os pais se mostravam em relao 
escola (neste caso, as crianas tinham deficincias mentais moderadas).
No  difcil concluir que essa espcie de relao de atitude e
comportamento pode ser interpretada em ambas as direes. Os pais de uma
criana cujo comportamento  difcil podem ser propensos a
responsabilizar a escola por isso e  de se esperar que a criana que
sabe serem seus pais hostis  escola no se comporte bem nela. A
explicao mais provvel  uma interao entre as duas atitudes e
comportamentos.
        Bagley (1971) apurou que as atitudes adversas em pais de
crianas epilpticas eram muitssimo comuns naqueles pais cujos filhos
eram agressivos. As atitudes dos pais com filhos que eram ansiosos e
agressivos eram um pouco menos adversas; por ordem, vinham em seguida os
pais com filhos ansiosos e, neste caso, as suas atitudes tinham apenas
uma escassa diferena de direo quando comparadas

    p. 107
s atitudes daqueles pais cujos filhos no eram ansiosos nem agressivos.
As atitudes adversas esto relacionadas com a ansiedade materna, com a
incapacidade materna para arcar com problemas, com um pai que critica
sistematicamente a conduta filial e com os pais que no adotam uma
atitude de apoio e tolerncia em face dos problemas causados pela doena
da criana. Entretanto, o comportamento da criana tambm se relacionou
com uma srie de problemas ambientais, como a pobreza, a superlotao
habitacional, parentes perturbadores ou mudanas substanciais em seu
meio, como a desero ou a morte de um dos pais ou a mudana de casa.
Assim, havia uma variedade de fatores interligados, os quais
influenciavam todos o comportamento da criana e se afetavam mutuamente,
porquanto os pais que tinham uma grande quantidade de problemas
ambientais com que se defrontar eram mais suscetveis de ter tambm
atitudes e comportamento perturbadores.

    Aspectos Psicolgicos do Tratamento do Comportamento Perturbado

        Foi sublinhado que, embora as escolas para crianas desajustadas
estejam usualmente dotadas de servios de um psiquiatra, um psiclogo
educacional e um assistente social (ver volume C4 do CURSO BSICO), e
tenham muitas vezes estreitos vnculos com uma clnica de orientao
infantil, as escolas especiais para deficientes tm muito menos
disposies desse tipo, embora as estimativas mostrem que a incidncia
de problemas de comportamento  comparativamente elevada. Grande parte
das obras publicadas sobre mtodos de tratamento ocupa-se dos
deficientes mentais, especialmente em instituies residenciais, como
escolas ou hospitais.

                             Psicoterapia

        Este termo  usado para abranger uma grande variedade de
tcnicas mas refere-se basicamente a uma situao em que um profissional
fala com uma outra pessoa numa tentativa de melhorar a condio
psicolgica dessa pessoa. A maioria das descries publicadas afirma
terem sido obtidos

    p. 108
alguns xitos, embora no seja provvel que os fracassos recebam igual
publicidade. Entretanto, muitos estudos so de difcil avaliao.
        Por vezes, os efeitos relatados da psicoterapia tendem a ser
descritos em termos algo vagos e baseados mais em julgamentos que em
qualquer tentativa de medio da mudana. Contudo, sempre que ocorrem
mudanas benficas numa pessoa que recebeu psicoterapia, tendem a ser
mudanas no estado emocional. Fizeram-se algumas descries de elevao
do QI aps a psicoterapia mas so casos comparativamente raros.
        A maioria dos cursos de psicoterapia relatados envolveu uma ou
duas sesses semanais, durando cada sesso uma hora ou hora e meia. Em
muitos casos, pouca meno se faz de como a pessoa que est sendo
tratada gastou o resto de seu tempo, se bem que possa ter havido
influncias teraputicas em outras situaes. Um estudo (O'Connor e
Yonge, 1955) que superou alguns desses problemas usou trs grupos de
sujeitos, um dos quais recebeu duas sesses semanais de psicoterapia, um
outro grupo trabalhou na mesma oficina (workshop) do primeiro grupo mas
no recebeu psicoterapia e o terceiro grupo no recebeu tratamento algum
e realizou trabalhos de natureza geral na instituio. Foi ento
possvel mostrar que as mudanas que ocorreram no grupo de psicoterapia
no aconteceram nos outros dois grupos. As mudanas que tiveram lugar
incluram participao cooperativa mais positiva nas discusses de grupo
e mudanas positivas de comportamento e desempenho na oficina.
        Foi sugerido que a psicoterapia diretiva  em que o terapeuta
dirige a conversao e inicia e reage na discusso   sumamente eficaz
com a pessoa mentalmente deficiente mais anti-social, agressiva ou
delinqente, ao passo que a teraputica no-diretiva  em que o
terapeuta desempenha um papel passivo   mais adequada para a pessoa
retrada, tmida ou ansiosa.
        Se a comunicao verbal com a pessoa deficiente no  possvel,
a ludoterapia poder ser usada; neste caso, o terapeuta fornece uma
variedade de brinquedos, encoraja o paciente a brincar e pode
interpretar para ele algumas de suas atividades ldicas, se parecer que
elas simbolizam atitudes ou sentimentos.

    p. 109
                            Aconselhamento

        Esta tcnica envolve usualmente uma relao face-aface do
profissional e do cliente. Neste caso, a finalidade habitual consiste em
dar uma espcie mais prtica de conselho acerca de problemas pessoais,
emocionais ou de trabalho.

                          Discusses de Grupo

        Um grupo de pessoas rene-se regularmente com um ou mais
profissionais. Tal como nos relatos sobre psicoterapia, muitos
resultados so difceis de avaliar porque se leva em pouca conta as
atividades intervenientes, e os critrios para os xitos proclamados so
vagos. Uma finalidade especfica da discusso de grupo  encorajar o
comportamento cooperativo dentro do grunp, como aprender a ouvir os
outros sem interromp-los eencorajar as interaes dentro do grupo, em
vez de cada indivduo se dirigir aos orientadores profissionais
presentes.
        Foram anunciados xitos na produo de uma conduta mais
expansiva e reduo do comportamento retrado. Um estudo (Synder e
Sechrist, 1959) que usou um grupo de comparao que no participou nas
discusses de grupo demonstrou progresso nos participantes, mediante a
contagem do maior nmero de comentrios positivos em apresentaes de
rotina e o menor nmero de comparecimentos em tribunais de conduta por
violaes mais srias (neste caso, os sujeitos eram delinqentes
retardados).

                           Terapia Ambiental

        Uma outra abordagem do tratamento da conduta perturbada, como
alternativa aos mtodos teraputicos diretos, consiste em alterar o meio
circundante da pessoa perturbada.  mais provvel o uso deste mtodo com
a pessoa seriamente deficiente, a qual tem menos possibilidade de colher
proveitos com a psicoterapia. A mudana ambiental pode envolver uma
mudana do local de trabalho, uma transferncia de casa para um perodo
em hospital ou uma mudana para viver em outra enfermaria do hospital. O
conceito de terapia ambiental abrange todas as tentativas feitas numa
instituio residencial para tornar o ambiente propcio ao comportamento
ajustado e ao mximo desenvolvimento do residente. Isto incluiria
disposies tais

    p. 110
como a construo de divisrias nas enfermarias para aumentar a
privacidade, fornecimento de brinquedos, livros e jogos, decorao e
fornecimento de cortinas, tapetes e quadros atraentes, e encorajamento
de sadas e atividades sociais.

                       Terapia do Comportamento

        Em anos recentes, princpios tomados da teoria da aprendizagem
foram introduzidos para modificar o comportamento indesejvel.
Basicamente, o tratamento envolve a garantia de que o comportamento
desejado  imediata e apropriadamente recompensado, e o comportamento
indesejvel no ter recompensa alguma. Por exemplo, se uma criana
corre -toa pela sala, empurrando mveis e derrubando objetos, ela ser
recompensada durante os perodos em que estiver sentada e tranqila, e
no ser recompensada ou ser punida se estiver agindo de maneira
destrutiva. Se uma pessoa mais velha se recusa a ir para a mesa e comer
sua refeio, no ser recompensada com a ateno que lhe poderia ser
dedicada, pois isso seria premiar um comportamento indesejvel. Se no
for para a mesa, ficar privada da recompensa do alimento e ficar com
fome at a refeio seguinte. (Tal tratamento  realizado com rigorosa
superviso mdica do estado do paciente.)
        As recompensas usadas ou de que o sujeito do tratamento 
privado so de diversas espcies. Podem ser recompensas materiais, como
alimento, doces, dinheiro, brinquedos para as crianas, ou podem ser
sociais, como ateno e elogio. Qualquer coisa que seja recompensadora
pode ser utilizada, desde que signifique uma recompensa para o sujeito
nesse momento e seja dada imediatamente aps o comportamento desejado. 
conduta indesejvel no se seguir recompensa alguma ou ser seguida de
uma punio, embora o uso de punies seja considerado, de um modo
geral, menos desejvel pelos que trabalham com deficientes e existem
poucos casos em que se faz necessrio um castigo concreto.
         por vezes conveniente o uso de um smbolo para representar uma
recompensa; os smbolos so, em geral, discos metlicos ou fichas; sua
manipulao  mais conveniente do que as recompensas materiais e evita
os problemas de saciao que podem ocorrer com o uso freqente de
recompensas como alimentos.

    p. 111
        As ilustraes do uso de muitas dessas tcnicas figuram num
estudo experimental de Burchard e Barrera (1972). O seu experimento foi
realizado dentro de um sistema de economia de troca, planejado para
reabilitao de adolescentes moderadamente retardados que exibiam uma
alta freqncia de comportamento anti-social. Dentro do sistema de
troca, as fichas eram ganhas sobretudo atravs de realizaes na oficina
e eram depois trocadas por refeies, privilgios, roupas, excurses
recreativas ou vrias compras. Foi introduzido um procedimento de
afastamento temporrio, em que se mandava os rapazes sentarem-se num
banco atrs de um tabique, assim ficando impossibilitados, durante essa
ausncia, de receber reforadores (fichas); adotou-se tambm um
procedimento de custo de resposta (responsecost) em que os reforadores
eram removidos, isto , as fichas eram tomadas aos rapazes. Afastamento
e privao de fichas ocorriam sempre depois que um rapaz praguejava,
cometia uma agresso pessoal, danificava propriedade ou outro
comportamento indesejvel. Apurou-se que o afastamento e o custo de
resposta eram to eficazes um quanto o outro para suprimir o
comportamento indesejvel, mas que os rapazes reagiam de modo diferente
a diferentes montantes de cada. Para cinco de seis rapazes estudados, 30
minutos de afastamento ou 30 fichas retiradas eram mais eficazes na
reduo do comportamento indesejvel que cinco minutos de afastamento ou
cinco fichas removidas. Para o sexto rapaz, entretanto, os valores mais
baixos foram mais eficazes que os mais altos.
        As tcnicas de modificao de comportamento esto sendo
aplicadas a uma grande variedade do que tradicionalmente se considera
serem comportamentos perturbados com bons resultados; a principal
dificuldade prtica est em encontrar reforadores adequados e em
aplicar as tcnicas de forma sistemtica. Os crticos tm sugerido que a
modificao de comportamento pode conseguir mudar comportamentos
especficos mas no os processos neles subjacentes, e tambm que poder
ser usada mais para ensinar o comportamento que melhor se ajuste s
exigncias da instituio do que aquele que melhor serve aos interesses
do cliente. Contudo, grande parte do comportamento que est sendo
atualmente ensinado  o comportamento relevante para uma existncia
independente em qualquer situao.

    p. 112
                                   7

                  Avaliao Psicolgica do Deficiente

        Mencionamos nos primeiros captulos alguns dos mtodos pelos
quais a personalidade e o aproveitamento educacional podem ser
avaliados. Examinaremos agora como so examinados os nveis cognitivo,
do desenvolvimento e do comportamento.

                         Razes para Avaliao

        H duas razes bsicas para qualquer avaliao. Em primeiro
lugar, temos em mira a medio das capacidades de uma pessoa em qualquer
rea; poderemos avaliar o seu QI para determinar se ela  deficiente
mental, o seu nvel de fala para verificar se  retardada na rea
lingstica ou um determinado aspecto do seu comportamento a fim de
observar se ele muda sob diferentes condies. Isto  feito para que se
possam formular previses para o futuro acerca da espcie de treino que
a pessoa necessitar e que nvel ter probabilidade de alcanar. Em
segundo lugar, avaliamos uma pessoa para descobrir se ela est mudando,
se est se desenvolvendo, permanecendo no mesmo nvel ou talvez
regredindo, e se possui pontos fortes e fracos em suas capacidades,
reas que esto bem desenvolvidas ou reas que esto mais atrasadas que
o seu nvel geral de desenvolvimento.

                       Propostas para Avaliao

        Existe hoje concordncia geral em que a avaliao de uma pessoa
deficiente deve ser multidisciplinar e regular.

    p. 113
        Entendemos por multidisciplinar a necessidade de que vrios
especialistas estejam envolvidos na avaliao. Mdicos, psiclogos,
assistentes sociais, logoterapeutas, professores, fisioterapeutas e
muitos outros profissionais, todos tm uma contribuio a dar para a
avaliao de uma pessoa deficiente.
        Em segundo lugar, a avaliao deve ser regular. O
desenvolvimento da capacidade em uma qualquer rea no  necessariamente
uniforme; por vezes, a pessoa desenvolver-se- mais rapidamente, outras
vezes o progresso ser lento. Em termos do nvel mental geral, a maioria
das crianas manter-se- a um nvel mais ou menos semelhante em relao
 sua idade cronolgica, mas algumas mudanas ocorrero. Ocasionalmente,
do-se alteraes espetaculares, quase sempre devidas a mudanas no meio
ou  descoberta e correo de uma condio que estava provocando o
atraso do indivduo. A reavaliao regular descobrir reas em que ele
est ficando para trs e dar a oportunidade de se prestar ateno
especial  rea deficitria. Tambm existem mais dificuldades envolvidas
na avaliao de uma pessoa deficiente que na de uma no-deficiente, se
aquela tiver meios limitados de formular respostas e menos recursos para
absorver informaes. A reavaliao regular confirmar se foram feitas
medies acuradas em ocasies anteriores ou se qualquer capacidade foi
subestimada.

                     Estrutura Bsica da Avaliao

        Se estamos examinando foras e fraquezas, reas de retardamento
ou de dficit comparativo, precisamos estar aptos a dizer em relao a
qu. So comumente usados quatro tipos de padro, dos quais os dois
primeiros foram discutidos no captulo sobre dficits cognitivos.
        1. O QI como padro. Um Quociente de Inteligncia ou QI descreve
o nvel de inteligncia de uma pessoa em relao ao resto do seu grupo
etrio e refere-se  proporo de pessoas de sua mesma idade que obtm
escores superiores e inferiores no teste que est sendo empregado.
Quocientes semelhantes so usados para descrever outras reas, como o
Quociente de Desenvolvimento, o Quociente Social ou o Quociente Verbal.
Os quocientes so extremamente teis na descrio de realizaes por
indivduos cuja capacidade

    p. 114
foi moderadamente deteriorada mas revestem-se de grandes dificuldades
para uso quando os escores so profundamente diferentes do normal. No
mais comum sistema de pontuao, os quocientes abaixo de 55 referem-se
aos escores de uma percentagem extremamente pequena da populao, 0,14%.
Logo, os quocientes inferiores a esse, de 30 ou 20, referem-se em termos
percentuais a uma proporo to pequena da populao normal que
significam muito pouco; tudo o que nos dizem  que uma pessoa com um QI
de 30 obteve mais pontos que uma pessoa com um QI de 20. Por esta razo,
as idades mentais so mais fceis de usar na avaliao de indivduos com
srias deficincias.
        2. A Idade, Mental como padro. Neste caso, relacionamos as
realizaes de uma pessoa em qualquer rea com as da criana mdia num
determinado grupo etrio, e dizemos que o seu escore num teste  igual
ao escore de metade das crianas dessa idade. Do mesmo modo, podemos
usar as Idades Verbais, Idades Sociais e Idades de Desenvolvimento de
diversas espcies. Estamos apenas usando, porm, uma escala etria como
padro conveniente; dizer que uma criana tem uma idade lingstica de
trs, por exemplo, apenas descreve o seu escore num determinado teste.
        3. Outras pessoas deficientes como padro. Outras pessoas
deficientes so ocasionalmente usadas como padro comparativo e neste
caso os escores de um teste podem dizer-nos se uma pessoa est se
desenvolvendo to bem quanto a pessoa deficiente mdia ou se est abaixo
do nvel da maior parte das outras. Uma vantagem desta espcie de padro
 que fornece metas mais atingveis. A pessoa seriamente deficiente est
to longe da normalidade que a realizao de objetivos mdios seria
impossvel; assim,  mais realista ter em mira um nvel mdio para
pessoas deficientes.
        4. A pessoa como seu prprio padro. Em algumas situaes de
avaliao, o que o resto da populao realiza  de escasso interesse;
podemos comparar o desempenho da pessoa deficiente em diferentes
situaes, por exemplo, ou quando ela est sendo recompensada de vrias
maneiras. Por conseguinte, o nico padro necessrio  o que a prpria
pessoa realiza.

    p. 115
                         Mtodos de Avaliao

        O mtodo particular usado numa situao de avaliao depende das
respostas apresentadas pela pessoa que est sendo avaliada e das razes
pelas quais a avaliao  feita.

                         Mtodos Psicomtricos

        Os mtodos psicomtricos de avaliao medem as aptides do
sujeito numa determinada rea de capacidade, apresentando-lhe uma srie
predeterminada de questes a serem respondidas ou tarefas a serem
executadas. O seu escore  ento comparado com as normas do teste, isto
, os escores de um grupo de pessoas que foram testadas quando o teste
foi construdo. Um teste psicomtrico deve ser sempre administrado da
forma prescrita, caso contrrio a comparao com as normas  destituda
de valor. Ao examinador no  permitido alterar as questes, insinuar as
respostas, fornecer pistas ou ajudar o sujeito de qualquer forma que no
seja autorizada pelas instrues do manual do teste, pois os sujeitos no
grupo de padronizao no tiveram essa ajuda.
        Os testes psicomtricos so sobretudo usados para medir a
inteligncia ou vrios aspectos desta. A escolha do teste a ser
especificamente usado com qualquer indivduo deficiente depende do modo
como puder ser-lhe explicado o que tem a fazer e do modo como ele poder
responder. Se o sujeito pode ouvir e compreender instrues, as
explicaes verbais so usualmente empregadas; se ele no pode, ter de
se recorrer  mmica para explicar-lhe o que se pretende que ele faa.
Se pode falar, ver e no tiver uma grande deficincia fsica, qualquer
mtodo de resposta poder ser usado; se no pode falar, ou se a sua fala
 to deficiente que o examinador  incapaz de entend-la, o teste s
poder basear-se em apontar ou em tarefas noverbais, como itens de
construo; se no pode ver, o teste ser atravs da resposta verbal. As
pessoas com srias deficincias fsicas podem ser testadas verbalmente,
caso o ouvido e a fala sejam adequados. Caso contrrio, alguma indicao
de sim ou no, ou apontar se puder fazer isto com razovel exatido,  o
mtodo a utilizar. Apontar com a vista pode ser usado se o sujeito no
dispuser de outra resposta; os objetos usados no teste so espalhados
diante do sujeito, bem separados uns dos outros, e a resposta

    p. 116
dada pelo sujeito quando olha fixamente para um dos objetos.

                   Testes Usados com os Deficientes

        As descries de alguns dos testes usados com pessoas
deficientes ilustraro os mtodos de teste existentes. Alguns so
planejados para produzir um quociente geral de inteligncia ou idade
mental, outros avaliam uma rea particular de funcionamento.
        Hiskey NebrasJca Test of Learning Aptue (Teste Hiskey Nebraska
de Aptido de Aprendizagem). Este teste foi planejado para uso com
crianas surdas ou dotadas de audio, e h dois conjuntos de
instrues, um deles usa instrues verbais, o outro mmica; entretanto,
as instrues verbais so bastante simples. No  pedida qualquer
resposta verbal ao sujeito mas que execute vrias espcies de
atividades: enfiar contas de diferentes formatos para copiar modelos;
apontar a cor ou cores corretas de uma srie de diferentes varas
coloridas de madeira, depois que o examinador lhe mostrou as cores
certas e as escondeu em seguida; mostrar qual de quatro desenhos se
ajusta ao conceito, por exemplo, brinquedos exemplificados num jogo de
trs. Como o teste envolve pouca ou nenhuma interao verbal, pode ser
usado na avaliao de pessoas surdas, ou daquelas cuja linguagem est
deteriorada ou consideravelmente abaixo do nvel de suas aptides no-
verbais.
        Ravens Progressive Matrces (Matrizes Progressivas de Eavens).
Aqui, as vantagens so a facilidade comparativa de explicao e a
simplicidade de resposta. O teste consiste num folheto e cada pgina
contm um item. No alto da pgina h um retngulo que contm um padro
ou smbolos, e uma parte do desenho ou seqncia est faltando; por
baixo esto vrias peas alternativas que podero ajustar-se no
retngulo mas apenas uma pea completar corretamente o desenho ou
seqncia de smbolos. Embora o teste deva ser explicado verbalmente, 
fcil explic-lo por mmica e se a pessoa for suficientemente
inteligente para obter um escore no teste no ter dificuldade em
entender a tarefa. As respostas ao teste podem ser escritas, pois cada
alternativa tem um nmero, ou o sujeito poder apontar para indicar qual
 a sua resposta. Se lhe for impossvel

    p. 117
apontar com preciso, o examinador poder apontar uma por uma cada
resposta e o sujeito limitar-se-, neste caso, a acenar com a cabea.
Este ltimo mtodo  menos desejvel, pois afasta-se do modo original de
administrar o teste e no permite que as normas sejam estritamente
aplicveis; mas, em alguns casos, acenar com a cabea pode ser a nica
resposta disponvel. Existem verses adulta e infantil deste teste, o
qual pode ser usado com pessoas fisicamente deficientes, mas 
extremamente difcil no caso de deficientes mentais.
        Peabody Picture Vocabulary Test (Teste Peabody de Vocabulrio e
Figura). Trata-se de um teste mais fcil, o qual pode ser usado de
maneira idntica ao teste anterior, embora o sujeito deva estar
capacitado para ouvir e compreender a fala, pois seu objetivo  medir a
idade mental atravs da compreenso de palavras faladas. So
apresentadas quatro figuras; o examinador pergunta: Qual delas ...? e
o sujeito indica a figura apropriada. Este tipo de mtodo tambm pode
ser usado com sujeitos cujas respostas fsicas so limitadas.
        Reynell Developmental Language Scale (Escala de Desenvolvimento
Lingstico de Reynell). Este teste ainda se encontra em sua forma
experimental, mas provou ser til para avaliar os deficientes cujos
nveis verbais esto abaixo dos seis anos. A fala expressiva  avaliada
mediante o uso de uma srie de questes acerca dos brinquedos expostos.
A compreenso pode ser avaliada de duas maneiras. Se a criana possui
razovel controle motor, ela aponta ou desloca os brinquedos de acordo
com as instrues; entretanto, existe uma escala especial para uso com
as crianas portadoras de graves deficincias fsicas, em cujo caso a
resposta pode ser dada pelo mtodo de apontar com os olhos a que j nos
referimos antes.
        Estes quatro testes indicam algumas das formas em que os testes
psicomtricos podem ser usados com crianas deficientes.  claro, muitas
crianas excepcionais cujas deficincias no so excessivamente srias
podem receber os mesmos tipos de testes de qualquer outra criana.
Usualmente, s as deficincias mais graves requerem uma seleo especial
de testes.
        De um modo geral, a escolha de um teste depende menos do grupo
de diagnstico da criana e mais das respostas

    p. 118
concretas de que o indivduo possa dispor. Os testes, da espcie acima
descrita so habitualmente usados para obter uma medida geral do nvel
da pessoa, para saber se ela  retardada e em que grau, para ajudar a
decidir que tipo de educao ela necessita ou que espcie de
entendimento ela possui.

                       Avaliaes Experimentais

        Por vezes, no necessitamos de um teste mas estamos mais
interessados em planejar uma avaliao que responda a um problema
individual. Poderemos querer descobrir em que condies um indivduo
trabalha melhor.  possvel planejar uma srie de tarefas para ele, que
as executar primeiro sozinho, talvez, e depois num recinto ruidoso e
cheio de gente. Poderemos querer saber se ter algum benefcio com o uso
de um aparelho auditivo ou de culos, e dar-lhe-emos a mesma srie de
questes ou problemas de discriminao visual com e sem essa ajuda. Por
vezes,, uma pessoa que parece capaz de algumas respostas mostra-se
incapaz de colaborar num teste ou de responder corretamente aos mais
simples itens; teremos ento de tentar vrias tarefas, na esperana de
descobrir o que o sujeito pode fazer e far, pois s assim nos ser
possvel determinar por que essas tarefas diferiram do teste. Este
gnero de avaliao nada nos diz sobre se a pessoa  retardada, ou qual
o seu desempenho em relao ao resto da populao, mas ajuda-nos a
sugerir de que modo poder ser melhor treinada.

                      Avaliaes de Aprendizagem

        O uso de testes tem sido algumas vezes criticado porque os seus
resultados s nos dizem o que a criana aprendeu no passado e no o que
ela ser capaz de aprender. Ela pode ter tido menos oportunidades de se
instruir e, dadas as condies certas, talvez seja perfeitamente capaz
de aprender muito mais depressa no futuro. Portanto, um outro enfoque da
avaliao consiste em ensinar algo  criana na situao de avaliao.
Num nvel muito simples, poder-se- pedir  criana que aponte para o
desenho de uma bola em cada ocasio que duas ilustraes sejam
apresentadas com a ordem randomicamente invertida. Num nvel mais
complicado, a tarefa poder ser emparelhar uma srie de formas com um
modelo o mais rapidamente possvel.

    p. 119
Enquanto que num teste uma tarefa  dada uma nica vez, ou
ocasionalmente duas ou trs vezes, e o sujeito  registrado como
aprovado ou rejeitado, numa avaliao de aprendizagem a tarefa -lhe
entregue tantas vezes quantas ele precisar para ter xito na sua
execuo ou at que possamos obter uma medida til do ritmo em que ele
aprende. No existem normas extensas, de momento, para esse tipo de
avaliao, pelo que tampouco podemos dizer como a sua aprendizagem se
compara com a do seu grupo etrio ou com a de um numeroso grupo de
no-deficientes; mas podemos aprender mais sobre o sujeito como
indivduo, em funo da rapidez com que aprenda e se atingiu seu nvel
mximo rpida ou lentamente. Pode ser usada uma avaliao de
aprendizagem para investigar que espcie de reforo  eficaz para um
indivduo. Pode-se-lhe ensinar uma tarefa, talvez emparelhar
corretamente trs formas, dando-lhe uma bala cada vez que tiver xito;
poderse-  ento ensin-lo a emparelhar trs formas diferentes,
elogiando-o pelo xito no desempenho. Este processo ser repetido
diversas vezes, variando as formas e a ordem em que  usado cada
reforador para evitar os efeitos da prtica; poderemos ento descobrir
qual dos reforadores era o mais eficaz para ele.

                       Avaliao por Observao

        Algumas crianas deficientes so de tal modo incapacitadas ou
perturbadas que lhes  impossvel colaborarem num teste psicomtrico ou
no tipo de tarefas que podem ser usadas num teste. Nesse caso, fazem-se
necessrios mtodos alternativos de avaliao. Um mtodo consiste em
observar as atividades cotidianas da criana e usar algum tipo de escala
de desenvolvimento como um padro que permita chegar-se a uma medida do
nvel atingido pela criana. Por vezes, o seu progresso sensrio-motor
pode ser avaliado dessa maneira; trata-se de uma medida til de
desenvolvimento, pois a espcie de comportamento envolvido  essencial
para o progresso subseqente (ver C2). A criana recebe brinquedos e o
examinador encoraja-a a brincar de um modo que indique qual o estgio de
desenvolvimento por ela atingido. Estender um brinquedo para a criana 
usado para avaliar se ela pode agarrar objetos (capacidade de preenso);
esconder o brinquedo e encorajar a criana a procur-lo indica se ela
sabe que os objetos

    p. 120
continuam a existir quando no pode v-los; simples soluo de
problemas, como puxar um cordel ou um rodo para obter um objeto
desejado, sugere igualmente o seu nvel de desenvolvimento
sensrio-motor. Os objetos usados podem variar de acordo com os
interesses da criana, e doces ou biscoitos podem ser usados para a
prova de esconder e de soluo de problema, se assim se produzirem mais
respostas. As espcies de reaes ldicas observadas, podem ser ento
relacionadas com a idade em que a criana normal realiza cada tarefa e
determinar-se- assim um nvel aproximado de desenvolvimento.
        A observao tambm  usada para avaliar o comportamento
cotidiano. Embora os testes sejam comparativamente rpidos e de uso
simples, as tarefas envolvidasquase nunca so importantes em si mesmas e
s so usadas, como medidas do conceito geral de inteligncia. Alm
disso, nem sempre queremos conhecer os nveis de desenvolvimento de uma
pessoa e podemos estar mais interessados em seu comportamento cotidiano
ou seus problemas particulares de conduta.
        Neste tipo de observao, estamos interessados na objetividade e
medio. Quando se  objetivo, evitamos observaes como ele ficou
furioso ou ele estava chateado, pois isto so apenas interpretaes
nossas de seus sentimentos e podemos estar equivocados. Pretendemos,
outrossim, descrever o comportamento real que ocorre, como jogar-se ao
cho e ficar batendo com os calcanhares ou sentar-se  janela, olhando
para fora e sem esboar um movimento. Por medio podemos aperfeioar
enunciados como ele faz freqentemente... ou ele raramente...,
fazendo a contagem de acontecimentos como dar pontaps ou cuspir em
pessoas, medindo o tempo que dura uma determinada conduta, como
permanecer sentado ou o perodo gasto a olhar para uma revista.
        Observando comportamentos, situaes e seqncias de
comportamento, podemos fazer sugestes acerca do que antecede a conduta
indesejvel, onde e em que circunstncias ela acontece, quais so as
conseqncias usuais e, por conseguinte, de que modo poderia ser
alterada.

                  Avaliao por Entrevista com Outros

        Em alguns casos, sobretudo se a criana est num lugar estranho
e reagindo mal, ou se  excessivamente retrada

    p. 121
para que possa ser abordada, o modo mais satisfatrio de avali-la 
entrevistar pessoas que a conheam bem e usar a informao que elas
dem. No caso de uma pessoa que vive em casa com a famlia, os pais ou
outros parentes so usualmente entrevistados; para uma criana
internada, em regime residencial, uma enfermeira, professora ou
supervisora presta as informaes. O teste mais freqentemente usado
nesta situao  a Vineland Social Maturity Scale (Escala de Maturidade
Social de Vineland). Consiste em itens relativos a aptides da
existncia cotidiana nos nveis de idade mais novos e a aspectos de
participao comunitrias nos nveis mais velhos, como utilizar as
encomendas postais, sair de compras, participar em atividades sociais do
bairro ou da comunidade. A escala raramente  usada nos nveis
superiores, pois h quem ache que os itens tm uma propenso classista e
dependem mais do interesse que da maturidade, mas nos nveis inferiores
envolve as reas mais universais do desenvolvimento, como o
desenvolvimento da fala, a alimentao, o vesturio e o treino de
higiene mental. A escala  complementada pelo examinador, que pergunta
ao seu informante o que a criana faz em cada rea de desenvolvimento e
atribui a cada item o competente escore. Os escores da escala so
convertidos em Quocientes Sociais e Idades Sociais mas tm relaes
muito estreitas com os Quocientes de Inteligncia e as Idades Sociais
nos nveis inferiores de idade.

                         Avaliao por Outros

        Os psiclogos acham agora que nem sempre necessitam de realizar
avaliaes mas podem produzir utilmente mtodos para serem usados por
outros.
        Tem sido feito uso experimental da avaliao realizada por pais
neste contexto. Isto produz uma medida do desenvolvimento da criana
mas, o que  mais importante, reveste-se de valor para os pais, na
medida em que os ajuda a aprenderem mais sobre seus filhos, a serem
realistas a respeito deles e a verem aquelas reas de atraso que
poderiam ser remediadas. Numerosos estudos mostraram que a tendncia dos
pais  para superestimarem as capacidades de seus filhos, sobretudo
quando eles so fisicamente diminudos e de baixa inteligncia. Tal
avaliao exagerada  indesejvel se significar que as aspiraes dos
pais para o futuro so excessivamente altas e que acabaro por sofrer

    p. 122
uma desiluso amarga; e se no proporcionarem a seus filhos o meio mais
estimulante que puderem por interpretarem erroneamente o nvel de
compreenso e a capacidade de participao deles. Se os pais tm uma
escala de desenvolvimento a complementar, so encorajados a observar
seus filhos de um modo muito mais objetivo.
        Uma escala de avaliao em uso por professores, enfermeiros,
supervisores de oficinas e outros profissionais, diretamente envolvidos
com deficientes so as Gunzberg's Progress Assessment Charts (Cartas de
Avaliao de Progresso de Gunzberg). Essas cartas foram planejadas para
a avaliao e regular reavaliao dos progressos de pessoas, mentalmente
deficientes em quatro reas bsicas: em Comunicao, onde se avalia a
extenso da compreenso e expresso verbal; em Socializao, que inclui
o desenvolvimento da interao com outras pessoas; a Independncia de
Auxlio Alheio para caminhar, comer, vestir-se e, de um modo geral, tudo
o que represente sua autonomia; e em Ocupao, que avalia as
habilitaes aprendidas. Os padres de realizao nessas reas por
outras pessoas mentalmente deficientes esto disponveis e o traado da
carta tem por finalidade salientar as reas de dficit comparativo.

              Alguns Problemas de Avaliao do Deficiente

        A maioria dos problemas que ventilaremos aqui refere-se ao uso
de testes psicomtricos com os deficientes. Os pais sentem-se por vezes
insatisfeitos com as sesses de avaliao psicolgica em que so usados
testes. As razes disso podem decorrer, em alguns casos, de os pais e o
psiclogo terem propsitos distintos. O psiclogo visa a uma medida
realista e acurada das capacidades da criana, a fim de produzir
informaes vlidas. Os pais sero muito mais propensos a ver a situao
em termos de aprovao ou reprovao, querem que o filho se saia o
melhor possvel e alimentam muitas vezes a esperana de que os
resultados provem que a criana  muito menos deficiente do que se
pensava antes.
        Uma objeo muitas vezes suscitada  que, quando se realiza uma
avaliao, a criana reage mal ao fato de se encontrar num lugar
estranho, com uma pessoa que lhe  estranha, e no pode, por isso, ter
um desempenho to

   p. 123
bom quanto aquele de que seria capaz. Observar uma criana enquanto est
sendo testada pode constituir uma experincia frustradora para os pais
ou o professor que sabem at que ponto a criana reage de maneira
diferente em condies familiares. Contudo, a crtica de que a avaliao
 injusta quando feita em ambiente estranho nem sempre se justifica. Ao
usar um teste psicomtrico, estamos comparando o desempenho de uma
criana qualquer com o do grande nmero de crianas que foram testadas
quando da construo do teste. Esses grupos de crianas tambm foram
testados em condies que no lhes eram familiares, se bem que, em
muitos casos, fossem deficientes. Assim, o teste s  injusto ou carente
de validade para uma determinada criana deficiente se ela reagir mais
do que  normal a ambientes estranhos, e isto  algo que varia com cada
criana. Algumas crianas no se preocupam com ambientes estranhos,
outras parecem estar mais  vontade com uma pessoa que no conhecem e
agrada-lhes uma situao em que elas so o centro das atenes e recebem
elogios por um bom desempenho. S quando uma criana deficiente tem
pouca experincia de novos lugares,  muito tmida ou resiste a realizar
tarefas por medo de fracassar,  que existe o perigo de o teste
subestimar a sua capacidade. Quando se desconfia desse gnero de
subdesempenho,  prefervel avaliar a criana em sua casa ou basear a
avaliao numa entrevista com algum que a conhea bem. Uma outra
objeo por vezes suscitada  que os testes podem incluir um contedo
menos conhecido da criana deficiente, em especial se ela viver num
hospital. Mesmo que viva em casa, pode estar menos familiarizada com
objetos cotidianos do que uma criana dotada de maior mobilidade; e sabe
menos acerca de trens, lojas, cozinha, animais e jogos. A criana que
vive num hospital  suscetvel de ter uma experincia mais restrita e
tambm lhe sero pouco conhecidos os itens usualmente envolvidos na vida
de famlia.  muito provvel que a criana deficiente esteja em
desvantagem na realizao de muitos testes por esse motivo. Entretanto,
quando usamos um teste, estamos medindo a inteligncia, ou a linguagem,
tal como ela  nesse momento, sem levar em conta os motivos pelos quais
a criana se situa nesse nvel. O desempenho do teste por qualquer
criana  um produto de muitos fatores, incluindo a sua experincia, e
isso refletir-se- no resultado do teste. No podemos modificar um teste
para evitar possveis desvantagens

    p. 124
para qualquer criana em particular; isso tornaria o uso do teste
desprovido de qualquer propsito, visto que no poderamos comparar o
escore com as normas. A soluo  usar vrios testes e selecionar
aqueles que so menos obviamente afetados pela experincia.
        Uma outra razo para empregar vrios testes, em vez de um s,
quando se quer proceder a uma avaliao,  que os testes no so
absolutamente idneos. Se uma criana fosse testada todos os dias,
durante vrios dias, os QI's dos testes variariam numa faixa de cerca de
dez pontos de QI. Para um indivduo ocasional, o teste mais idneo pode
apresentar diferenas mais amplas em diferentes ocasies. Quando se vai
tomar uma importante deciso que afeta uma criana deficiente, baseada
no resultado do teste, essa variabilidade precisa ser levada em conta.
        De fato, se vrios testes forem usados, uma melhor descrio
pode ser obtida das capacidades do sujeito. Se for necessrio estimar um
QI geral ou idade mental, administra- se um teste que envolve muitos
tipos de itens. Dentro desses tipos de itens, h uma vasta gama de
padres de aprovaes e reprovaes que podem ser adicionadas ao mesmo
resultado final. Um nico QI ou idade mental diz-nos muito pouco acerca
do que o sujeito pode realmente fazer, quando ele necessita de ajuda
extra e est tendo um bom desempenho. Se for usada uma combinao de
testes, poderemos aprender mais sobre o padro de capacidades do
indivduo e comparar, por exemplo, a sua compreenso da linguagem, sua
linguagem expressiva, seu desenvolvimento social e nvel no-verbal.
        Um problema final que surge no uso de testes psicomtricos com
crianas deficientes  quando o sujeito tem muito poucas respostas e so
usados itens de teste que podem ser respondidos por um aceno de cabea
ou apontando o dedo. Quando os materiais do teste esto espalhados entre
o examinador e o sujeito,  difcil para o examinador evitar olhar para
a resposta certa e dar ao sujeito indicaes sobre qual  a soluo
correta. Particularmente difcil  o mtodo de resposta em que o
examinador diz:  este aqui? a cada item e o sujeito acena que sim ou
que no com a cabea, pois as inflexes de voz podem indicar uma
expectativa de resposta. Um examinador precisa estar seguro de que o seu
comportamento  muito controlado e, por motivos idnticos, se uma outra
pessoa est presente,

    p. 125
convir que fique sentada bem longe da mesa de teste ou por detrs do
sujeito.
        Um ponto geral que ressalta quando a avaliao est sendo
realizada com base na entrevista com algum a respeito da pessoa
deficiente  que as perguntas devem ser sempre formuladas em funo do
que a pessoa regularmente faz e no do que ela pode fazer. A segunda
formulao, segundo se comprovou, produz superestimativas quando a
questo  respondida com fundamento em que a pessoa poderia fazer uma
determinada coisa se no fosse to deficiente.

              Classificao pelo Comportamento Adaptativo

        Tradicionalmente, a maioria dos conceitos e definies de
deficincia mental inclui a presena de Inteligncia abaixo do normal, e
grande nfase foi atribuda aos resultados, dos testes de inteligncia.
Embora durante muitos anos o interesse recasse sobre os aspectos
sociais e adaptativos do comportamento, o conceito de uso de nveis de
comportamento como classificao s ganhou destaque em 1959. A
Associao Americana sobre Deficincia Mental sugeriu que a
classificao comportamental do retardamento mental deve incluir duas
dimenses: a inteligncia medida e o comportamento adaptativo. Essas
duas dimenses foram consideradas intimamente relacionadas na maioria
dos casos mas suficientemente distintas em alguns para justificar a
incluso de ambas as dimenses na definio. Quer dizer, embora a
maioria das pessoas de inteligncia retardada manifeste igualmente
nveis medocres de comportamento adaptativo, algumas podem ter baixa
inteligncia mas bom comportamento adaptativo e algumas outras o
inverso. O comportamento adaptativo  definido como a capacidade de
arcar com as exigncias naturais e sociais do meio, isto , o grau em
que um indivduo pode manterse independentemente na comunidade e sua
capacidade para se conduzir de um modo compatvel com as normas
estabelecidas do comportamento pessoal.
        A classificao do comportamento adaptativo faz-se em termos de
cinco nveis que vo desde a inexistncia de qualquer deteriorao at
ao profundo desvio negativo, passando pelo desvio negativo moderado e
severo. Inicialmente, a classificao baseava-se, em grande parte, no
discernimento

    p. 126
mas, depois, comearam a ser construdas escalas para medir o
comportamento adaptativo, as quais esto ainda em vias de novos
desenvolvimentos.
        As Escalas de Comportamento Adaptativo consistem em duas partes,
uma planejada para uso com crianas de 3 a 12 anos, a outra para
indivduos dos 13 anos at ao nvel adulto. Cada escala tem duas partes:
a primeira avalia o desempenho no que se designa como os domnios do
funcionamento independente  desenvolvimento fsico, atividades
econmicas, desenvolvimento da linguagem, conceitos de nmero e tempo,
ocupao domstica, ocupao geral, autodireo, responsabilidade e
socializao. A segunda parte trata dos domnios do comportamento
violento e destrutivo, comportamento desleal, retraimento, conduta
estereotipada e maneirismos excntricos, maneiras interpessoais
imprprias, hbitos vocais inaceitveis, hbitos inaceitveis,
comportamento autodestrutivo, tendncias hiperativas, comportamento
sexual aberrante, distrbios psicolgicos e o uso de medicamentao.
        Embora se concorde geralmente que essas reas de comportamento
adaptativo so importantes, h discordncia sobre se o conceito deve ser
usado como parte ou como definio completa de retardamento mental, em
aditamento ou de preferncia a uma definio baseada em inteligncia
retardada.
        Os argumentos favorveis ao uso do comportamento adaptativo na
classificao e definio basearam-se em dois pontos principais. Em
primeiro lugar, como se considera hoje que ajudar o retardado a
integrar-se na comunidade, em vez de segreg-lo,  de importncia
primordial, as necessidades reais dos deficientes mentais sero
negligenciadas at que a adaptabilidade se torne uma questo central. E,
em segundo lugar, embora seja possvel que mais pessoas se incluam na
definio de retardado mental quando se adiciona a classificao de
comportamento adaptativo, aqueles que so incapazes de funcionar de
maneira tolervel ou de ser aceitos por sua sociedade tornar-se-o
notados, de qualquer forma, e precisaro de ajuda e providncias
especiais, independentemente de seu QI. Tambm foi comentado que o
conceito de desajustamento comportamental envolve mais implicaes para
a tarefa de instruo, pois  menos fcil ver o que ensinar a uma classe
de crianas retardadas do que ter idias para o ensino de crianas
definidas como no adaptadas ao seu meio, pois neste ltimo

    p. 127
caso o dficit  mais especificamente definido e dispe-se de alguns
padres suscetveis de serem atingidos.
        Contra o uso fundamental do conceito apresentam-se os seguintes
argumentos. A idia de comportamento adaptativo  vaga e mal definida,
em comparao com a definio psicomtrica, e sua aplicao  algo
subjetiva. O uso de uma definio de comportamento desajustado inclui
aqueles que decidem no se adaptar, mas no so claramente retardados
mentais; e a incluso de todos os que no se adaptam resultaria num
vasto grupo heterogneo de nonormais, com muitas e variveis
caractersticas, ao passo que, para progredir, deveramos refinar a
classificao e as subdivises, a bem da pesquisa sobre tratamento e
instruo. Para avaliar o comportamento adaptativo necessitamos de
avaliaes tanto do indivduo como da comunidade a que pertence, pois a
facilidade de adaptao deve variar. O comportamento desajustado 
geralmente considerado reversvel atravs da instruo, o que torna
difcil o seu uso como parte de uma definio. Por todos estes motivos,
prossegue o argumento, a inteligncia limitada deve continuar sendo a
caracterstica essencial do que chamamos retardamento mental; e, embora
a deteriorao intelectual tenda a resultar em m conduta adaptativa,
este ltimo conceito no se deve considerar central nem parte integrante
da definio de retardamento mental

    p. 128
                                   8

            Aspectos Educacionais e de Adestramento Inicial

        Examinaremos neste captulo alguns dos mtodos que foram usados
para aumentar os nveis de realizao de crianas deficientes.

                        Interveno Desde Cedo

        Admite-se hoje, de um modo geral, que o adestramento de
deficientes deve comear o mais cedo possvel; como vimos nos captulos
anteriores, toda a criana deficiente  suscetvel de ter menos
experincias que a normal, por causa das limitaes de sua deficincia,
e  difcil para uma me compensar todas essas limitaes sem
assistncia. A interveno desde cedo  particularmente desejvel se os
antecedentes e ambiente familiares da criana no forem satisfatrios,
pois h o risco de que, se no for prestada ajuda imediata, a criana j
esteja retardada  especialmente em reas cognitivas como a linguagem e
o raciocnio  na poca de ir  escola.
        As tendncias correntes so no sentido de prestar assistncia
desde cedo de duas maneiras bsicas; fornecimento de instalaes
educacionais na forma de classe ou grupo maternal e assistncia s mes
para ajud-las a treinarem seus filhos. Os programas de interveno
precoce basearam-se em um ou outro desses mtodos ou numa combinao de
ambos.
        A ajuda direta s mes foi considerada importante, pois em
alguns casos elas prprias tm problemas e talvez

    p. 129
no sejam capazes de proporcionar  criana a estimulao adequada e as
experincias necessrias. Alm disso, a assistncia  valiosa para a
maioria das mes de crianas deficientes porque ficam privadas da ajuda
de amigos e vizinhos no conhecimento de que brincadeiras ter com a
criana e como falar com ela. Usualmente, a me de uma criana pequena
normal conhece muitas outras mes e tem a experincia de como elas se
comportam com seus filhos. A me de uma criana deficiente, porm, tem
menos probabilidades de conhecer outra me na mesma situao e, por
conseguinte, v-se privada de algumas oportunidades de trocar idias e
experincias. Uma terceira vantagem de fornecer ajuda direta s mes 
que os efeitos so duradouros e mesmo que o programa concreto seja
curto, as idias e mtodos aprendidos so suscetveis de aplicao
durante um perodo muito mais longo. Existem algumas provas de que os
progressos no nvel de uma criaha durante um programa em que a me est
envolvida so mantidos por muito mais tempo do que no caso do programa
ter sido executado somente longe de casa.
        Verificou-se, entretanto, que os conselhos s mes tm de ser
bastante especficos. Vagas recomendaes, como estimule-o ou fale
com ele o mais freqentemente possvel, so menos eficazes do que as
sugestes precisas sobre que tipo de brincadeiras e jogos adotar, como
brincar, em que situaes ensinar-lhe a lngua e como ensin-la.
        Os programas para mes e atividades em grupos maternais tm as
mesmas finalidades bsicas; procuram estruturar e orientar as atividades
da criana de modo que ela tenha experincias que pode entender e para
que tenha tantas experincias de uma criana no-deficiente quanto
possvel, a fim de se evitarem deficincias secundrias atravs da falta
de atividade relevante.
        As vantagens do grupo maternal so particularmente importantes
se as experincias familiares da criana forem restritas, em virtude de
dificuldades em mant-la ocupada e em lev-la de passeio, ou se a me
dispe de muito pouco tempo para dedicar  criana. Os aspectos
positivos desse tipo de estabelecimento so que a criana tem acesso a
companheiros; que ir para um outro lugar durante o dia propicia-lhe uma
mudana de ambiente e uma viagem de que ela usualmente gosta. O grupo
maternal fornecer-lhe- habitualmente uma variedade mais ampla de
equipamentos de brinquedo do que a maior parte das famlias

    p. 130
poderia proporcionar e, na grande maioria das vezes, mais espao e mais
oportunidade para a criana se desarrumar e sujar  vontade. Alm disso,
freqentar o grupo maternal atenua a dependncia da criana em relao a
sua me e ajuda-a a aceitar outros adultos; tambm reduz a dependncia
da me em relao  criana, visto que, no caso particular de um filho
deficiente, a me pode, por vezes, concentrar nele todos os seus
interesses, com excluso de suas amigas, interesses pessoais e o resto
da famlia.
        Tambm foi sugerido que o grupo pr-escolar fornece valiosas
oportunidades para a aprendizagem essencial e especfica em alguns casos
de deficincia; por exemplo, um programa incluiu crianas surdas num
grupo pr-escolar normal, e foram instrudas no uso correto de seus
aparelhos auditivos, encorajadas a interatuar verbalmente com outras
crianas e a desenvolver a comunicao com elas, e ensinadas a escutar,
o que  to freqentemente necessrio s crianas surdas.
        Algumas desvantagens dos grupos maternais para deficientes tm
sido assinaladas. Opinou-se que, em alguns casos, a criana recebe menos
ateno do que teria em casa, embora isso dependa,  claro, de quanto
tempo a me dispe para cuidar dela e da presena ou no de crianas
pequenas com exigncias concorrentes. Tambm foi sugerido que existe o
perigo de a criana copiar de outras algumas condutas indesejveis,
sobretudo se ela vir que o comportamento delas atrai a ateno. Uma
terceira desvantagem seria a existncia de numerosos nveis de
deficincia e que o desenvolvimento da criana mais avanada poderia ser
influenciado pelas crianas mais retardadas.
        De um modo geral, considerou-se necessrio equilibrar as
vantagens e desvantagens para qualquer criana, e sempre que foi
possvel organizar as coisas de modo que uma criana deficiente
freqentasse uma escola maternal para crianas normais, a maioria das
desvantagens sugeridas pde ser evitada. Tal possibilidade depende muito
do grau de deficincia da criana e de ser capaz ou no de participar
num razovel nmero de atividades.

       Interveno Inicial em Deficincias Mentais Subculturais

        Muita ateno foi prestada em anos recentes  possibilidade de
melhorar ou de impedir que algumas crianas se tornem retardadas mentais
mediante a introduo de

    p. 131
um adestratamento desde cedo.  sabido que as mes com um QI na faixa de
40 a 80 tendem a produzir uma elevada proporo de filhos com QI's
igualmente baixos. Em certa medida, isso pode ser o efeito de herana
gentica, mas  provvel que se deva tambm  incapacidade da me de
fornecer ao filho, desde cedo, uma educao adequada. O termo
subcultural refere-se ao retardamento cultural que  devido a uma
formao cultural sumamente medocre.
        Tm sido realizadas na Amrica tentativas para intervir no
processo e impedir o retardamento subcultural, e muitos dos programas
introduzidos mostraram progressos no desenvolvimento das crianas
participantes, durante o perodo de vigncia dos programas; mas tais
progressos foram muitas vezes pequenos e no se mantinham depois que o
programa especial chegava ao fim.
        Foram usados diversos programas, incluindo habitualmente um
grupo pr-escolar e envolvimento familiar. A freqncia  escola variava
entre o tempo integral e o meio horrio; e o envolvimento familiar ou
era sob a forma de uma reunio com os pais ou de uma visita domiciliar
semanal por um orientador profissional. Muitos desses programas seriam
desde ento considerados inadequados com fundamento em que eram muitas
vezes demasiado breves e tardiamente introduzidos; quando a criana
ingressava no programa, aos dois ou trs anos de idade, j estava
retardada e no se podia remediar os seus dficits nem faz-la progredir
com rapidez bastante para atingir um nvel normal quando chegasse 
idade escolar. Em muitos dos programas no se previa a continuidade na
escola do ensino pr-escolar especial, a fim de se reforar a
aprendizagem inicial, de modo que quaisquer ganhos que tivessem sido
feitos perdiam-se num ano ou dois. Em terceiro lugar, os programas
usados para ensino nas classes pr-escolares raramente eram estruturados
e planejados para fornecer  criana uma vasta gama de experincias, em
grande parte atravs da explorao e da atividade livre; parece
provvel, entretanto, que a aprendizagem atravs da explorao e
experimentao prprias  justamente o que essas crianas no tinham
aprendido a fazer, necessitando de programas muito mais estruturados em
que se ensinassem diretamente atividades definidas e planejadas;
necessitavam ainda de ensino direto numa gama de reas importantes e
mais restritas, como a linguagem e o raciocnio, em vez de programas de
bases amplas e genricas.

    p. 132
        Os estudos que usaram os mtodos caractersticos de jardim de
infncia  livre atividade e brincadeira livre  mostraram algum
benefcio para a criana na poca e ocorreram pequenos ganhos de QI, mas
foram geralmente inferiores a dez pontos de QI. Quando o treino
cognitivo especial era adicionado ao programa da escola maternal
registravam-se ganhos ligeiramente maiores, e alguns estudos que
ampliaram o programa para incluir sesses de treino na casa da criana
produziram, em certos casos, ganhos de at 20 pontos de QI. Contudo, o
dficit das crianas participantes s parcialmente foi remediado em cada
caso e nenhum grupo atingiu um nvel mdio de QI. Quando o programa de
interveno cessou e as crianas foram  escola, os ganhos perderam-se
num prazo bastante curto. De um modo geral, as crianas que tinham os
QI's mais baixos no comeo do programa, as que eram mais novas e as de
famlias que participaram espontaneamente, foram as que fizeram maiores
progressos. Quando a privao na famlia era mnima, os ganhos duraram
mais tempo, mas raramente mais de um ano ou dois. Quando a nfase recaa
sobre a famlia e a me era encorajada a usar livros e brinquedos, e a
interatuar com a criana, os ganhos de QI duravam mais tempo, mas
raramente excediam 20 pontos e geralmente no logravam colocar a maioria
das crianas num nvel mdio.
        Parece que esses programas, embora tendo alguma influncia sobre
o desenvolvimento das crianas, no eram adequados para compensar a
privao que provavelmente as afetara em suas primeiras semanas de vida,
em todas as esferas do desenvolvimento.
        Uma interveno em escala muito mais ampla est sendo agora
realizada em Milwaukee por Heber e seus colaboradores (1972), e os
primeiros resultados so promissores. O programa abrange 40 famlias de
baixa renda em que o QI das mes  inferior a 75 e havia um beb
recmnascido na poca em que o projeto foi iniciado. Essas famlias
foram divididas num grupo experimental e num grupo de controle para
efeitos de comparao e no qual no houve qualquer interveno.
        O programa para o grupo experimental envolveu as mes e os
filhos. As mes receberam ajuda sob a forma de assistncia a quaisquer
outros filhos em idade pr-escolar durante o dia. Elas tiveram quatro
semanas de instruo em tempo integral, incluindo leitura, redao,
vrios aspectos

    p. 133
de economia domstica e governo da casa, e puericultura. Trabalharam
depois durante 26 semanas numa casa de sade, sob superviso; a
aprenderam trabalhos de casa, lavar roupa, cozinhar e tarefas simples de
enfermagem. Depois desse perodo, encontraram emprego em tempo integral.
        Os bebs freqentaram um Centro Especial de Educao Infantil e
receberam um programa intensivo de estimulao sensorial e verbal. Cada
beb tinha seu prprio professor e no primeiro ano de vida havia um
adulto a disposio de cada criana; aps o primeiro ano, a proporo
adulto-criana passou a ser de um para trs. Os programas administrados
eram muito pormenorizados e abrangiam as reas de desenvolvimento
cognitivo, motor e verbal.
        Os bebs no experimento e os bebs no includos foram
regularmente avaliados e poucas diferenas entre os grupos se
evidenciaram antes dos 14 meses de idade. Depois disso, entretanto, o
grupo experimental passou a desenvolver-se numa cadncia muito mais
rpida e por volta dos cinco anos j se registravam grandes diferenas.
O QI mdio para o grupo experimental era 124, ao passo que a mdia do
grupo de controle era trinta pontos menos. Alm disso, no
desenvolvimento verbal, havia uma diferena de 12 a 18 meses entre os
dois grupos. As medidas de interao verbal entre me e filho mostraram
que, embora tivessem passado menos tempo juntos, a sua interao estava
num nvel melhor desenvolvido que a do grupo de controle. Ainda no se
sabe se os efeitos da interveno precoce continuaro  medida que as
crianas forem crescendo mas parece que uma assistncia substancial e
extensa durante os primeiros anos  capaz de ser muito mais eficaz que
quaisquer programas de carter mais limitado.

                           Colocao Escolar

        Quando a criana deficiente vai  escola, das duas uma: ou ela
prova ser capaz de haver-se com a educao normal ou ser necessrio
providenciar uma educao especial para ela (ver C4). Talvez necessite
de educao normal em tempo integral ou de educao especial em tempo
integral, embora entre essas duas alternativas existam muitos outros
arranjos possveis.

    p. 134
        As escolas especiais podem ser inteiramente residenciais, os
alunos podero ser residentes unicamente durante a semana ou podero vir
diariamente de casa freqent-la. Em alguns casos, uma criana
deficiente pode freqentar uma escola normal durante parte da semana e
uma escola especial nos dias restantes. Os alunos deficientes esto
assistindo cada vez mais a aulas especiais em escolas normais. Sempre
que qualquer criana freqenta uma escola, a sua tendncia  para
depender das condies existentes, das instalaes escolares e do seu
grau de deficincia, pois  usualmente mais fcil incorporar a uma
escola normal uma criana portadora de uma deficincia moderada do que
uma gravemente deficiente.
        Vrias tentativas tm sido feitas para determinar se certos
grupos de crianas so melhor colocados em escolas normais ou especiais,
mas os resultados so inconsistentes e as concluses variam.
        Os argumentos favorveis a que as crianas deficientes
freqentem escolas normais incluem a tese de que, como uma criana
deficiente ter, em dada altura, de se defrontar com o mundo real,
no-deficiente, ento o melhor  conserv-la nele e no segreg-la com o
seu prprio grupo deficiente. A presena na escola de crianas
deficientes tambm familiarizar as outras crianas com deficincias e
suas implicaes. Receou-se, porm, que uma criana deficiente numa
escola normal pudesse ser isolada e rejeitada por seus pares, sobretudo
se ela tiver problemas fsicos que sejam inaceitveis s outras
crianas. Por exemplo, expressaram-se dvidas sobre se as crianas com
spina bifida, que so incontinentes, seriam felizes numa classe normal,
pois a incontinncia poderia levar as outras crianas a rejeit-las.
Contudo, um estudo do ajustamento de escolares com spina bifida  um
grupo dos quais era incontinente e outro no  mostrou no haver
diferenas entre eles. Parece ter sido experincia comum, pelo menos com
crianas mais pequenas, a inexistncia de problemas assinalveis nas
reaes de outras crianas  incontinncia.
        As vantagens das escolas especiais para deficientes tm sido
consideradas em termos das possibilidades de organizao de todo o
programa escolar, equipamento e edifcios, para satisfazer s
necessidades especiais do grupo deficiente. A principal desvantagem, 
parte a possibilidade de que receber educao unicamente com o seu
prprio grupo deficiente torne mais difcil o ajustamento da criana

    p. 135
deficiente ao deixar a escola, refere-se em particular s escolas
especiais para subnormais educacionais. A opinio  de que um certo
estigma est associado ao fato de se freqentar uma escola para crianas
educacionalmente subnormais, o que poder afetar a criana tanto durante
a sua escolarizao como depois, quando talvez relute em dizer a algum
que esteve numa escola especial.
        Isto, porm, talvez seja um problema para apenas um punhado de
alunos. Uma pesquisa de atitudes de alunos a respeito de sua
escolarizao, dois anos aps terem deixado a escola, apurou que somente
alguns deles mostravam estar conscientes do estigma. Foram entrevistados
25 jovens que tinham freqentado escolas especiais para crianas
educacionalmente subnormais e, embora apenas quatro fossem
irrestritamente apreciativos e trs moderadamente entusisticos (no
havia nmeros comparveis para os que saam de escolas normais), somente
quatro expressaram conscincia do estigma. Essa atitude assumiu a forma
de, por exemplo, nunca dizer a empregados ou colegas em que escola
haviam estado.
        As comparaes de realizaes e integrao de crianas em
classes normais, classes especiais em escolas normais e em escolas
especiais foram complicadas pela existncia, em muitos casos, de fatores
de seleo, o que significa que as crianas em escolas normais eram
menos deficientes antes de iniciarem a sua educao. Quando se d o
desconto adequado para essas diferenas, os resultados em termos de
aproveitamento escolar apresentam diferenas muito pequenas, embora
tenha havido a sugesto de que o ajustamento social de crianas
mentalmente retardadas em classes especiais  superior ao das que
freqentam classes normais, na medida em que estas ltimas podem ser
isoladas ou rejeitadas.
        Quando as crianas deficientes so educadas em escolas normais,
 importante que o professor esteja envolvido e completamente informado,
para que possa enfrentar quaisquer problemas que surjam, como lidar com
aparelhos auditivos e certificar-se de que funcionam, haver-se com
ataques convulsivos na sala de aula ou colocar a criana de modo que ela
possa ver e ouvir adequadamente.
        Que os professores nem sempre esto informados acerca das
deficincias ficou claro no estudo de Bagley (1971) com crianas
epilpticas. Os professores de 109 crianas responderam a um
questionrio geral sobre a sade de

    p. 136
seus alunos e quaisquer deficincias fsicas que tivessem. Apenas 43
professores indicaram em suas respostas estar a par de que a criana
tinha epilepsia; os restantes 66 no deram indicao alguma de que
soubessem, apesar de muitos fornecerem respostas detalhadas sobre a
sade e o comportamento da criana. Em alguns casos, a informao teria
claramente ajudado em sua compreenso da criana  como no caso de uma
professora que comentou que um rapaz tinha sofrvel concentrao, quando
ignorava que ele tinha dois ataques epilpticos por dia. Em muitos
casos, Bagley apurou que a escola subestimava o nvel de inteligncia
quando o QI da criana era elevado mas seu aproveitamento em leitura e
(ou) aritmtica estava atrasado.
        O professor no s precisa estar bem informado sobre as
deficincias importantes mas deve tambm compreender as caractersticas
e implicaes das mesmas. No caso da epilepsia, Bagley assinala que os
fatores adversos no ambiente escolar  por exemplo, a hostilidade de uma
professora, ou o excesso de ansiedade, ou ser sistematicamente excludo
de atividades pela professora, ou uma atitude de rejeio por parte dos
demais alunos  podem piorar o comportamento e os ataques. Entretanto,
os professores podem facilitar o ajustamento se manifestarem uma atitude
compreensiva e no-alarmista no caso de a criana ter um ataque.

       Modificao do Comportamento em Escolas para Deficientes

        Em anos recentes, as tcnicas de modificao do comportamento
(conforme se descreveu nas pp. 110-111) em relao ao comportamento
perturbado foram aplicadas em contextos de sala de aula, principalmente
em classes normais e em classes para deficientes mentais. Verificou-se
que o desempenho acadmico e o comportamento social melhoraram quando se
adotava um reforo apropriado e imediato s condutas desejadas.
        Usaram-se vrias recompensas  incluindo o elogio ao bom
desempenho ou  conduta apropriada, reforadores comestveis, algum tipo
de sistema de troca, ou um carto que  perfurado, ou uma estrela
colocada no peito. As fichas, perfuraes ou estrelas so usualmente
trocadas no final do dia escolar por guloseimas ou brinquedos,
constituindo

    p. 137
um sistema muito mais conveniente para usar na sala de aula.
        Dalton e outros (1973) introduziram um sistema de economia de
fichas na sala de aula para ver se crianas com o Sndrome de Down
melhorariam nas matrias escolares. As crianas eram de ambos os sexos,
dos 6 aos 14 anos de idade, viviam em suas casas e vinham diariamente 
escola. Os seus QI's num teste no-verbal iam de 30 a 64. Antes de
iniciado o experimento, fizeram testes de aproveitamento acadmico; foi
administrado um teste verbal,, usando o desenho de um rapaz na cama, com
os olhos fechados, e fazendo-se perguntas como O que  isto (apontando
para o rapaz), Isto  um rapaz?, Diga a coisa toda (espera-se que a
criana diga isto  um rapaz), Isto  uma cadeira? e assim por
diante, at um total de nove perguntas; houve tambm um teste aritmtico
com itens como contar at um certo nmero, contar quantas vezes o
examinador bate palmas e identificar smbolos numricos.
        As crianas foram divididas em dois grupos. O grupo que ia
receber fichas como recompensas freqentava a escola de manh e o grupo
de controle freqentava de tarde. Ambos recebiam o mesmo programa de
ensino de lngua e de aritmtica, de acordo com um mtodo estruturado e
claramente especificado em que o instrutor faz perguntas e as crianas
respondem. As diferenas entre os grupos estava apenas no uso de fichas.
Todas as respostas certas de ambos os grupos eram elogiadas mas no grupo
de fichas cada criana recebia uma, alm do elogio, por cada cinco
perguntas respondidas corretamente. As crianas que recebiam fichas
trocavam-nas por doces no fim da sesso.
        As sesses em salas de aula realizavam-se em trs meios dias por
semana e durante oito semanas, e todas as crianas eram reexaminadas no
final do programa. Verificou-se que do grupo que recebera fichas, todas
as crianas exceto uma haviam feito progressos nos testes aritmticos e
aumentado seus escores no teste de linguagem. Em contraste, apenas dois
sujeitos do grupo de controle aumentaram seus escores no teste de
aritmtica. Contudo, todas as seis crianas do grupo de controle
melhoraram tambm no teste lingstico, mas quando foram reexaminadas um
anos depois nos mesmos testes, o grupo que tinha recebido fichas manteve
melhores escores que o grupo que no a

    p. 138
recebera; o escore deste ltimo grupo mostrou um decrscimo entre o
teste realizado imediatamente aps a concluso do programa e o reteste
de um ano depois. Os autores concluram que os resultados de um programa
muito curto de economia de ficha puderam produzir efeitos mais
duradouros. Eles tambm tinham avaliado a conduta da criana durante o
programa para verificar se a incidncia de conduta indesejvel na sala
de aula mudara; registraram incidentes como rudos perturbadores,
agresso, distrair os colegas, mas compravaram que o uso de fichas para
as respostas certas no tivera efeito algum sobre a conduta.
        Alguns estudos demonstraram os efeitos das tcnicas de
modificao do comportamento sobre a interao social em crianas
retardadas. Tem sido freqentemente comentado que as crianas seriamente
retardadas so propensas a brincar sozinhas e a no interatuar com
adultos nem. outras crianas. Guralnik e Kravik (1973) demonstraram que
um professor e uma assistente podem desenvolver interaes sociais numa
sala de aula. Os sujeitos do estudo foram oito crianas seriamente
retardadas, entre os 6 e 10 anos de idade, nenhuma das quais podia usar
palavras inteligveis. O professor e sua assistente conduziram as
sesses durante meia hora, todos os dias da semana pela manh, e os
sujeitos eram observados de uma sala adjacente, atravs de uma janela
unidirecional.
        Estavam envolvidas duas espcies de atividade. Algumas sesses
desenrolavam-se numa situao de grupo, em que as crianas eram
encorajadas a passar um tijolo umas s outras. Essas sesses eram usadas
para dar reforo. Outras sesses foram usadas para brincadeira livre, a
fim de se apurar se quaisquer efeitos haviam sido transportados de uma
situao para outra. Antes de o experimento comear, o comportamento
social das crianas foi classificado em termos de olharem ou tocarem
outras crianas ou os professores, e a sua conduta no-social foi
registrada em termos de agresso, de afastamento do grupo ou isolamento.
Nesse estgio, verificou-se que as interaes sociais eram praticamente
inexistentes, pois em mdia dedicavam apenas 2% de seu tempo  conduta
social. Na base de seus escores em comportamento social, foram
divididas em dois grupos, um dos quais recebeu reforadores comestveis
durante as sesses experimentais e o outro somente reforo social,
quando o professor elogiava uma

    p. 139
criana ou lhe fazia uma carcia na cabea. Alm disso, durante as
sesses de passagem do tijolo, as recompensas eram dadas ao acaso, em
algumas ocasies, para ver se era importante que a recompensa se
seguisse imediatamente aps o comportamento que estava sendo encorajado,
ou se dar guloseimas s crianas durante a sesso, em momentos
escolhidos ao acaso, aumentava de qualquer forma a sua conduta social.
        Os resultados mostraram que, quando o grupo a que estavam sendo
dados reforadores comestveis os recebiam imediatamente aps as
condutas sociais desejadas, a percentagem de tempo que esse grupo
dedicava ao comportamento social passava de cerca de 2% para 60% ou 65%-
no total das doze sesses. Quando as guloseimas eram distribudas ao
acaso, o comportamento social declinava acentuadamente mas aumentava de
novo quando as recompensas voltavam a depender da conduta social. As
mudanas foram observadas em todos os membros do grupo. O grupo que era
apenas reforado com elogios no aumentou em absoluto a sua conduta
social; mais tarde, receberam tambm reforadores comestveis e ocorreu
ento o mesmo efeito que no primeiro grupo com trs das quatro crianas,
isto , aumentou a sua conduta social. A quarta criana no apresentou
alterao alguma com a introduo do reforo comestvel. O aumento de
conduta social no se verificou nas sesses de brincadeira livre, onde
no se dava qualquer reforo; durante essas sesses, o comportamento
social manteve-se inalterado.
        Verificou-se que o comportamento social que era mais afetado
pelos reforadores comestveis consistia no contato fsico no-agressivo
com o professor e outras crianas, embora ocorressem tambm vrios
outros comportamentos. Os autores consideram que o surgimento dessas
condutas  um passo importante no desenvolvimento de relaes sociais
significativas.

         Modificao do Comportamento no Adestramento Inicial

        Tcnicas anlogas foram aplicadas ao adestramento inicial em
aptides que tornassem as crianas independentes de auxlio e, no caso
de algumas crianas deficientes, no adestramento ligeiramente mais
tardio de aptides que usualmente so adquiridas logo nos primeiros
anos. Uma

    p. 140
vez mais, a maioria das investigaes foi empreendida no campo da
deficincia mental mas, em alguns casos, as mesmas tcnicas foram
aplicadas ao desenvolvimento de aptides motoras em crianas com
paralisia cerebral.
        Aumentos acentuados nas aptides de autonomia podem ser
realizados, por vezes, com um adequado adestramento intensivo. Colwell e
outros (1973) descreveram uma instituio residencial a curto prazo para
crianas seriamente retardadas em que se obtiveram xitos mediante o uso
de treino intensivo e de uma rotina de atividades ldicas estruturadas.
A tcnica consistiu em usar recompensas tangveis positivas como balas,
biscoitos ou refrescos no comeo; depois,  medida que o adestramento
progredia, em introduzir o elogio social como recompensa e fazer
desaparecer aos poucos as recompensas comestveis. O adestramento
desenrola-se no decorrer de um dia de 15 horas, tendo por cenrio a sala
de estar, a sala de jantar, o ptio de recreio e um centro de
adestramento em que se ensinam aptides motoras e comunicao. Os
autores descrevem os resultados obtidos no ensino das aptides
necessrias para que as 47 crianas que permaneciam na instituio por
perodos entre 3 e 13 meses pudessem comer, vestir-se e fazer sua
toalete sozinhas. Suas idades variavam entre 4 e 15 anos, e eram
portadoras de srias deficincias, com QI's que iam de 5 a 40 (mdia de
16).
        Embora nem todas as crianas ganhassem em escores nas escalas
que avaliavam as atividades de comer, vestir-se e cuidar de sua hegiene
pessoal, a maioria fez progressos; 44 das 47 crianas melhoraram no
vestir, 36 no comer e 33 aumentaram seus escores na escala de avaliao
de hbitos de toalete. Provou-se ser possvel elevar o nvel mdio de
vestir-se desde a capacidade, quando instruda, de tirar a camisa,
calas, sapatos e meias, e, possivelmente, o palet, e comear a
aprender a pr a camisa, que era o nvel mdio no comeo do
adestramento, para a capacidade de vestir e despir cada pea de
vesturio, quando indicada pelo respectivo nome. Comer pela prpria mo
foi elevado de um nvel em que a criana podia mastigar a comida, beber
por um copo sem derramar, usar colher mas sujando-se toda e comer po
com as mos, para um nvel em que ela podia fazer todas essas coisas com
limpeza e tambm usar o garfo com eficincia. O nvel mdio de toalete
no comeo do adestramento descreveu uma criana que ia ao banheiro
quando instruda mas que precisava de

    p. 141
ajuda com as roupas e tinha acidentes, ao passo que, depois do
adestramento, o nvel mdio era dirigir-se ao banheiro quando lho
ordenavam, sem precisar de ajuda com as roupas e tendo raros acidentes
ou nenhum. Esses progressos parecem comparativamente pequenos em relao
ao ritmo de desenvolvimento dessas mesmas aptides numa criana normal,
mas essas crianas eram gravemente retardadas e tinham, at esse
momento, desenvolvido muito poucas aptides. Esse estudo no usou um
grupo de controle mas os autores acharam que, como as crianas tinham
desenvolvido to escassas aptides no passado, o progresso podia ser
razoavelmente atribudo ao programa de adestramento. Tambm apuraram
aumentos na idade mental, medida por testes de inteligncia durante o
perodo em que as crianas recebiam treino intensivo; o nvel mdio de
idade mental subiu de 16,7 meses para 20,1 meses, e a faixa de idade
mental no grupo mudou de uma amplitude de 7 a 32 meses para 9 a 41
meses. Como a situao mdia era 7,1 meses, esses ganhos so
impressionantes.
        Um outro estudo que ilustra a melhoria possvel no comportamento
de crianas portadores de graves deficincias foi empreendido no Royal
Scottish National Hospital (Tlerney, 1973), onde se levou a efeito um
programa de adestramento de higiene pessoal numa enfermaria. Foi
observado que na enfermaria em questo, 21,9% das atividades das
enfermeiras relacionavam-se com a incontinncia entre as crianas e 17%
com os cuidados de higiene pessoal. Na fase pr-experimental, foram
observados em detalhe 200 episdios de toalete e anotado o padro de
comportamento individual de cada criana. Selecionaram- se dois grupos
de 18 pacientes para o experimento; os dois grupos estavam
aproximadamente na mesma faixa etria (entre 6 e 21 anos), a mesma faixa
de idade mental (entre 4,2 e 22,6 meses), e assemelhavam-se em
diagnstico, nvel geral de funcionamento, grau de incontinncia e grau
de mobilidade. Um grupo foi ento submetido a um programa especial de
adestramento de higiene pessoal, ao passo que nenhuma alterao foi
feita no tratamento usual do segundo grupo, que foi usado para
comparao. Os estgios do adestramento foram planejados, com o
propsito de ensinar finalmente o paciente a ir ao banheiro por si s,
retirar a roupa, sentar-se na privada e us-la, e permanecer continente
o resto do tempo. Por exemplo, os estgios

    p. 142
de ir ao banheiro foram: o paciente  levado ao banheiro pela
enfermeira, o paciente indica a sua necessidade de eliminar, o
paciente pede para ir ao banheiro e o paciente vai ao banheiro
independente; cada um destes estgios foi exercitado sucessivamente e
s quando um era atingido com pleno xito  que se tentava o seguinte.
Foram igualmente planejados estgios para lidar com a roupa, sentar-se e
permanecer continente.
        Durante o programa, todo o comportamento apropriado de higiene
pessoal era reforado, premiando a criana com aprovao social e
ateno, e com uma recompensa material como guloseimas ou brinquedos,
dependendo daquilo de que a criana mais gostasse. O programa foi
mantido durante 90 dias e no final desse perodo 14 dos 18 pacientes
haviam demonstrado uma melhoria acentuada, embora nenhum deles ficasse
completamente treinado em todos os aspectos. Contudo, na enfermaria como
um todo, onde havia um total de 52 pacientes, o nmero de episdios
observados de incontinncia foi reduzido de 117 em 24 horas, na fase
pr-experimental, para 148 em 24 horas na fase ps-experimental, e esse
declnio era atribuvel  maior continncia dos 18 pacientes que tinham
sido treinados.
        O grupo de controle que no tinha recebido o reforo e continuou
a ir ao banheiro da forma tradicional mudou muito pouco. Mais tarde, o
programa experimental foi repetido com 17 dos 18 pacientes do grupo de
controle; os resultados foram muito semelhantes e os episdios de
incontinncia reduziram-se ento a 116 em 24 horas na enfermaria. Foi
interessante notar que, no curso do experimento, os pacientes adquiriram
aptides em todas as reas da Carta de Avaliao de Progresso que foi
usada para avali-los; esperava-se que a capacidade de iniciativa
prpria melhorasse, incluindo os cuidados de higiene pessoal, mas em
menor grau a comunicao, socializao e ocupao tambm mostraram
progressos, embora no estivessem sendo diretamente ensinadas.
        Dois exemplos do uso de tcnicas operantes com crianas
portadoras de paralisia cerebral so citados por Connolly (1968). Ambos
visavam  melhoria do desenvolvimento motor. Um deles envolvia o uso de
um jogo que tinha sido planejado de modo que a criana pudesse responder
atingindo um alvo. No comeo, o alvo  muito grande e a criana no tem,
usualmente, qualquer dificuldade

    p. 143
em atingi-lo com xito. Depois,  usada uma tcnica de modelao em que
a rapidez e preciso da habilidade motora so gradualmente modeladas,
pedindo-se que a resposta seja dada cada vez mais depressa ao mesmo
tempo que o alvo vai ficando cada vez menor. Os xitos eram reforados
por uma vasta gama de itens.
        A segunda demonstrao de modelao do desenvolvimento motor
numa criana com paralisia cerebral foi realizada por Meyerson e seus
colaboradores (1967). Neste caso, o sujeito foi um menino de 7 anos de
idade, diagnosticado como espstico moderado e com hemiplegia esquerda,
que no podia ficar de p sem ter algo a que se agarrar e no andava a
menos que algum lhe pegasse na mo, embora seu mdico o considerasse
capaz de caminhar sem esse apoio. Pensou-se que o rapaz era recompensado
por esse comportamento, pois recebia atenes em virtude de sua
deficincia. Assim, foi premiado com fichas que podiam ser trocadas por
guloseimas e brinquedos, no comeo se empurrasse a cadeira at perto da
mesa do experimentador, a fim de mostrar-lhe os resultados da tarefa de
colorir um desenho de que fora incumbido; depois, por ficar de p junto
 mesa sem se apoiar nela; depois, por virar-se para largar a cadeira
que estava segurando para ir agarrar uma outra cadeira atrs dele. As
cadeiras foram depois mais afastadas e, num razoavelmente pequeno nmero
de sesses, o rapaz j estava caminhando de um lado para o outro da
sala.
        As tcnicas de modificao do comportamento esto sendo
aplicadas a uma vasta gama de problemas do desenvolvimento e parecem
geralmente eficazes, desde que se tenha encontrado um reforo adequado a
uma criana e que esse reforo seja aplicado sistemtica e imediatamente
aps o comportamento desejado. Os problemas bsicos dizem respeito 
generalizao e extino (ver volume A3). A aprendizagem
generalizar-se- de modo que a criana desempenhe o comportamento
desejado em outras situaes diferentes (mas apropriadas)? E a criana
persistir no comportamento quando a recompensa deixa de ser fornecida
pelo psiclogo ou professor? Uma soluo para este ltimo problema
consiste em ensinar o comportamento que acarreta a sua prpria
recompensa colocando o meio ambiente mais sob o controle da criana (por
exemplo, ensinando-a a pedir algo ou a desempenhar tarefas que acarretem
aprovao).

    p. 144
                                   9

              Assistncia Residencial para os Deficientes

        As pessoas mentalmente retardadas com e sem outras deficincias
constituem o maior grupo de deficientes que vivem afastados de seus
lares em regime de assistncia residencial. Um considervel nmero de
deficientes fsicos tambm vive em estabelecimentos residenciais  em
pensionatos, hospitais, lares e escolas. Contudo, existe pouco material
publicado a respeito deste ltimo grupo e a maior parte da pesquisa
psicolgica concentrou-se no estudo de deficientes mentais para
descobrir por que so feitos pedidos de assistncia residencial e qual a
melhor maneira de fornec-la.

                   Razes para a Institucionalizao

        Existem numerosos estudos que indicam a existncia de fatores
identificveis para distinguir entre aquelas pessoas deficientes a cujo
respeito se formula uma solicitao de assistncia residencial e aquelas
para quem tal no  requerido.
        Nvel de inteligncia. Dentro do mbito das deficincias a
aceitao pelos pais da normalidade de inteligncia em seu filho produz
atitudes contrrias  assistncia residencial e existem algumas provas
de que isso tambm vale para as atitudes pblicas. Do mesmo modo, no
mbito da deficincia mental, quanto mais baixo for o nvel de
inteligncia, mais provvel  uma solicitao para que a pessoa seja
admitida numa instituio de alguma espcie. Quando aqueles que vivem em
hospitais so estudados, verifica-se

    p. 145
usualmente que os residentes com QI's abaixo de 20 so os que, na grande
maioria dos casos, foram admitidos logo depois de diagnosticados. A
admisso a longo prazo, em contraste com a admisso temporria que 
solicitada para um perodo curto e usualmente predeterminado, costuma
ser requerida num estgio posterior, quando o nvel intelectual aumenta
relativamente.
        Problemas de comportamento. Os problemas criados
pelocomportamento da pessoa deficiente, dentro e fora de casa, tornam
mais provvel o pedido de admisso. Fora de casa, o comportamento
delinqente, como os delitos sexuais, as fugas, brigas ou roubos, tende
a provocar o encaminhamento para admisso e nestes casos o
encaminhamento  iniciado, a maioria das vezes, por agncias sociais,
como os inspetores de livramento condicional ou os assistentes sociais,
e no pelos pais, sobretudo quando est envolvida uma apresentao em
tribunal. Dentro de casa, o comportamento ativo, como as atitudes
agressivas em relao aos pais, irmos e irms, ou a atividade
destrutiva envolvendo danos em propriedade, mveis ou outros objetos da
casa,  o que leva mais freqentemente a um pedido de admisso, e no a
conduta passiva e dependente.
        Antecedentes familiares. Vrios fatores familiares foram
identificados como relacionados aos pedidos de admisso. Lares desfeitos
pela sada de um dos cnjuges, ilegitimidade, inadequao dos pais que
os torna menos aptos a dirigirem um lar e a controlarem e cuidarem dos
filhos, tudo isso propicia as condies que tornam mais difcil manter
em casa uma pessoa deficiente.
        Um outro fator familiar foi descrito como o fracasso do filho em
corresponder s expectativas dos pais. Se esta condio se aplica a um
caso depender das ambies que os pais alimentem a respeito do filho,
das esperanas realistas ou irrealistas que depositem na capacidade do
filhO para atingir o nvel ambicionado e de poderem aceitar as suas
limitaes. O fato de a criana no desenvolver as aptides necessrias
para cuidar de si mesma torna mais provvel o pedido de admisso, ao
constatar-se que  incapaz de adquirir os hbitos adequados para comer
pela prpria mo, vestir-se sem superviso, manter-se razoavelmente
limpo e arrumado, e no ser incontinente. Outros modos em que as
expectativas parentais no so satisfeitas

    p. 146
podem ser se a criana no se der bem com os pais, for mais
desobediente, conflituosa ou desafiadora do que eles esto dispostos a
admitir, ou se o nvel educacional por ela atingido ficar abaixo das
expectativas e no conseguir aprender a ler, contar ou, de uma forma ou
de outra, no apresentar qualquer progresso acadmico.
        As famlias mais numerosas tm sido tambm as que solicitam
admisso com mais freqncia e talvez isto esteja relacionado com mais
uma razo para se pretender a admisso de uma pessoa deficiente: as
necessidades dos outros membros da famlia. Quando solicitam a admisso,
os pais dizem por vezes que acham estar gastando muito mais tempo com o
filho deficiente do que os seus outros filhos normais, e que estes se
vem privados de passeios e de atenes que de outra forma receberiam.
No caso do adulto deficiente, quando a admisso  solicitada por causa
das necessidades do resto da famlia, a principal razo costuma ser o
fato de ele precisar de mais assistncia do que a famlia lhe pode dar,
ou maior superviso do que  possvel, e a sade e vigor dos que cuidam
dele torna-se um fator importante.
        Foi sugerido que as famlias de classe mdia so mais propensas
a solicitar assistncia residencial, mas as provas no parecem muito
claras neste ponto e  possvel que outros fatores sejam mais
importantes.
        Fornecimento de servios. Quanto mais servios forem acessveis
e usados pela pessoa deficiente e sua famlia, menos provvel  um
pedido de admisso. Providncias como servios de diagnstico e a
acessibilidade de algum a quem se pode chamar para orientao e
conselho, a existncia de servios de logoterapia, instalaes escolares
ou oficinas ou outros estabelecimentos onde a pessoa deficiente pode
passar o dia, e instalaes recreativas como clubes sociais para
reunies vesperais, tudo isto veio tornar mais fcil manter uma pessoa
deficiente em casa. Alm disso, o conhecimento das acomodaes
residenciais e a opinio quanto  sua qualidade afetam a atitude dos
pais ao solicitar a admisso.
        Outros fatores possveis. Existe desacordo quanto  relevncia
de alguns fatores adicionais, na medida em que foram considerados
importantes em alguns estudos mas no em outros. A epilepsia
descontrolada  um desses fatores,

    p. 147
tendo-se pensado algumas vezes que aumentava a probabilidade de
admisso. Outros incluem a presena de anomalias fsicas, quando a
pessoa deficiente tem um aspecto estranho e se observa facilmente que 
deficiente,, assim como as atitudes da famlia em relao ao
retardamento em geral.

            Deficincias em Populaes Institucionalizadas

        Muitos estudos interessaram-se pelos efeitos de ser criado numa
instituio ou ter passado a os ltimos tempos da infncia; e alguns
consideraram as vantagens e desvantagens para a pessoa deficiente adulta
de viver num hospital, pensionato ou comunidade.
        O principal problema ao avaliar os efeitos de se viver numa
instituio  que, quando se compara dois grupos, o dos que vivem numa
instituio e o dos que vivem em casa, nem sempre  possvel dizer que,
no momento em que oprimeiro grupo foi institucionalizado, no havia
qualquer diferena relevante entre os seus membros e os que viviam em
casa. Dos fatores acima enumerados pode-se depreender que existem muitas
reas possveis de diferena entre pessoas deficientes que permanecem em
casa e as. que saem, e parece provvel que as que vo para instituies
residenciais so provavelmente menos aceitveis a seus pais, na medida
em que se desenvolvem mais lentamente, so menos receptivas, de convvio
mais difcil ou talvez as atitudes dos pais para com elas sejam
distintas do que eram no comeo. Alguns investigadores tentaram evitar
esse problema estudando pessoas que viveram em regime de assistncia
residencial desde que eram bebs e por conseguinte, mais suscetveis de
terem sido apartadas da famlia por outros fatores que no os
pertinentes scaractersticas da criana; mesmo nessa situao,
entretanto, a evidncia de sua incapacidade pode t-las diferenciado.
Por outro lado, as tentativas para evitar o problema de que os grupos
sejam pr-selecionados consistiram no emparelhamento cuidadoso de tantas
caractersticas quanto possvel entre o grupo a ser estudado na
instituio e o grupo em casa.
        Quase todos os estudos mostraram que um grupo vivendo num
hospital  menos desenvolvido e tem mais dficits do que um grupo
comparvel vivendo em casa

    p. 148
quando os grupos so equiparados por fatores como idade cronolgica,
idade mental e QI. Alguns estudos investigaram diferenas nos grupos
institucionalizados e apuraram fatores que se relacionam com essas
diferenas, o que sugere no ser a institucionalizao o nico fator que
gera dificuldades e que as experincias de vida, antes da admisso,
tambm so importantes para o desenvolvimento subseqente.
        Existem provas, entretanto, de que estar numa instituio nem
sempre se relaciona com um nvel inferior de funcionamento.
Verificaram-se aumentos no QI de deficientes mentais moderados quando o
ambiente institucional  razoavelmente estimulante e quando os
antecedentes familiares da pessoa so sofrveis; e esses aumentos so
tanto maiores quanto mais fosse de privaes o meio donde a pessoa
provinha. No tocante a qualquer pessoa em particular, se a colocao
como interna ter um efeito nocivo ou benfico depender das condies
do meio donde veio e do meio onde est entrando. H provas da existncia
de diferenas entre instituies no grau em que fornecem condies
propcias ao mximo desenvolvimento de seus residentes.
        Examinaremos agora algumas das reas em que se verificou que as
pessoas que vivem em hospitais esto menos desenvolvidas que as que
vivem em suas casas.

                           Aptides Verbais

        Existe um acordo bastante geral em que o desenvolvimento verbal
 mais retardado para os que vivem em hospital do que para os que vivem
em casa, sobretudo as crianas. As aptides verbais mais avanadas, do
ponto de vista do desenvolvimento, tendem a mostrar um maior grau de
atraso do que as que se manifestam nas fases iniciais do desenvolvimento
verbal. Encontraram-se menores diferenas entre os grupos instituio,
e famlia nas reas da compreenso verbal e do uso de palavras,
usualmente substantivos, ao passo que a complexidade e diversidade de
frases, a definio de palavras e a gama de sons lingsticos mostram
diferenas maiores entre as pessoas institucionalizadas e as que
permanecem com a famlia.
        Por exemplo, um estudo (Lyle, 1959) de dois grupos de crianas
gravemente retardadas, um vivendo num hospital

    p. 149
e o outro em casa, apurou que no havia diferenas num teste de
inteligncia no-verbal mas havia diferenas muito significativas em
subtestes verbais a favor do grupo que vivia com a famlia e freqentava
diariamente a escola. Quando os grupos foram divididos entre crianas
com o Sndrome de Down e as que apresentavam outros diagnsticos (porque
as primeiras tm, em geral, a fala menos desenvolvida), verificou-se que
as crianas com Sndrome de Down que viviam em casa estavam, em mdia,
adiantadas doze meses em relao s que viviam em hospital, quando
submetidas a testes verbais; e as que haviam recebido outros
diagnsticos e viviam com a famlia estavam, em mdia, adiantadas seis
meses em relao s hospitalizadas. As crianas com Sndrome de Down no
hospital pareciam mais retardadas na fala, pois havia em mdia uma
diferena entre elas e as crianas com outros diagnsticos de nove meses
de idade mental verbal, ao passo que no grupo total das que viviam em
casa no havia diferena entre as que tinham o Sndrome de Down e as que
apresentavam outros diagnsticos; e foi sugerido que as crianas
hospitalizadas com Sndrome de Down tm pior desempenho nas reas
verbais.
        Raras vezes foi possvel descobrir se os grupos estudados eram
de nvel de desenvolvimento semelhante e comparveis quanto  freqncia
de problemas de comportamento na poca em que um grupo foi
hospitalizado, embora se verificasse que uma criana que usava a fala
quando entrou no hospital tende mais tarde a apresentar melhores escores
verbais. Contudo, se a vida hospitalar retardada o desenvolvimento da
fala, as possveis causas so que as crianas recebiam provavelmente um
adestramento verbal mais ativo em casa e mais persuaso para usar
palavras, ou podiam tirar proveito do fato de estar com irmos, irms e
amigos de idade semelhante mas cujo desenvolvimento verbal era maior.

                         Comportamento Social

        H indicaes de que qualquer criana, seja ela deficiente ou
no, desde que viva num meio desprovido de interesses e estmulos,
evidenciar um comportamento mais imaturo e mais preocupado consigo
mesma e seu prprio corpo, e no com outras crianas e adultos. No
contexto do comportamento social, as instituies e as

    p. 150
condies de vida nelas variam, como  de se esperar, e tem efeitos
distintos sobre o comportamento, de acordo com o seu grau de
estimulao. A extrema apatia que se observava em crianas
institucionalizadas, h algumas dcadas, quando os hospitais e os lares
infantis estavam menos equipados para satisfazer as necessidades das
crianas, raramente se v hoje em dia. Contudo, as observaes sugerem
que as crianas deficientes em hospitais tendem a produzir movimentos
mais difusos e comportamentos auto- orientados, isto , empenhar-se-o
em mais atividades que possam completar sozinhas, sem o envolvimento de
uma outra pessoa ou um objeto, como balanar o corpo para trs e para
diante, observar as prprias mos ou mord-las, ou correr de um lado
para outro sem qualquer finalidade bvia. Foi sugerido que, se esses
comportamentos se tornam habituais, podem desencorajar o desenvolvimento
subseqente de uma conduta mais madura e tornar menos provvel a
formao de relaes sociais.
        Diversas pesquisas apuraram que as crianas hospitalizadas tm
menos brinquedos, seus movimentos so mais restringidos, tm menos
experincias de contato social com adultos, e que os contatos sociais
que efetivamente tm so mais variados do que uma criana em casa poder
experimentar. Isto significa que a criana tem menos oportunidades de
vir a conhecer bem qualquer adulto. Estes fatores interatuam mutuamente,
pois sabe-se que o Contato social estimula a explorao de objetos, o
seu uso e o interesse neles, e tem sido freqentemente observado que uma
criana deficiente precisa de um adulto ou de uma criana mais velha
para ensin-la a brincar, assinalando caractersticas de um brinquedo,
sugerindo-lhe como poder brincar com ele e mostrando aprovao quando
ela manipula com xito o brinquedo.

                      Comportamento Manipulatrio

        Verificou-se que as crianas em hospital possuem menos
habilidade para agarrar e usar brinquedos pequenos e para brincar de
forma construtiva, atravs de atividades como construes de armar ou
completar quebracabeas. Parece provvel que essa incapacidade esteja
vinculada aos fatores mencionados no pargrafo anterior, na medida em
que a criana dispe de menos brinquedos e tem menos oportunidades de
aprender a brincar com

    p. 151
um adulto.  difcil prover a um adequado suprimento de brinquedos numa
enfermaria e a falta relativa de brinquedos no se deve necessariamente
 m-vontade em fornec-los. Num grupo de crianas deficientes existem
tipicamente diferentes nveis de desenvolvimento e diversos graus de
destrutividade. Os suprimentos de brinquedos tendem a diminuir com
grande rapidez quando so usados por um grupo e muitos brinquedos que
so adequados para o nvel de desenvolvimento da criana mentalmente
deficiente foram planejados para que crianas menores e menos robustas
os manejassem, embora alguns brinquedos especialmente projetados para
deficientes mentais j existam hoje no mercado.

                Distrbio de Personalidade e Emocional

        Alguns estudos indicaram diferenas nessas reas. Verificou-se
que as crianas em hospitais so menos categricas, menos exigentes e
mais passivas. Um maior nmero das hospitalizadas foi considerado
emocionalmente perturbado. Esta ltima concluso est quase certamente
relacionada com o estado dos pacientes na data de admisso, pois aqueles
que estavam perturbados foram admitidos em grande parte por causa da
perturbao. Tem sido constatado nas populaes hospitalares que as
diferenas entre os pacientes considerados bem ajustados e os tidos por
desajustados se relacionam com a idade em que a pessoa deixou seus pais
e o grau em que o contato foi mantido, se levarmos em conta que a
tendncia  para que os melhor ajustados tenham sido institucionalizados
mais tarde e mantido contato com um dos pais.

                    Desenvolvimento Fsico e Motor

        Sempre que foram comparadas medidas fsicas, verificou-se que as
crianas que viviam em casa eram mais altas, mais pesadas, tinham maior
comprimento de perna e maior circunferncia da barriga da perna, e
haviam comeado a andar mais cedo. As concluses sobre se o
desenvolvimento motor  mais lento nas crianas hospitalizadas tm
variado, mostrando alguns estudos que no h diferenas e outros
assinalando dficits nas crianas que vivem em hospital. O que se sabe 
que, quando aptides como andar so investigadas, a qualidade da
assistncia

    p. 152
fornecida pela instituio  um fator importante. As crianas em
instituies onde elas so acarinhadas e estimuladas tm maiores
probabilidades de andar muito mais cedo do que as que recebem menos
estimulao.

                       Mudanas nas Instituies

        Vrias mudanas foram institudas em contextos institucionais
para demonstrar as formas possveis de evitar ou de melhorar os efeitos
negativos de algumas caractersticas das instituies assistenciais.

                          Viver em Famlia

        Um modo de fornecer estimulao e contato extra com adultos s
crianas pequenas consiste em alojar juntos residentes de diferentes
idades, em vez de os colocar em enfermarias separadas para adultos e
crianas. A finalidade  obter benefcios recprocos, na medida em que
as crianas receberem ateno e estimulao dos residentes adultos e
estes experimentarem o sentimento de cuidar de crianas. Verificou-se
que o sistema tem vantagens para crianas muito pequenas, em termos de
nvel de desenvolvimento, embora se conhea muito pouco acerca dos
efeitos sobre os adultos.

                   Fornecimento de Desvelo Materno

        Um estudo mostrou que quando um grupo de rapazes gravemente
retardados recebeu intensivos desvelos maternos, sendo amimados,
acariciados e falando-se ternamente com eles, os rapazes aumentaram seu
comportamento decidido, passaram a chupar menos o dedo e a ter poucos
movimentos mal coordenados. Um outro estudo demonstrou que, mediante o
fornecimento de uma consistente figura de me, a receptividade social
das crianas retardadas pde ser melhorada.

                      O Experimento de Brooklands

        Este projeto (Tizard, 1964) demonstrou que os princpios de
puericultura e educao usados em estabelecimentos residenciais para
crianas normais podem ser aplicados

    p. 153
 assistncia de crianas portadoras de srias deficincias mentais e
que estas colheriam grandes benefcios. Dezesseis crianas com idades
entre 18 meses e 5 anos, que viviam num hospital para deficientes
mentais, foram transferidas para uma grande casa onde passaram a viver.
O hospital onde estavam era velho e superlotado, e a vida cotidiana era
afetada pelos problemas e necessidades do hospital, pelo que a tendncia
era para as crianas serem alimentadas, vestidas e lavadas todas ao
mesmo tempo, num grande grupo, com escassas oportunidades para brincar.
Em Brooklands, elas viviam em grupos menores, com assistncia mais
contnua do mesmo membro do quadro de pessoal para cuidar de cada grupo.
Havia uma professora que usava mtodos de escola maternal e os
brinquedos eram escolhidos de modo apropriado s necessidades das
crianas. Em geral, as instalaes e a, atmosfera estavam planejadas
para se parecerem muito mais com um lar do que com um hospital e para
colocarem a criana mais no centro das atenes. Os resultados do
projeto, que durou dois anos, indicaram que as crianas haviam-se
beneficiado das melhores condies de vida. AS medidas de idade mental
verbal mostraram que ela tinha aumentado dez meses em mdia enquanto as
crianas permaneceram em Brooklands, ao passo que o aumento mdio num
grupo de controle ainda hospitalizado no passou de quatro meses.

                           O Experimento E6

        Inspirados no projeto Brooklands, Stephen e Robertson (1972)
aplicaram os mesmos princpios a uma enfermaria num hospital infantil. A
faixa de idade mental das 20 crianas que viviam na enfermaria E6 era
mais baixa que a das crianas que foram para Brooklands, sendo de seis
meses a 3 anos e meio. No comeo do experimento, as crianas tinham
entre 2 e 11 anos de idade. Tal como o grupo de Brooklands, as crianas
foram divididas em dois grupos menores para a vida cotidiana, sendo cada
grupo um perfil transversal de idade, sexo e grau de deficincia; as
enfermeiras estavam principalmente adstritas a um ou outro dos
subgrupos. Realizavam-se reunies semanais com o pessoal da enfermaria
para relatar o progresso de cada criana e a consistncia do tratamento
era reforada

    p. 154
mediante um grfico de progresso e uma lista de palavras usadas com cada
criana, colocados em lugar de destaque. As titias, que eram
visitantes voluntrias, dedicavam-se quelas crianas que no tinham
parentes que as visitassem, e havia reunies trimestrais para os pais e
as titias. Outras caractersticas da E6 foram a instalao de uma
caixa de ferro-velho, contendo itens que uma criana normal encontraria
atirados pelos cantos da casa. mas que precisavam ser conscienciosamente
selecionados numa enfermaria; sesses de teatro  tarde, com meninas de
um colgio local; vesturio individualizado para cada criana; e uma
tentativa de fornecer brinquedos individuais, freqentes excurses e um
audacioso playground. As crianas com idades mentais acima de 2 anos iam
 escola e eram ensinadas por uma professora de jardim de infncia; as
outras tinham um programa de jogos na enfermaria, planejados de acordo
com a sua idade mental. Quando o experimento j ia em seu terceiro ano,
os resultados mostraram que as crianas tinham beneficiado  comparadas
a crianas semelhantes em outras enfermarias  em desenvolvimento mental
e capacidade de cuidar de si mesmas, embora o progresso fosse obtido
principalmente por aquelas crianas cuja idade mental estava acima dos 2
anos.

              Variedades de Estabelecimentos Residenciais

        As atitudes atuais so favorveis  reduo das dimenses dos
grandes hospitais para deficientes e ao fornecimento de mais acomodaes
em pensionatos, no seio da comunidade, para pessoas deficientes que no
podem viver em casa. Os grandes hospitais so freqentemente cercados de
extensos terrenos e geograficamente isolados da cidade mais prxima, e a
opinio atual  que a pessoa deficiente pode vir a ficar mais integrada
na sociedade se viver mais perto de toda a gente. Os pensionatos podem
fornecer uma base para se viver de um modo muito mais semelhante ao de
um lar normal do que seria possvel em qualquer hospital tradicional,
que possui amplas reas de living e dormitrio unidas entre si por
corredores.
        Embora os pensionatos comunitrios tenham por finalidade ajudar
a reduzir o tamanho dos hospitais, ao permitir a transferncia daqueles
que esto hospitalizados

    p. 155
mas so capazes de viver numa penso residencial, existem provas de que
tais pensionatos esto sendo hoje mais usados para admisso direta desde
a comunidade. Essas admisses so principalmente devidas  morte,
hospitalizao, doena ou incapacidade da me ou de quem cuide da pessoa
deficiente; e, em menor grau, devem-se tambm a problemas de
comportamento da pessoa que est sendo internada. Por conseguinte, os
pensionatos esto provavelmente admitindo pessoas que teriam ido para um
hospital se no existissem esses estabelecimentos e desse modo esto
reduzindo indiretamente o tamanho dos hospitais; mas, de momento, parece
haver ainda um nmero muito escasso de pensionatos para causar rpidas
redues no tamanho dos hospitais.

                     Independncia em Pensionatos

        Os pensionatos variam em seus critrios para admisso entre os
que aceitam qualquer criana de uma determinada rea, independentemente
do nvel de desenvolvivimento ou comportamento, at aos que requerem que
os residentes trabalhem em emprego aberto. Contudo, muitos pretendem
fornecer a oportunidade de um modo de vida mais independente do que 
habitual em hospitais. Existem indicaes, porm, de que em alguns casos
os residentes dos pensionatos so mais superprotegidos e assistidos do
que precisavam ser, e de que nem todos os pensionatos esto cumprindo a
funo de promover a autonomia. Uma comparao de internados num
hospital e de residentes num pensionato mostrou que, quando avaliados e
reavaliados doze meses depois, embora os residentes de pensionato
tivessem realizaes muito superiores em ambas ocasies no tocante 
autonomia, os pacientes hospitalizados apresentaram significativos
aumentos durante o ano, ao passo que os residentes do pensionato no.
Considerou-se que isso era devido em parte ao nvel superior de
realizao dos residentes do pensionato, o que dava menos margem para
progressos; mas era mais atribuvel  tendncia de alguns membros do
quadro de pessoal para fazerem coisas pelos residentes que estes
poderiam ter aprendido a fazer por si mesmos.
        Quando a independncia  encorajada e realizada nos pensionatos,
pode surgir um problema: o residente torna-se independente a um grau tal
que deixa de precisar

    p. 156
da assistncia residencial. Ele pode facilmente sentir-se to bem
instalado e confortvel no pensionato que relutar em mudar-se para uma
existncia mais independente, o que sustar o seu prprio progresso e
impedir, ao mesmo tempo, que outra pessoa ocupe o seu lugar na
residncia. Alternativamente, pode sentir relutncia em sair porque no
conhece ningum na comunidade e sentir-se-ia desolado se tivesse de
viver sozinho longe do grupo do pensionato. Uma soluo do problema de
para onde devem ir os residentes sados de pensionatos  o fornecimento
de lares para grupos. Estes lares so casas comuns alugadas ou compradas
por autoridades locais, sociedades voluntrias ou hospitais, onde vive
um pequeno grupo, usualmente de cinco ou seis pessoas. At  data, so
poucos esses lares para deficientes mentais mas, embora alguns
residentes no tenham sido colocados neles com xito, a maioria dos que
foram instalados est funcionando bem, A maior parte dos deficientes
mentais que vivem em lares apresenta deficincias moderadas e espera-se
deles que consigam a total independncia para cuidarem de si mesmos.
Entretanto, a tendncia  para que lhes seja proporcionada uma
considervel soma de apoio, em comparao com a que  facultada aos
lares para doentes mentais. A maioria recebe visitas freqentes de
assistentes sociais, mantm contatos com hospitais e, usualmente, conta
com ajuda domstica.

                          Contatos Familiares

        Residir num pensionato habilita freqentemente uma pessoa
deficiente a ter mais contato com sua famlia e ficou demonstrado que a
colocao de uma pessoa num pensionato a quinze quilmetros de sua
famlia aumenta os contatos, desde que a famlia tenha interesse nisso.
Verificou-se que apenas uma minoria de residentes em pensionatos tem
amigos fora deles mas at uma pequena minoria de internados em hospitais
pode contar com alguns.

         As Atitudes dos Residentes em Relao aos Pensionatos

        Campbell (1968) entrevistou 252 deficientes mentais e 64 doentes
mentais, todos residentes em pensionatos. 57% tinham sido transferidos
de um hospital para o pensionato

    p. 157
e 43% diretamente da comunidade, quer de suas casas ou de outras
instituies residenciais. A autora verificou que 53% preferiam viver no
pensionato e 19% preferiam sua residncia anterior (8% no manifestaram
qualquer preferncia clara). Houve diferenas entre os que tinham vivido
antes em hospitais e os que provinham de suas casas. Do primeiro grupo,
88% preferiam o pensionato ao hospital e apenas 7% preferiram sua
residncia prvia. Os que provinham de casa estavam divididos mais
uniformemente: 40% preferiram o pensionato e 487o davam preferncia a
residir com a famlia. A declarao mais comum entre os que preferiam o
pensionato ao hospital foi que dispunham de maior liberdade no
pensionato e podiam sair quando lhes apetecia; alguns disseram que o
pensionato estava mais prximo da famlia e outros preferiram o conforto
material ou o pessoal do pensionato. Do pequeno nmero que preferia o
hospital, seis no explicaram os motivos, trs disseram que era porque
seus amigos estavam l e um, num pensionato para ambos os sexos achou-o
ruidoso demais por causa das moas.
        Tambm foi perguntado aos residentes se preferiam um quarto s
deles ou dividir o quarto com outra pessoa. A maior parte dos que
provinham de suas casas deu preferncia ao quarto individual,
considerando-o mais ntimo, mais tranqilo e que podia ser arrumado como
o residente gostava. Os que provinham de hospitais preferiram repartir o
quarto e deram como razo principal gostarem, de companhia.

                        O Alvo  a Normalidade

        As atuais tendncias subjacentes na assistncia residencial,
seja em hospital ou pensionato, so no sentido de proporcionar  pessoa
deficiente uma vida o mais normal possvel.
        A mesma finalidade est presente em todo o campo da psicologia
da deficincia, isto , ver at que ponto poderemos colocar a
normalidade como alvo para a pessoa deficiente e de que modo poderemos
proporcionar-lhe o que as outras pessoas tm.
        Pretendemos descobrir de que aptides e recursos ele necessita,
qual a melhor maneira de ensin-lo a adquiri-los e como poderemos
ajud-lo a adaptar-se o mais normalmente

    p. 158
possvel ao seu meio ambiente. Pretendemos descobrir como o seu meio, as
instalaes fornecidas, a famlia em que vive e as atitudes dos que o
cercam afetam o deficiente, e como podero ser introduzidas mudanas que
aumentem as suas oportunidades de normalidade.
        Ter como alvo a normalidade no significa que as limitaes
impostas pela deficincia sejam ignoradas, mas sim que devem ser aceitas
como ponto de partida com formalidade, mesmo que sintamos ser impossvel
alcan-la, servindo de princpio a indicar a que se deve seguir.

    p. 159
Apndice: Uma Descrio de Deficincias

        As notas que se seguem so breves descries das deficincias
citadas neste volume e pretendem habilitar o leitor a compreender o
tipo, variedade e extenso das deficincias envolvidas em cada condio,
no devendo ser consideradas completas definies etiolgicas e mdicas.
        Autismo: Tambm referido como psicose infantil, autismo
infantil precoce, esquizofrenia infantil e "psicose da infncia, 
uma condio caracterizada por vrios sintomas, dos quais a criana
autista possui alguns mas no necessariamente todos. Esses sintomas
incluem o comportamento auto-suficiente e sofrvel relacionamento
emocional com outras pessoas, ausncia ou deficincia da fala, tendncia
para comportamento ritualista ou maneirismos  como a dedicao anormal
a um objeto ou a tendncia para dispor os objetos em linhas retas ou
outros padres rgidos, reao imprpria a estmulos sensoriais,
insistncia numa rotina fixa e resistncia a mudanas, e ilhas de
funcionamento inteligente num contexto geral de retardamento mental.
        Deficincia dos Membros: Envolve a ausncia ou o
subdesenvolvimento de um ou mais membros. O grupo mais conhecido de
crianas com deficincias congnitas dos membros  o daquelas cuja
condio se deve ao uso da droga talidomida como sedativo ou antdoto
para as nuseas durante a gravidez da me, antes dos efeitos da droga
sobre o feto terem sido divulgados; no caso dessas crianas, houve
muitas anormalidades, incluindo as mos ligadas, aos ombros e os ps
ligados as coxas

    p. 160
        Deficincia Auditiva: Inclui a surdez e a surdez parcial. O grau
de deficincia varia, podendo ser quase completa, ou a pessoa ser capaz
de ouvir alguns nveis de som mas no outros, ou ser geralmente um pouco
dura de ouvido.
        Deficincia Visual: Inclui a cegueira e a viso parcial, e varia
em gravidade desde a incapacidade total para ver at um certo grau de
dificuldade que afeta a vida cotidiana.
        Distrofia Muscular: Inclui vrias condies. O tipo referido
neste volume e o que mais afeta as crianas  conhecido como tipo
Duchenne ou distrofia muscular progressiva. Afeta sobretudo os
indivduos do sexo masculino e caracteriza-se por um enfraquecimento e
definhamento progressivo dos msculos; a anormalidade ocorre no msculo
e no no sistema nervoso. Os sintomas comeam nos primeiros dez anos e a
expectativa de vida  muito reduzida, ocorrendo usualmente a morte na
casa dos vinte anos. A causa  gentica e para a me que tem esse gene,
metade dos seus filhos corre o risco de contrair distrofia muscular e
metade das filhas ser provvel portadora do gene.
        Doena mental:  uma condio que usualmente implica que o
comportamento e a capacidade de viver uma vida normal estiveram antes
intatos, em contraste com a deficincia mental, que  quando a condio
est usualmente presente desde o nascimento. A tendncia  para que a
doena mental envolva primordialmente distrbios no estado emocional e
anormalidades no comportamento, ao passo que as caractersticas
principais da deficincia mental so o limitado desenvolvimento
intelectual e a conduta retardada. Uma doena mental pode ser de curta
durao, pode reaparecer periodicamente ou ter efeitos duradouros, mas a
deficincia mental  uma condio a longo prazo e geralmente duradoura.
        Deficincia Mental: Envolve o desenvolvimento mental retardado
em vrios graus. Na maioria dos casos, o deficiente mental moderado no
necessita de assistncia especial; somente uma minoria tem problemas e
muitos nem so sequer facilmente identificveis como deficientes. O
deficiente mental grave raramente alcana a completa independncia e
necessita usualmente de um certo grau de assistncia

    p. 161
e de existncia protegida. Em muitos casos, no pode ser estabelecida
uma causa definida. O maior grupo identificvel de deficientes mentais
graves, o qual permite o estabelecimento de um diagnstico,  o portador
do Sndrome de Down (mongolismo), causado por um defeito gentico desde
a poca da concepo.
        Epilepsia: Refere-se a episdios de distrbio no funcionamento
do crebro; envolve perda temporria de conscincia, convulses ou
mudanas de sensao, movimento, funces involuntrias, estados mentais
ou emocionais. Na maioria dos casos no se encontra uma causa
especfica; em alguns casos, a epilepsia  produzida por uma condio
identificvel que afeta o crebro, como um ferimento, uma doena,
inflamao ou tumor. Grande parte da epilepsia pode ser bem controlada
por drogas modernas.
        A epilepsia grana mal envolve perda de conscincia, desmaio e
convulses. A epilepsia petit mal  menos perceptvel e usualmente
envolve uma breve perda de conscincia, quando a pessoa pode suspender o
que est fazendo, deixar cair o que tem nas mos ou parar de falar.
Outros tipos de epilepsia envolvem um comportamento semelhante ao
transe, episdios de confuso ou convulses unilaterais.
        Paralisia Cerebral:  um termo geralmente aplicado a um grupo de
condies resultantes de uma leso causada no crebro em
desenvolvimento, leso essa que pode ter ocorrido antes, durante ou aps
o parto. A principal caracterstica  a perda de controle sobre os
movimentos corporais voluntrios. A condio  de gravidade vria, desde
a benigna e dificilmente perceptvel, talvez afetando apenas um membro,
at  de extrema gravidade e totalmente mcapacitadora. O termo
espasticidade  usado algumas vezes como sinnimo de paralisia
cerebral mas, usado mais estritamente, refere-se  mais comum dessas
condies (mais de 50%), quando os msculos voluntrios se contraem em
grandes espasmos e os membros, olhos e lngua ficam rgidos e difceis
de controlar. A segunda forma mais comum (cerca de 25%), a atetose,
caracteriza-se por constantes movimentos de contoro.
        Spina bifida:  um efeito na medula espinhal, em que o canal
vertebral e, usualmente, a prpria medula esto

    p. 162
incompletamente fechados. A gravidade da condio varia com a posio e
extenso do defeito e tanto pode ser virtualmente imperceptvel como
seriamente incapacitador. Quando os nervos existentes na medula espinhal
so expostos, pode ocorrer a hidrocefalia, um aumento no volume do
fluido crebro-espinhal dentro do crnio. Os problemas associados 
spina bifida tambm dependem da posio da leso e so, em particular, a
incontinncia e a incapacidade de andar, devida  paralisia das pernas.

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Personality by Normal and
Mentally Retarded Boys of Mental Subnormality, 16   (30) :  24-8

COMPOSTO E IMPRESSO PELOS ESTABELECIMENTOS GRFICOS BORSOI S.A., INDSTRIA E
COMRCIO, NA RUA FRANCISCO
MANUEL, 51/55, RIO DE JANEIRO, RJ, PARA ZAHAR EDITORES

Capa final:

IMAGENS DO  HOMEM EM PESQUISA PSICOLGICA

JOHN SHOTTER

        A Psicologia moderna prometeu descobrir a verdadeira natureza
do homem em seus laboratrios experimentais. Mas no descobriu. Apenas
investigou o que a acontece quando os homens so levados a comportar-se
como se fossem ratos, mquinas, canais de informao etc. E estamos
agora mais perplexos do que nunca acerca do que realmente somos.
Construir uma verdadeira imagem de ns mesmos exige uma abordagem
radicalmente diferente.
        Essa a abordagem que nos prope este novo volume, de contedo
algo polmico, do CURSO BSICO DE PSICOLOGIA, capaz de justificar  como
sugere o seu apresentador  a realizao de seminrios para debate sobre
as teses formuladas. Em que consiste essa abordagem? Em destacar a
importncia dos aspectos culturais, histricos e sociais do homem, em
lugar das preocupaes cientficas mais ortodoxas que do prioridade aos
aspectos naturais, orgnicos e biolgicos. A tese central do livro  que
a Psicologia ter que se revelar como cincia moral da ao e nunca como
cincia natural do comportamento.
        Vrias so as fontes utilizadas pelo autor neste ensaio de
Psicologia Terica. Alm das crticas fenomenolgicas de MILLER e KOCH
ao Behaviorismo, sobressaem as contribuies de DEWEY, atravs de seu
famoso estudo do arco reflexo e do conceito de ao, definida em termos
que no permitem a sua reduo ao conceito neutro de conduta; de GEORGE
MEAD, com o seu to celebrado e to pouco lido Mind, Self and Society;
de GEORGE KELLY e sua teoria do construto pessoal, que hoje exerce
indubitavelmente a mais profunda influncia no pensamento psicolgico
britnico; de NEISSER e sua teoria cognitiva; e de DREYFUS, no que se
refere  ineficcia do modelo ciberntico.
         interessante assinalar que JOHN SHOTTER, hoje inteiramente
devotado ao estudo dos fundamentos filosficos da Psicologia e, em
particular,  interao me/filho como paradigma do processo em que o eu
se desenvolve, iniciou sua carreira profissional trabalhando nas reas
do condicionamento operante, da psicofsica e da simulao de
computador, antes de reformular todo o seu quadro de referncia
intelectual, repudiar o naturalismo e propugnar a reintegrao
humanista.

Unidade A: Psicologia Experimental

A1 Introduo  Cincia Psicolgica/David Legge

A2 Psicologia Fisiolgica / John Blitndell

A3 Aprendizagem e Reforo/Steve Walker

A4 Percepo e Informao/Paul Barber e David Legge

A5 Processamento de Informao e Aptides/D. Legge e P. Barber

A6 Memria Humana/Vernon Gregg

A7 Pensamento e Linguagem / Judith Greene

A8 Planejamento Experimental e Estatstica/Steve Miller

A9 Primeiros Experimentos em Psicologia/J. Gardiner e Z. Kamnska


Unidade B: Psicologia Social

BI Comportamento Social /Kevin Wheldall

B2 Comportamento Interpessoal e de Grupo/Judy Gahagan

B3 Valores, Atitudes e Mudana de Comportamento/Ben Reich e Christine
Adcock

B4 Psicologia Social das Organizaes/Frederick Glen

B5 Psicologia e Estrutura Social/Barry Stacey

Unidade C: Psicologia do Desenvolvimento

C1 Crescimento e Mudana/Harry McGurk

C2 Desenvolvimento Cognitivo/Johanna Turner

C3 Psicologia do Crescimento em Sociedade/Tony Booth

C4 Influncia da Cultura no Comportamento/Robert Serpell

C5 Dentro e fora da Escola/Joan Freeman

Unidade D: Personalidade

 D1 A Pessoa em Psicologia/John Radford e Richard Kirby

D2 Motivao/Phil Evans

D3 Teorias da Personalidade/David Peck e David Whitlow

D4 Diferenas Individuais/Richard Kirby e John Radford

Unidade E: Psicologia e Trabalho

El Psicologia e Trabalho/Roy Davies e V. J. Shackleton

E2 Seleo e Avaliao no Trabalho/Gilbert e Helen Jessup

E3 Psicologia do Treinamento/Robert Stammers e John Patrich

E4 Homens e Mquinas/Hywel Murrell

E5 Motivao no Trabalho/Hywel Murrell

Unidade F: Psicologia, Sociedade e Mudana

F1  Necessrio Mudar? /Fay Fransella

F2 Psicologia do Deficiente/-Rosemary Shakespeare

F3 Psicologia Clnica: Teoria e Terapia/Dougal MacKay

F4 Psicologia da Comunidade/Mike Bender

F5 Psicologia e Meio Ambiente/Terence Lee

F6 Como Escolhemos: Psicologia do consumidor/Mary Tuck

F7 Imagens do Homem em Pesquisa Psicolgica/John Shotter

F8 Perspectivas Radicais em Psicologia/Nick Heather
